quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Proseando sobre... Tudo Pode dar Certo



Estamos diante um filme de Woody Allen com jeito de Woody Allen e sem Woody Allen – ao menos em cena. O diretor, roteirista e ator entrega seu novo trabalho, “Tudo pode dar certo”, trazendo um protagonista com os trejeitos do diretor e humor ácido, mas sem o grande vigor natural cômico, embora seu esforço seja notável. Dessa vez, como em seus principais sucessos, Allen questiona o homem e o universo, através de um personagem, Boris Yellnikoff (vivido por Larry David co-criador e ator da sitcom “Seinfeld”), revelando-se cético e ranzinza logo nas primeiras cenas, e ainda hipocondríaco. Um cara excêntrico, extravagante intelectualmente, um ex físico que quase foi indicado ao Nobel refletindo sobre a vida, seu encantos e desencantos, o que importa e o que pouco interessa. Esse homem, incomum, inusitado, como costumam ser os personagens do diretor – principalmente quando o próprio atua – vem de um final de relacionamento perfeito e justamente essa perfeição o fez dar errado.

Especiarias de Woody Allen em forma e ativo ao longo de seus 74 anos trazendo uma nova musa ao filme, – Scarlett Johansson ficou de fora desse – a jovem Evan Rachel Wood. A loira, que ganhou fama principalmente por sua personagem no drama “Aos Treze”, vive uma garota ingênua do interior fugindo dos pais se perdendo nos subúrbios de Nova York onde encontra Boris. Faminta e sozinha, ela pede abrigo ao homem que imediatamente recusa! Após muita insistência, deixa a jovem entrar em sua casa com condições permitindo uma improvável amizade. São duas gerações se chocando com a transformação dessa jovem atenta aos ensinamentos desse tipo de mentor, vendo o velho como um ídolo inabalável, numa superioridade ofensiva e ultrajante, intelectual e provocadora, discursando sobre vida, morte e religião, lhe ensinando com sua rigidez prosaica aspectos filosóficos da existência.

Woody Allen que retorna a sua amada Nova York cria um filme reunindo toda a força de suas primeiras obras. O roteiro escrito pelo próprio nos anos 70 rejuvenesce e ganha força com o habitual bom humor e disparates artísticos – Boris Yellnikoff interage com o público. O filme oferta várias discussões ao passo que os personagens tão bem construídos se relacionam trazendo particularidades emocionais e físicas, sobretudo na relação entre Melody (Wood) e Boris, confundida entre admiração e paixão, submetendo a dupla num caso romântico que não só impressiona pela diferença de idades, mas também pela desconformidade cultural. A garota, simplesmente capturada pela ideologia de um mestre em sua posição, subitamente se entrega não ao amor, mas a adoração.

O filme percorre esse enlaço romântico e chama a atenção de como isso se transforma: Melody (cujo nome soa bem como música, naturalmente), tenta sem sucesso se tornar Boris agindo como aprendeu repetindo, até mesmo, seus conceitos. A forma como ela absorve os ensinamentos é singela tomando duras críticas como lições que sai por aí compartilhando. Os aspectos psicológicos do filme proporcionam longas discussões, como um filme de Allen, isso não poderia faltar. E reafirmo, Allen está em forma e aberto para quem não conhece. Como qualquer fã de cinema, tornar-se fã de Allen parece conseqüência; e vislumbrar o moralismo cômico de Larry David é outro ganho do longa. Ao lado dos caras, Evan Rachel Wood, em sua doçura juvenil, atrai os olhares para sua ingenuidade nunca perdida.  


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