quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Diário Cinéfilo: K-PAX - O Caminho da Luz (K-PAX, 2001)

“K-Pax - O Caminho da Luz” é um filme amável, tem uma boa história e permite reflexões em vários aspectos. Trata do aparecimento de um homem que diz ser de outro planeta, o tal “K-Pax” do título. Internado num hospital psiquiátrico, o sujeito que atende pelo nome Prot, começa a contrariar todas as expectativas demandadas de um doente mental, encantando os internos que se entusiasmam com seu discurso e incomodando seu médico, o Dr. Mark Powell (Jeff Bridges), que convive com incertezas referente a saúde mental deste adorável indivíduo que tanto acrescentou a ala psiquiátrica. Se delongam questões referentes a saúde mental juntamente a possibilidade do paciente em questão ser de fato de outro planeta. Vai do espectador a compreensão e crença. O diretor Iain Softley interage com o público nesse sentido, deixando em aberto hipóteses. Bonito de se ver, a fotografia amena colabora com o tom delicado da trama, envolvendo o público com a ficção. É difícil não gostar de “K-Pax” e especialmente de Prot, o tal estranho, vivido adoravelmente por Kevin Spacey. As atuações enobrecem o filme, melhorando-o, o que contribui para tampar sua fragilidade narrativa.    

Direção: Iain Softley
Elenco: Kevin Spacey, Jeff Bridges, Mary McCormack, Alfre Woodard e David Patrick Kelly

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Diário Cinéfilo: Minha Irmã (L'Enfant d'en Haut, 2012)



Há muitas questões complexas dentro do roteiro desse “Minha irmã”, questões que vão muito além da proposta do título brasileiro, proposto como referência a relação estabelecida que acompanhamos na história, no entanto é pequeno frente a outros embates bem mais importantes. A história vai além da relação entre irmão e irmã, como os personagens se consideram, ela trata de afeto e de valores familiares amoldados, interesses privados pela angústia da realidade, de um provável passado infeliz – que não temos acesso – até um futuro vislumbrado com igual pessimismo. Assistimos um garoto de 12 anos ir até uma estação de esqui diariamente, lá ele rouba equipamentos dos turistas e vende no conjunto habitacional onde mora, ganhando algum dinheiro para se sustentar e dar algo para sua companheira, Louise, bem mais velha que ele, que tem casos amorosos voluntários e se mostra incapaz de se manter algum emprego. Mutáveis, se mantém próximos por necessidade. E por paixão. Algumas eventualidades causam desconfiança no público. A relação vista soa paternal, é ele quem cuida dela. Há também uma aproximação íntima, já que o menino, em certo momento, paga pela atenção da mulher, aparentemente como única forma de manter algum contato, de tocar.  Dependências afetivas e financeiras são tratadas com leveza neste projeto da diretora Ursula Meier. Também tem Léa Seydoux vivendo Louise, o que já merece uma espiada.

Direção: Ursula Meier
Elenco: Léa Seydoux, Kacey Mottet Klein, Martin Compston e Gillian Anderson


Proseando sobre... Jack Reacher - O Último Tiro



Um bom roteiro impede “Jack Reacher - O Último Tiro” de ser um mero filme de personagem estrela. A presença de Tom Cruise reforça a indagação, visto o histórico de obras que o têm a frente, por exemplo na franquia “Missão: Impossível”. Costumo questionar os caminhos diferentes que Cruise e Brad Pitt seguiram desde que despontaram como galãs do cinema, com o primeiro tornando-se astro de grandes filmes cujo conteúdo é discutível; enquanto o segundo tornou-se um grande realizador e produtor, além de ser um bom ator ligado a interessantes projetos. Certamente não é essa a questão proposta aqui, mas é relevante, dada a situação de Tom Cruise, aos 50 anos, não figurando como um mero galã, mas alguém que está percebendo o tempo passar dentro da história e na vida. Ótimo no papel, dedicado como sempre, esse é um de seus mais notáveis trabalhos de constituição de personagem. 

Baseado no livro “O tiro” de Lee Child, o filme carrega um mistério a respeito de um crime que leva diretamente a identidade de um único culpado, com todas as provas caindo sobre um ex fuzileiro, James Barr (Joseph Sikora), que fora internado imediatamente após ser gravemente agredido na prisão. Ele chama pelo nome Jack Reacher num bilhete. Por quê? Para quê? É o que as autoridades questionam, especialmente uma advogada, Helena Rodin (Rosamund Pike). Reacher (Cruise) subitamente aparece, homem cujo histórico indica um militar condecorado, tornou-se um andarilho sem destino, rodando o país sem ser pego ou descoberto. Alguns detalhes dizem muito sobre ele. O personagem é explorado pelas ações adotadas, e logo compreendemos suas convicções e filosofia desprendida, baseando a vida na justiça e verdade, embora algumas de suas escolhas aparentam ir contra tais princípios.  

Um homem paga um estacionamento e posiciona-se em frente a um parque portando uma arma. Ele observa cuidadosamente as ações de várias pessoas caminhando, mirando-as, como se procurasse um alvo. Passando de uma a uma, o atirador seleciona e puxa o gatilho, matando 5 e desperdiçando uma bala. 5 mortos sem razões, desconhecidos, sem ligações. Um crime brutal e aparentemente passional leva a uma busca pelo responsável, restringindo a uma pequena lista de prováveis assassinos, já que o atirador é, certamente, um profissional. Pistas são largadas aos montes. 

Christopher McQuarrie é o diretor que também roteiriza, trabalhando com grandes detalhes neste filme que conta com mais de 120 minutos de duração. O cineasta que venceu o Oscar por “Os Suspeitos” – aquela genial obra dos anos 90 cujo final permanece inabalável – cria um ambiente de inquérito motivado por suspeitas num terreno em que ninguém está livre. O próprio protagonista é posto a prova pelo espectador que se atém a pormenores. Essencialmente, o personagem central agrada – longe de compará-lo com o original concebido na obra literária, uma vez que não a li – por sua execução. É divertido acompanhá-lo, já que reúne o melhor de cada espião famoso do cinema e da literatura, apossando-se de uma expressão austera e uma seriedade inteligente, carregando uma única peça de roupa, o que demonstra desamarras sociais.    

Tom Cruise também produz a fita e se torna marco de um filme de vários interesses, oculto até seus últimos momentos, colocando a prova a veracidade do caso, já que os fatos se quebram pelo conhecimento restrito a experiência de um ser semelhante em profissão, caso do herói e o ferido Barr. Tem boa ação, não decepcionando fãs do gênero com cenas longas de embates e perseguição, ao passo que trabalha bem como um enérgico filme de espionagem, ultrapassando clichês que figurariam como um problema graças ao bom desenvolvimento dos personagens. E ainda tem o diretor Werner Herzog atuando com sua voz inconfundível vivendo o destemido Zac – os cinéfilos não irão demorar para celebrar tal aparição cult e melhorar qualquer conceito que vinha tendo relativo ao filme quando ouvi-lo proferir algumas palavras. Robert Duvall e Richard Jenkins fecham o elenco desse considerável longa policial.


terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Proseando sobre... O Último Desafio



Pode parecer saudosista, talvez seja, mas ver Arnold Schwarzenegger fazer um tamanho estrago nas telonas semelhante ao que fazia na década de 80 e 90 é algo para se festejar. É nostálgico para quem cresceu assistindo alguns ícones – que se encontraram recentemente em “Os Mercenários” – participarem de grandes filmes de ação recentes, mesmo que estejam longe de vivenciar personagens que garantiram permanência no imaginário popular como fora em outrora. Schwarzenegger não é um ator que simplesmente passou, o cara fez “Conan”, “O Exterminador do futuro”, “O Vingador do Futuro”, “O Predador” e “True Lies”, longas importantes cuja relevância é inquestionável. Após algum tempo como governador da Califórnia ele finalmente retornou ao estrelato e assumiu o protagonismo desse “O Último Desafio”, filme de ação pulsante, violento, cômico e metalinguístico, conferindo ao seu protagonista uma sátira muito bem colocada.   

A história é inventiva, embora pareça simplista e frívola num primeiro instante, talvez vítima de preconceitos. Um seqüestrador em fuga precisa atravessar a fronteira entre Estados Unidos e México. Ele consegue driblar o FBI e está a toda velocidade rumo a sua terra, mas para isso precisa atravessar uma pequena cidade do Arizona que possui um xerife implacável, Ray Owens (Schwarzenegger). Risível? Seria se não fosse a dinâmica proposta pelo diretor sul coreano Jee-woon Kim que filmou a algum tempo o faroeste “Os Invencíveis”, uma releitura de “Três Homens em Conflito”. “O último Desafio” é substancialmente um faroeste. No entanto, ao invés de cavalos, assistimos carros atravessando estados. Falamos precisamente de um Corvette e um Camaro. O cenário é típico do gênero, a fotografia busca o sol beijando a cidade construída sobre um campo deserto. O antes – espaço, armas, tradição – e depois – tecnologia, carros velozes – se complementam num filme virtuoso que explode em testosterona.

Não é, nem de longe, um representante artístico resultante de um progresso cinematográfico de atores que pretenderam ir além do brucutu imperioso estigmatizado, embora tenha esse alinhamento de gerações e o exercício da metalinguagem sobre seu protagonista. É, antes de qualquer coisa, um filme para divertir, para fazer recordar filmes e cenas célebres do cinema de ação descompromissado e azucrinado. Quando um cara surge dirigindo um Corvette a 300 quilômetros por hora rumo a pequena cidade decadente de Sommerton, aguardamos um clímax explosivo típico do western de outra geração. Anos 60 ou 70. Barricadas são montadas, caras escondidos em telhados e janelas empunham rifles. O saloon e os prostíbulos deram lugar a pequenas casas e bares, equipados com a modernidade, guardando o sabor do passado em suas representações no contexto filmado.  

A ação não para e situações se acumulam expostas de maneira concisa, buscando se estruturar na pele da figura de Arnold Schwarzenegger, celebrado, brincando com sua idade, embora demonstre força e imponência invencível ao longo de seus 65 anos. O ator tem presença em cena, isso nos faz querer recordar de outros atores atuais estrelas de filmes análogos que tem igualmente distinção. Ninguém vem a mente. Ao menos não da nova geração. Desenrola-se o projeto de Jee-woon Kim que estréia em terras americanas levando diferentes potenciais narrativos: o drama de um ex-soldado que se isolou sem familiares no interior do Arizona; e um filme de perseguição austera com belas mulheres figurando entre heroínas e vítimas; algumas naturalmente fatais. Os brutos ainda imperam.

Feito pra o Schwarzenegger explodir algumas pessoas e provar seu vigor, o projeto é um passaporte para os anos 80 com a legendária violência desmedida, vista atualmente como cômica. Muita coisa mudou. A narrativa, apesar de se debruçar no passado, acompanha a modernidade, tem seus excessos costumeiros e algumas soluções inspiradas, impossíveis de se levar a sério, porém pontuais: o cara com o agasalho da seleção holandesa. O roteiro também carrega alguns vícios e clichês, como o vilão – que tem que ser – mexicano (vivido por Eduardo Noriega) e a pequena trupe de ajudantes – outra piada lançada em um ato – que conta com um ex presidiário, o desajustado local Frank (Rodrigo Santoro), uma bela jovem corajosa, Sarah (Jaimie Alexander) e um imigrante, Mike (Luis Guzmán). Guilty pleasure.



domingo, 27 de janeiro de 2013

Diário Cinéfilo: Antes de Partir (The Bucket List, 2007)


Daqueles longas cuja sensibilidade extasia, “Antes de Partir” de Rob Reiner traz dois homens que descobrem uma doença terminal. Ambos, Edward e Carter, tem câncer em estado avançado e estão diante os últimos dias de suas vidas num quarto de hospital. Diferentes em vários âmbitos, não se entendem num princípio, até que algumas virtudes são levantadas em diálogos breves despertando interesses recíprocos. Quando Carter comenta um assunto filosófico relacionada a uma “lista da bota” que aprendeu com um professor universitário, os dois decidem se engajar numa aventura pelo mundo, realizando coisas que ainda não haviam feito e descobrindo novos sonhos. A lista que faz referência a expressão “bater as botas” consta coisas pendentes na vida. Eles saem em busca dessas realizações. De um drama de situação o longa converte-se num road movie aventureiro. É daqueles bons filmes que conta uma bela história entre amigos, cheia de mensagens e inspirações, ficando só nisso. Muita beleza e sutileza explode constituindo um filme familiar, breve e doce, a partir de um roteiro simples, porém eficiente diante o que propõe. A dupla protagonista é adorável, vivida idoneamente pelos espetaculares Jack Nicholson e Morgan Freeman. Os dois juntos já são motivos mais do que suficiente para encararmos tal empreitada. 

Direção: Kim Nguyen
Elenco: Jack Nicholson, Morgan Freeman e Richard McGonagle

Diário Cinéfilo: A Feiticeira da Guerra (Rebelle, 2012)



Filme difícil, indigesto, pois sabemos se tratar de algo real, absurdamente verídico, ainda emergente. Mas há muito mais do que esse realismo, há um fator sobrenatural de origens transcendentais modelando a obra. Há algo mágico nos fatos vistos. Alucinações causadas por uma planta. Essa produção canadense indicada ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2013 traz a história da menina Komona que teve a vila devastada por rebeldes e fora obrigada a matar os próprios pais, já que pouparia o sofrimento desses que seriam assassinados dolorosamente posteriormente. Levada pelos rebeldes junto a outras crianças e adolescentes, a menina de 12 anos teve que aprender a empunhar uma arma desde cedo e agir em favor de seus seqüestradores, tornando-se uma soldada servindo particularmente um comandante que ainda a obrigava a manter relações sexuais. Sem economias sobre as vivências dos atos que são expostos de modo penoso pela câmera, o filme evoca algumas visões da garota que enxerga fantasmas – representações de sua crença, o que lhe garante o título de feiticeira. O filme garante a imortalidade do diretor canadense Kim Nguyen que deixa uma obra pesada e penosa, um registro sem frutos do que ocorre nas guerrilhas civis da África. É apenas um bom filme, suas indicações foram exageradas, exceto o prêmio de melhor atuação para Rachel Mwanza que faturou um Urso de Prata no Festival de Berlim. A menina e o horror refletido em seus olhos é o melhor que o longa oferece.

Direção: Kim Nguyen
Elenco: Rachel Mwanza, Serge Kanyinda e Alain Lino Mic Eli Bastien

sábado, 26 de janeiro de 2013

Diário Cinéfilo: Que bom te ver viva (Que bom te ver viva, 1989)


“Que bom te ver viva” é um documentário sobre um período tenebroso da historia do Brasil que se arrasta até hoje na memória de muitos que sobreviveram ao regime militar, as torturas impetuosas sofridas, as prisões escuras e ao exílio. Narrado através de entrevistas com mulheres que vivenciaram o período e até mesmo empunharam armas contra os militares, temos acesso a experiências particulares de pessoas que quase morreram e praticamente perderam o gosto pela vida, sofrendo com as desordens psicológicas devido ao trauma da violência. Os relatos são coordenados por Lúcia Murat, ótima diretora que foi uma das torturadas durante a ditadura brasileira. Como diferencial neste bom longa, acompanhamos uma encenação de Irene Ravache que narra alguns acontecimentos, são discursos introspectivos sobre vivências fantásticas, relatando poeticamente e criticamente a situação de outrora, ainda martelando na cabeça. Os tempos passaram, o silêncio perdurou e a memória segue atordoando. Bom filme que merece ser apreciado e estudado por muitas gerações.

    
Direção: Lúcia Murat
Elenco: Irene Ravache