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quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Proseando sobre... Ilo Ilo


Vencedor do Caméra d'Or no Festival de Cannes em 2013, Ilo Ilo (idem, 2013) vem estreando com alguma força em festivais pelo mundo, caso da 37ª Mostra em São Paulo. O filme também é o representante de Singapura para o Oscar 2014. Boas perspectivas? A história é das mais simples e cativantes: uma criança cheia de comportamentos extravagantes se relaciona com uma desconhecida e juntos, após desentendimentos e discussões, formam uma singela amizade. Ei, todos já vimos algo parecido antes. Não importa, essa é a aposta do diretor estreante Anthony Chen. É a fórmula convencional que deu certo em Cannes, premiado mais pelo carisma do que pelo conteúdo. Nem tecnicamente é tão atrativo! Ainda que limitada, é uma história minimamente interessante de se acompanhar.

Passado no final dos anos 90 durante a crise asiática, o roteiro procura explorar âmbitos diferentes como subtramas durante o desenvolvimento do drama de uma empregada doméstica que precisou deixar seu país para trabalhar entre desconhecidos. A filipina Teresa (Angeli Bayani) leva toda sua cultura para dentro da casa da família Leng. Algumas boas cenas, como aquela em que reza antes da refeição, demonstra um pouco da diferença que inevitavelmente se chocará com todos em sua volta ao longo da projeção, especialmente quando aos poucos exerce indubitavelmente função materna para o pequeno Jiale, dando a ele toda uma atenção que anteriormente não tinha em casa, especialmente quando sua mãe engravidou do segundo filho. O clichê se exalta e se mantém num fluxo constante, absorvendo paradigmas familiares, crise econômica, desemprego, cultura e educação. 

Instantes de ternura se confundem com outros de ferocidades. Nos surpreendemos em alguns momentos com atos raramente vistos no cinema convencional, o que garante um naturalismo benevolente que faz muito bem ao filme. Caminhando com a câmera e registrando tudo de maneira livre, Anthony Chen não expande os horizontes das pretensões de Ilo Ilo. Ele incita possibilidades, utiliza metáforas, recria uma época não tão distante que ecoa seguramente com a crise mundial. A seu favor está a possibilidade de identificação do público tanto pelas condições contemporâneas quanto pelo relacionamento disposto. A mulher e o menino se dão bem em cena, o filme se dá bem quando centrado neles e enguiça quando se afasta da dupla – o roteiro não dá conta de absorver o infeliz momento histórico com o relacionamento. 

O núcleo de relações poderia ser a melhor oferta do filme, mas decepciona na falta de ousadia narrativa, decepciona por não encontrar a veia da história e se apequenar com soluções e decisões pueris. Tudo o que acompanhamos são histórias de rotina dos 4 personagens, com o menino indisciplinado tendo problemas na escola; Teresa buscando ganhar dinheiro a fim de enviar para a irmã que ficou com seu filho recém nascido; e os pais segurando o máximo para não serem vítimas da crise que está chegando ao país. Há toda uma singeleza em volta da trama abastecida com intimidades. Duas ou três cenas ressaltam o quanto Teresa está inserida no núcleo familiar saindo da margem para o centro. A câmera do diretor acompanha tal desdobramento, culminando em uma cena de um acidente e o resultado dessa quando a mulher banha Jiale. O menino comenta algo sobre seu cabelo, algo que tem correlação com um evento no ato final abrupto.



sábado, 13 de julho de 2013

Proseando sobre... Meu Malvado Favorito 2



O que esperar de uma continuação de uma animação narrativamente limitada que tanto sucesso fez quando fora lançada? A mesma sorte? Talvez sorte seja uma palavra injusta. O fato é que “Meu Malvado Favorito” lançado em 2010 não tinha uma grande história, era até tola demais. Venceu graças a outras coisas: carisma e humor cativante. Fica difícil não se encantar por sua simplicidade. Conquistou as crianças e os adultos com um personagem que funciona como um anti herói juntamente aos pequenos Minions. Ainda soma-se a história 3 garotas adotadas. Nesse segundo filme todos retornam tão frágeis e simples quanto o primeiro. O investimento maior recai sobre os Minions que quase ganham o filme inteiro, mas o protagonismo ainda é de Gru, o vilão herói com sotaque curioso, completamente comprometido pela infeliz dublagem brasileira.

O contraste entre o mundo exterior e o mundo de Gru permanece com menor força. Sua casa segue diferenciada das demais, escurecida e com artifícios que a fazem parecer um lugar sombrio. O preto e o cinza predominam o interior enquanto no exterior cores explodem. O filme é coloridíssimo e abarrotado de coisas consideradas “fofas”. A criançada vai adorar, os mais crescidos irão se divertir e os adultos rirem, apenas rirem, sobretudo quando o filme abre alas para os Minions que anteriormente apareciam episodicamente. Dessa vez eles tem uma função mais importante na narrativa, condensando-a em meio a várias subtramas paralelas tais como a relação de Gru com as meninas, ou com um suposto par romântico, a agente Lucy. Ainda há o crescimento natural de uma dessas meninas, interessando-se por um jovem capaz de fazer o herói morrer enciumado.       

Parte do sucesso do original consistia na explanação dos simpáticos Minions, pequenos seres que trabalhavam para Gru. Agora estes são bem mais exigidos. Formam uma colônia com funções bem definidas. Pra lá de divertidos, são responsáveis pelos melhores momentos de todo o filme. Gags pontuais e uma ou outra cena cômica são bem encaixadas, no entanto nenhuma supera a avalanche final com os números musicais que fará muita gente gargalhar, especialmente a galera de gerações passadas. Quanto a história, esta é simplória: um novo vilão está ameaçando o mundo com uma poção que transforma os infectados em monstros roxos horrendos. A associação Antivilão decide convocar o ex vilão Gru para ajudá-los, pensando que ele poderia antecipar os passos do estranho ameaçador.

Como ponte do filme anterior, além da relação paternal que fez Gru abandonar a vida de malfeitor, dessa vez desponta para o empreendorismo do protagonista que vinha buscando fórmulas de geléias e gelatinas para crianças, tentando levar uma vida boa e honesta, motivado pelo carinho que singelamente desenvolveu pelas filhas. O passado, por sua vez, vem lhe buscar. Leve, a animação é uma bela pedida para um momento descontração em família. Não oferece muito o que pensar, e tampouco se aventura em outros rumos que filmes do gênero mais sofisticados arriscam, porém diverte muito com sua ingenuidade e bons personagens demasiado adoráveis e sorridentes.  



quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Diário Cinéfilo: Minha Irmã (L'Enfant d'en Haut, 2012)



Há muitas questões complexas dentro do roteiro desse “Minha irmã”, questões que vão muito além da proposta do título brasileiro, proposto como referência a relação estabelecida que acompanhamos na história, no entanto é pequeno frente a outros embates bem mais importantes. A história vai além da relação entre irmão e irmã, como os personagens se consideram, ela trata de afeto e de valores familiares amoldados, interesses privados pela angústia da realidade, de um provável passado infeliz – que não temos acesso – até um futuro vislumbrado com igual pessimismo. Assistimos um garoto de 12 anos ir até uma estação de esqui diariamente, lá ele rouba equipamentos dos turistas e vende no conjunto habitacional onde mora, ganhando algum dinheiro para se sustentar e dar algo para sua companheira, Louise, bem mais velha que ele, que tem casos amorosos voluntários e se mostra incapaz de se manter algum emprego. Mutáveis, se mantém próximos por necessidade. E por paixão. Algumas eventualidades causam desconfiança no público. A relação vista soa paternal, é ele quem cuida dela. Há também uma aproximação íntima, já que o menino, em certo momento, paga pela atenção da mulher, aparentemente como única forma de manter algum contato, de tocar.  Dependências afetivas e financeiras são tratadas com leveza neste projeto da diretora Ursula Meier. Também tem Léa Seydoux vivendo Louise, o que já merece uma espiada.

Direção: Ursula Meier
Elenco: Léa Seydoux, Kacey Mottet Klein, Martin Compston e Gillian Anderson


terça-feira, 30 de outubro de 2012

Proseando sobre... Hemel

 
Hemel significa céu em holandês. É o nome da protagonista que dá título ao filme. Acompanharemos céu por incursões em camas com diferentes homens, objetos de seu prazer quase urgencial. Seguir seus passos e suas discussões elaboradas como amparo à sua satisfação mantém a curiosidade da história, sempre cadenciada e ousada, contada em capítulos cujos títulos são auto-explicativos, fragmentos diários de seus envolvimentos afetivos. O céu, lugar simbolicamente atingido quando chega ao orgasmo, é seu paraíso particular em terra, possível, real. A garota percorre as ruas de uma cidade na Holanda se chocando com diferentes pessoas, quase sempre ligadas à classe alta européia, e se debruça em cortejos neste filme que beira o erotismo, enquanto é embalado por uma trilha sonora amena, generosamente melancólica.

A relação imposta pelo roteiro sobre a sexualidade da protagonista com a sexualidade de seu pai é fecunda, funcionando como alusão à sua criação desde pequena, conforme contada em um dos capítulos. O furor sexual da garota, seja nos bares onde passa algumas noites atrás de alguém que lhe satisfaça ou em festas quando discute o prazer, questionando a valia religiosa que reprime o desejo, denota a tipificação dessa personagem sedenta e agressiva, agindo com o estigma do sexo masculino. Em uma das cenas, ao sair com um argeliano a quem chama despreocupadamente de Mohammed – afinal, o nome ou quem é pouco importa, mas sim a oferta sexual da figura varonil –, fica notória sua personalidade que a aproxima do sexo oposto, quando não quer receber carinhos do amante após o gozo. Como metáfora em defesa, discute a cópula dos leões.  

Ao acompanharmos a jornada de Céu, muito bem vivida por Hannah Hoekstra, presenciaremos graças aos olhares e facetas da atriz seu sofrimento frente a sua condição que lhe traz prejuízos. Entregue a prazeres sem métodos, mas a características dos parceiros, ela mergulha em todas as propostas, seja com relação à depilação de pelos pubianos ou ao sadomasoquismo que lhe rende hematomas, onde embora sofríveis, são revelados como troféus por mais uma transa. Sexualmente adicta, sua composição é fomentada pela relação com o pai, com quem vive um complexo de Édipo berrante. Ela vive igualmente a ele. Sua ligação com o patriarca (Hans Dagelet) é estremecida quando este lhe apresenta uma nova namorada, alguém que levará para morar na mesma casa, renunciando a rotina por tantos anos vigorada.

Hemel (idem, 2012), exibido na 36º Mostra Internacional São Paulo, é um drama sobre sexualidade, identidade, dependência e co-dependência. Se aproxima do recente Shame (idem, 2011) pela proposta, mas é com o espanhol Diário Proibido (Diario de una Ninfómana, 2008) que ele faz coro. Dirigido pelo holandês Sacha Polak, o longa é visualmente bonito e com uma fotografia lúcida. Ele também é pontuado por boas atuações, sobretudo com Hoekstra que se expressa bem com olhares. A narrativa não segue uma lógica, igualmente sua protagonista, modelada por sensações e eventos cotidianos, desconstruída psicologicamente. E sobre a vulnerabilidade de sua estrela, o roteiro exprime a incapacidade de mudanças e readequações, propostos no diálogos, e perguntas que ficam como sugestões. Por exemplo a cena em que Céu conta sobre um garoto que cometeu suicídio recentemente, pulando de um prédio. Ninguém pareceu ouvir.

Texto originalmente publicado em http://www.cineplayers.com/critica.php?id=2524



quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Proseando sobre... Elles

Várias desculpas poderiam justificar, embora sem grande êxito, a realização dessa apática obra estrelada pela costumeiramente espetacular Juliette Binoche. Não há nenhum grande foco, existem situações, questões jogadas entre as interações dos personagens que por vezes emulam situações corriqueiras da vida e conotações de desejos reprimidos. É o máximo da narrativa relembrar o quanto mascaramos sentimentos, e isso é pouco, pois a forma com que objetiva a proposta é problemática, com pouquíssima coisa satisfatória. O filme trabalha com um tema fértil: a prostituição. Sobre ela, morais se desenrolam e estereótipos tradicionais se quebram. Trata-se de puro desejo e conforto, facilitações e abstrações.

A história é simples e carrega potencial. Anne (Binoche) é uma jornalista da revista Elle com pretensões de fazer uma matéria contendo entrevistas feitas com estudantes universitárias que se prostituem. Sua curiosidade transcende a motivação dessas garotas, parece buscar nelas uma resposta outrora recalcada em sua vida. Há uma intrusão a intimidade dessas mulheres que até certo ponto se defendem. Quanto a protagonista, percebemos o quanto é legítima sua projeção durantes as conversas, com a atriz habilidosa em cena mostrando-se introvertida, perdida em devaneios enquanto as jovens contam orgulhosamente suas experiências. Anne às vezes se perde na escuta. Já as garotas, Alicja (Joanna Kulig) e Charlotte (Anaïs Demoustier), contam despreocupadamente e com detalhes seus encontros.

Capaz de absorver os detalhes das entrevistas levando a aspectos de sua rotina, relação com o marido, filhos e o trabalho, Anne se apropria dos discursos percebendo-se atada a frustração pessoal, algo que ela não via, ou pelo menos não queria ver. Sua compreensão arrasta-se até um jantar em que ela mesma prepara numa noite a fim de recepcionar o chefe do marido. Essa construção é banhada de metáforas e referências por vezes libidinosas, constatando sua nova condição consciente. A diretora polonesa Malgorzata Szumowska não emprega moral em seu longa e leva as prostitutas a outro âmbito em cena, diferindo do comum retratado onde usam personagens provenientes da miséria e encontrando solução na prostituição. Elas não são vítimas de um contexto. Aqui, acontece por vontade. Faz lembrar as memórias de Mãe, filha, avó e puta quando tece uma crítica a condição da mulher e relata, em defesa das prostitutas, que o mundo não é feito de vítimas e que tudo é negociável, inclusive o sexo.    

A temática não é nova e nunca sai de moda. Steven Soderbergh trabalhou com a ex-atriz pornô Sasha Grey em Confissões de uma Garota de Programa (The Girlfriend Experience, 2009) trazendo parecidamente o glamour hipócrita de uma pessoa que vive duas vidas, embora a verdade seja, por vezes, compartilhada. Incontáveis filmes são lembrados quando se trata o assunto, sobretudo na oferta de estabilidade, finalidade sedutora posta nos diálogos. Esses que no filme soam frouxos e vagos, comprometendo o resultado final. Sua limitação pouco envolve, mas instiga reflexão levantando dúvidas a respeito de quando o prazer se esgota. Vale fazer menção a A Bela da Tarde (Belle de Jour, 1967) de Buñuel, infinitamente superior a esse Elles (idem, 2011).

A complexidade que se supunha é passageira. O filme passa, se delonga e se esvai, deixando poucas questões a tratar. As histórias contadas pelas duas entrevistadas são boas, breves e concisas, conciliando cenas sem pudor – e tome perversão com variados clientes – com relatos sinceros de uma vida de luxúria na capital francesa. Em poucas noites dá para arrendar um apartamento em Paris. Sem julgamentos e com um olhar implícito sobre circunstâncias sociais, Elles remete ao jogo de aparências num turbilhão de vaidades, colocando em pontos mulheres bonitas escolhendo um caminho oculto e lidando com a rejeição e levando uma vida comum e voluntariamente feliz. Isso não quer dizer que estimula o espectador a fazer o mesmo, mas dá um tapa na cara de quem se vê superior a elas. Observamos um sorriso no rosto natural nessas mulheres ao contrário de um tímido movimento nos lábios omitindo insatisfação, esses estampados na face da hipocrisia.

Crítica primeiramente publicada em http://www.cineplayers.com/critica.php?id=2454


terça-feira, 4 de setembro de 2012

Proseando sobre... Um Divã para Dois


 Existe um preconceito com comédias românticas entre os cinéfilos de carteirinha. Isso é aceitável, se levarmos em conta a qualidade da maioria destas e da falta de originalidade e ousadia. Seguir a cartilha do felizes para sempre parece uma receita de sucesso. Claro, depende do que estamos chamando de sucesso. É bom fazer um filme e arrecadar alguma grana nas bilheterias, mesmo que esses nada digam e pouco signifiquem para o cinema. Esquecíveis. A arte cinematográfica requer bem mais do que um drama e um beijo ao final. 

Eis que surge uma comédia romântica estrelada por Meryl Streep e Tommy Lee Jones. A dupla é interessante. E porque essa pode ser melhor que as outras estreladas por figurinhas teens? A história no cinema de ambos é notável, e gente desse calibre costuma se preocupar com os roteiros, não escolhendo qualquer bobagem. É gente que se dá o luxo de dizer não. Naturalmente, bons atores não garantem bons filmes. Quanto a esse “Um divã para dois”, como era suspeitado, é adorável!

O contexto do filme é um setting terapêutico. Tem Streep, mas não é “Terapia do Amor”. Pensando bem, é uma terapia que visa o amor – afirmação romântica e falsa demais –, visa a reconciliação, o entendimento romântico e compreensão do que realmente se quer. Um casal em crise após mais de 30 anos juntos. Ambos não se percebem, não se tocam, não se beijam. Dividem uma casa, mas não a mesma cama. O afastamento denunciado em cenas remetem o drama de vários casais pelo mundo afora que se vê frente a resistências, defesas que são quebradas em sessões terapêuticas. O terapeuta aqui é vivido pelo normalmente divertidíssimo Steve Carell. Algumas cenas irão surpreender. A idéia é rir da desgraça, afinal, o tempo trouxe problemas a esse casal. Resolve-lo em certa altura da vida é uma dificuldade comum, urgencial para alguns. A retratação do roteiro estabelece uma visão íntima sobre um relacionamento desgastado, sem força, sem tesão. O que resta vem à tona num tratamento intensivo em clínica.   

Arnold Soames (Lee Jones) é um homem de negócios, sisudo, reclama de tudo e de todos e guarda um orgulho tremendo esperando que suas atitudes movam sua esposa, Kay Soames (Streep). A mulher percebe o afastamento do marido, procura aproximações, mas sem sucesso, retorna a sua cama lamentando o casamento e suas investidas fracassadas. Um dia encontra na livraria um livro aconselhando a salvar casamentos e, por conta própria, paga o terapeuta que o escreveu e dá um jeito de arrastar o marido para a terapia. A dinâmica entre Meryl Streep e Tommy Lee Jones é esplêndida, suas dicções em embates, a separação física quando sentam no sofá do setting dependendo de como fora a noite anterior são alguns detalhes excepcionais. Uma cena específica é marcante, quando o psicólogo Bernie Feld lança uma pergunta íntima para Kay e, Streep, desconcertada, começa a abotoar a blusa de uma maneira tão natural, refletindo sua resistência em se guardar. 
  
O filme dirigido por David Frankel de “O Diabo Veste Prada” traça bem os tabus vivenciados pelo casal quebrados diariamente segundo ordens do terapeuta. Nesse sentido, a comédia toma conta com um humor maduro, sem pudores, ainda mais tratando da dupla de atores central que se diverte nas mais distintas situações. A revelação de algumas fantasias pode surpreender públicos mais recatados. Coisas da vida! Relações com símbolos fálicos também garantem bons momentos. Várias das questões tratadas são universais, casais certamente se projetarão em alguns diálogos e nas experiências de vida narradas, ainda mais aqueles que estão há muito tempos juntos, percebendo dias bons e ruins, sem saber, muitas vezes, como lidar com esses períodos. Falar de Meryl Streep já se tornou desnecessário, a questão é: o quão esplêndida ela está. Já Tommy Lee Jones abraça o filme e cria um personagem dimensional, cheio de manias e defesas, tanto no texto quanto em suas ações e olhares. É uma comédia romântica diferenciada, crítica até certo ponto, capaz de agradar os mais variados espectadores.



segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Proseando sobre... O Que Esperar Quando Você Está Esperando


Gestação, período tão belo que envolve tantas e importantes descobertas. Mentira. Eis uma fase de sofrimento, chateação, deformidades e irritações, mas importante e verdadeiramente nobre. Explorar todos os problemas acarretados pela gravidez e demonstrar a beleza que pode ser retirada dela é o que “O Que Esperar Quando Você Está Esperando” procura fazer com humor. Não que esse último funcione.

O filme é baseado num best-seller homônimo de Heidi Murkoff e o roteiro escrito por Heather Hach e Shauna Cross busca trazer diferentes percalços da gravidez e mergulha na vida de alguns casais angustiados por estarem próximos do parto. A montagem dinâmica tenta ordenar a bagunça, não há um protagonista definido e tampouco um bom condutor da trama – aí percebemos o talento de Alejandro González Iñárritu em trabalhar com histórias paralelas. Quem assume a direção aqui é Kirk Jones da refilmagem “Estão todos bem”. O diretor cria situações para favorecer piadas e gags, não contribuindo com o tema retratado, servindo mais como um alívio ao drama proposto por alguns personagens.

Dentre as histórias contadas, questões familiares emergem de uma maneira leve, com os conflitos postos em cena servindo como auxílio aos direcionamentos, possibilitando a comoção do público adquirindo ciência que, ao final, há sempre uma mão ali apoiando apesar de qualquer pesar. Assuntos como circuncisão, disputa entre pai e filho, exercícios físicos, corpo perfeito e teorias sobre amamentação dão suporte a narrativa e profundidade rasa a alguns personagens. Há outros que nem nos lembramos que existiam em suas quase três horas de duração. Exagero meu, o filme tem 110 minutos, mas é como se tivesse bem mais. 

Cameron Diaz, Dennis Quaid, Jennifer Lopez e Elizabeth Banks são alguns dos nomes famosos no elenco. Cada qual com suas histórias, essas ganharão importância maior segundo a projeção de quem assiste, por ter vivido ou estar vivenciando um caso semelhante, ou por pura identificação. Um dos melhores casais retratados que carrega potencial para um filme solo é Holly (Lopez) e Nate (Rodrigo Santoro). Ambos procuram viabilizar uma adoção de um bebê etíope, mas encontram resistências sociais e pessoais. Nate é quem mais sofre, aflito com a possibilidade de ser pai repentinamente, chega a buscar conforto num grupo de pais que passeia aos finais de semana num parque com um arsenal de brinquedos e mamadeiras. Outra boa história se dá na idéia da condenação da beleza, as deformidades que podem acontecer com o corpo da mulher. Skyler (Brooklyn Decker), esposa do bem sucedido ex-piloto Ramsey (Quaid), é jovem e detém uma silhueta invejável. Disciplinada, faz todos os exercícios recomendados para uma sadia maternidade. Uma injeção de esperança e ânimo para algumas mães. 

Já a tentativa de se fazer humor é nula, pouquíssimas piadas são aproveitadas nesse filme abarrotado de subtramas que transitam entre si, apresentando diversos casais vivenciando juntos os períodos da gestação, sobrevivendo a todos os problemas ocasionados pela espera de um bebê. Tem a angústia originada pela ânsia do nascimento, os cuidados necessários que contribuem com a saúde, o estresse graças aos hormônios, dores e o afastamento ou união entre casais motivados pela vivência do período. É pouco para a validade comercial da obra que lhe inspirou, é minúsculo para o cinema mesmo sem grandes pretensões de se tornar maior do que verdadeiramente é. 


terça-feira, 13 de março de 2012

Proseando sobre... Os Descendentes

 
Novo filme de Alexander Payne (Sideways) trata de um drama familiar no paraíso havaiano. Espera-se ver beleza, ondas, pessoas bonitas e sorrisos satisfatórios. A beleza de tudo para aí nessa percepção de mundo, nas paisagens e nas mansões locais, pois a vida é como em qualquer outro lugar. Altos e baixos, tragédias, traições e famílias destruídas. Há a riqueza dos descendentes de realezas, aqueles que convivem com mordomias, pomposas heranças. Nesse meio está Matt King, que, ao contrário dos primos que apenas gozam da fortuna, trabalha como advogado, ficando pouquíssimo tempo em casa. A ausência deste homem é retratada em diálogos breves, coisas que ele não percebeu, momentos que ele perdeu. Sua instalação definitiva se dá após o grave acidente de sua esposa, hospitalizada em coma com poucas perspectivas de retornar a vida.

O filme exalta vários assuntos através das relações familiares estabelecidas, sobretudo com Matt e suas duas filhas, Scottie (Amara Miller) de 10 anos e a obstinada adolescente Alexandra (Shailene Woodley, indicada ao Globo de Ouro), completamente arredia aos pais, revela-se uma cópia da mãe, como sugere Matt. Payne busca dar relevo a veracidade e seriedade desse contexto através de diálogos expositivos, otimamente esboçados pelo roteiro, priorizando o encontro desta família atrás de soluções para o caso da mãe, omitindo da filha mais nova. Sem ficar preso unicamente a esse conflito, a obra busca mostrar os negócios familiares. A família está prestes a vender um enorme terreno praiano. Frente a isso, reflexões transformarão a vida de todos os membros, sobretudo do advogado, com uma retrospectiva pessoal, repercutindo merecimentos por feitos e atitudes.

A obra deixa como herança a possibilidade de identificação, algo que garante a afeição de alguns públicos. O roteiro bem elaborado trata de temas do cotidiano, encontrados em todas as culturas. O desenvolvimento disso marca no espectador uma emoção compartilhável, graças ao reconciliamento e progressão de sentidos, através de uma família estremecida por infortúnios particulares. A falta de maniqueísmos é outro trunfo do filme, que ressalta pessoas com defeitos, longe de funcionarem como modelos padronizados a serem seguidos, seja na idealização de mundo de um dos primos de Matt, ou nos interesses pelo poder, algo aprendido pelos familiares desde a infância, entre outros igualmente importantes para essa composição. E as crianças, tratadas como o futuro daquele vazio, essas contam com riqueza e carecem de carinho, cuidado e atenção, refletindo em suas personalidades marcantes, distantes e hostis.

Com um grande elenco em mãos, destaque para George Clooney em estado de graça, Payne demonstra cuidado na coordenação de seu elenco. Ele é um grande diretor de atores, como já provou em “Sideways” e “As Confissões de Schmidt”. Uma cena em especial, tão curta, mas importante, revela esse cuidado: quando Scottie resiste em sair de um quarto no hospital, uma cena particularmente primorosa no que diz respeito ao apreço pela representação do real, quase documental na ficção proposta. É um pequeno grande filme, um representante sensato do cinema indie, tragicômico, como as outras empreitadas de seu realizador, mas robusto, merecedor de todos os elogios que vem recebendo.


sábado, 22 de outubro de 2011

Proseando sobre... Gigantes de Aço


 Tem Spielberg na produção e uma criança protagonista, vem emoção por aí. Isto é previsível, igualmente sua história. O público interessado em filmes que buscam alguma redenção ou algo sobre reconciliação terá nesse “Gigantes de Aço” uma bela pedida, uma vez que ainda contarão com um humor leve, efeitos especiais poderosos, um drama condensado e protagonistas queridos. Funciona em sua proposta, só. Os robôs até lembram mini transformers, mas felizmente o longa não atende a veia masturbatória de Michael Bay. É feito para a família e não coloca cenas de caráter libidinoso, porém não economiza nos ângulos exaltando as coxas de Evangeline Lilly.

Shawn Levy, diretor de comédias como “Uma Noite no Museu” e “Doze é Demais” entrega um de seus melhores trabalhos. Inegavelmente divertido, explana relações familiares e afeições com máquinas, humanizando-as. Assim surge Atom, encontrado num ferro velho – no que seria um cemitério –, um robô utilizado em treinamentos, servindo para resistir a ataques, mas nunca agredir os oponentes. O interesse do menino que o acolhe é comovente, fazendo o espectador recordar do ótimo “O Gigante de Ferro” de 1999 tanto na interação quanto na ligação amigável. Max (Dakota Goyo) o leva para casa sorridente, correspondendo sua paixão por aquele universo – seus olhos brilhando frente a famosos robôs, especialmente ao imponente Zeus, denuncia sua adoração. 

Quando os humanos saíram de cena, entraram as máquinas. O ex lutador Charlie Kenton (Hugh Jackman) sofreu com essa troca, mas não abandonou completamente o esporte. Investiu nos robôs, se arruinou e se endividou. Sua pilantragem bem delineada guarda negações daqueles que o conhecem e entendem seus interesses. Onde ele puder investir e faturar alguns trocados, ele fará sem pudor. O duelo de um robô com um touro numa arena foge completamente a regra estabelecida nos combates nos torneios, algo que pouco importa para Charlie propenso a feitos e lucros. As coisas mudam quando seu filho Max aparece logo após a mãe ter falecido. Legalmente, o pai é quem fica com a guarda da criança, para o desgosto do personagem de Jackman.

Desenrolando-se como um novo “Falcão - O Campeão dos Campeões” – Stallone corre o risco de perder seu lugar na sessão da tarde para esse –, “Gigantes de Aço” é diversão familiar garantida embora convencional e pra lá de presumida. Tem Hugh Jackman novamente num papel que muito pouco lhe exige, cativando o público por seu carisma e rememorando resquícios do mutante Wolverine. Em “Gigantes de Aço” não se engrandece, divide a responsabilidade com o jovem Dakota Goyo (o “Thor” jovem) que segura bem o teimoso Max. A motivação do garoto é curiosa e compreendida por sua idealização paterna, figura ausente em toda a vida, surgindo repentinamente buscando não a guarda do pequeno, mas a grana provinda de sua recusa a ele.

A relação da dupla é desenvolvida com bastante naturalidade pelo roteiro, explicitando o ressentimento de Max por seu pai, pouco interessado em sua presença. Por perder a mãe recentemente, se vê dividido entre a família da tia ou os braços de Charlie Kenton. Shawn Levy bem envolvido com bons efeitos estabelece um grau parental de descobrimento, demandando cumplicidade, o que salienta interesses: o pai vê no garoto a possibilidade de faturar uma grana, percebe o talento do menino no controle das máquinas, mas não abandona seu pessimismo quando ao que Max, estranho para ele, tem a oferecer. Deste modo busca facilitações em toda a narrativa. Já Max experiência a novidade, ser o alvo das atenções e conviver com alguém que, além de pai, converteu-se num ídolo, apesar do suplício recalcado.

Funcionando também como um exercício de motivação – o “você pode” proferido irá empolgar –, o filme impulsionará comoção no público, não somente pela proposta inocente, mas pela energia de sua narração. Movimentadíssimo, o trabalho usa o melhor do Motion Capture para dar veracidade aos robôs. A mixagem de som é outro atributo significativo. Nas cenas de combate, ouvimos as latarias amassarem junto aos movimentos das ferragens se revirando. Nessa disputa vigente ao melhor estilo “Rocky Balboa”, o resgate de um sonho se concretiza com Charlie Kenton voltando a fazer o que sempre gostou: lutar. A glorificação se dá nesse retorno aos ringues e na possibilidade de criar um lutador poderoso e um vencedor para a vida. 

Passado em 2020 quando as lutas entre os humanos perderam a graça por não atingirem um arquétipo destrutivo almejado, robôs entraram em cena em duelos cujo cume era a aniquilação total de um deles. Um deleite aos apreciadores de violência exacerbada. As apostas nesses robôs são polpudas e niveladas, o mundo inteiro está envolvido nestes combates. A insinuação é óbvia: a falta de limites com a brutalidade e a relação nossa nesse meio cada vez mais transgredido. É preciso impressionar, chocar, seja no cinema, na televisão ou nas músicas. Devido ao ceticismo do público acostumado a essas cenas, a obrigação por uma novidade leva ao exagero, ao extremo. E a sociedade do espetáculo se alimenta e espera por mais.  

O FILME ESTÁ EM CARTAZ EM POÇOS NO CENTERPLEX. CONFIRA A PROGRAMAÇÃO CLICANDO AQUI