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quinta-feira, 3 de abril de 2014

Proseando sobre... Jovem e Bela

François Ozon vem retratar a juventude num filme de descobertas sexuais, de experiências, do reconhecimento do prazer. A forma com a qual narra difere do que geralmente vemos em obras análogas por imprimir um realismo e naturalismo nas relações dispostas, com a protagonista se prostituindo, saindo com homens mais velhos. Ela faz por prazer, pela oportunidade de enfrentar o desconhecido, como num jogo – assim ela explica em determinado momento. Implica-se nessa dinâmica questões sociais, psicológicas e filosóficas relativas ao seu desejo e recompensa, já que em uma transa ganha 300 euros e guarda o dinheiro numa carteira para ser usado no futuro carente de objetivo. O que ela faz é errado? Ozon nos mostra as circunstâncias sem responder, encarregando o público de testemunhar e julgar como este achar conveniente.

A trama se inicia no calor do verão numa casa de veraneio quando a jovem e bela Isabelle (Marine Vacth) toma sol fazendo topless. Nada de errado. Seu irmão a contempla – e nós juntamente através de um binóculo. Ele é um adolescente percebendo o crescimento da irmã, interessado pela beleza da figura feminina que vem lhe despertando interesse na escola. Há quem possa contemplar a cena como uma incitação incestuosa. Bobagem, essa não passa de um vislumbre curioso com relação a corpos em formação. Julgar a sexualidade alheia desencadeia uma entonação repressora a qual o filme se mantém distate. Nesse verão estilizado no litoral, a garota conhece um rapaz e com ele perde a virgindade. Uma contingência passageira. A relação desencadeia renovados desejos e novos ciclos inauguram distintas fases e interesses.

O diretor salienta os olhares e o distanciamento. Quando as férias terminam, vemos Isabelle indo embora observando seu primeiro amante ficando para trás. Tal plano constata toda uma profundidade de núcleos de relacionamentos desfeitos por conjunturas. Nada será a mesma coisa. Elas podem melhorar! E chegam novas estações, o filme é acompanhado por elas como episódios da vida da protagonista que de perto acompanhamos. Ozon é ótimo em evidenciar sua estrela sempre frente a câmera, explanando sua beleza em vários atos, seja quando está de biquíni na praia – numa tomada semelhante a realizada em Swimming Pool - À Beira da Piscina (Swimming Pool, 2003) com Ludivine Sagnier sob o sol –, nas que evidenciam explorações sexuais – masturbações – ou com os clientes, esses que geralmente são muito mais velhos. Essa proposta de explanar a juventude e sua beleza passageira culminará numa cena final excepcional, quando Marine Vacth divide a cama com Charlotte Rampling.

Passando o tempo, alcançamos todas as estações, percebemos as várias experiências de Isabelle, e notamos suas frustrações. Algo sério acontece e sua vida privada chega aos ouvidos da mãe e da polícia. Tudo inevitavelmente muda, exceto o desejo. Canções acompanham a narrativa, as letras trazem um pouco da percepção da protagonista que poderia ecoá-las traduzindo seu cotidiano. São composições de seus sentimentos. A intenção por trás do que conferimos em cena a partir das ações de Isabelle é retratar a sociedade julgando o que está perto, ao passo que aceita quando distante: a filha se prostituir não é legal, mas não há problema em existir prostituição. Tantas outras coisas sem encaixariam perfeitamente nessa ótica.

A série de acontecimentos que perpassam as 4 estações ficam em suspensão na trama graças ao roteiro linear, tudo é episódico e acentuado por algo simbólico, dialogando diretamente com a estação vivenciada. A primavera finda como renascimento, um novo brotamento diante a vivência do passado recente. Coisas demais aconteceram em pouco tempo e isso se arrastará pelo resto da vida, não só de Isabelle como também de sua mãe, irmão e padrasto. Recorrências no cotidiano, experiências precisas e a inclinação para o sexo numa abordagem semelhante ao clássico A Bela da Tarde (Belle de Jour, 1967). O sexo, aqui, também ocorre no período diurno. E esse sexo não vem como necessidade para uma protagonista que precisa dele para a vida, mas por gostar, ou para ocupar o tempo com algo que lhe dê estímulo, uma pulsão de vida que lhe desperte interesse e funcione como compensação da apatia contemporânea. 


quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Proseando sobre... Elles

Várias desculpas poderiam justificar, embora sem grande êxito, a realização dessa apática obra estrelada pela costumeiramente espetacular Juliette Binoche. Não há nenhum grande foco, existem situações, questões jogadas entre as interações dos personagens que por vezes emulam situações corriqueiras da vida e conotações de desejos reprimidos. É o máximo da narrativa relembrar o quanto mascaramos sentimentos, e isso é pouco, pois a forma com que objetiva a proposta é problemática, com pouquíssima coisa satisfatória. O filme trabalha com um tema fértil: a prostituição. Sobre ela, morais se desenrolam e estereótipos tradicionais se quebram. Trata-se de puro desejo e conforto, facilitações e abstrações.

A história é simples e carrega potencial. Anne (Binoche) é uma jornalista da revista Elle com pretensões de fazer uma matéria contendo entrevistas feitas com estudantes universitárias que se prostituem. Sua curiosidade transcende a motivação dessas garotas, parece buscar nelas uma resposta outrora recalcada em sua vida. Há uma intrusão a intimidade dessas mulheres que até certo ponto se defendem. Quanto a protagonista, percebemos o quanto é legítima sua projeção durantes as conversas, com a atriz habilidosa em cena mostrando-se introvertida, perdida em devaneios enquanto as jovens contam orgulhosamente suas experiências. Anne às vezes se perde na escuta. Já as garotas, Alicja (Joanna Kulig) e Charlotte (Anaïs Demoustier), contam despreocupadamente e com detalhes seus encontros.

Capaz de absorver os detalhes das entrevistas levando a aspectos de sua rotina, relação com o marido, filhos e o trabalho, Anne se apropria dos discursos percebendo-se atada a frustração pessoal, algo que ela não via, ou pelo menos não queria ver. Sua compreensão arrasta-se até um jantar em que ela mesma prepara numa noite a fim de recepcionar o chefe do marido. Essa construção é banhada de metáforas e referências por vezes libidinosas, constatando sua nova condição consciente. A diretora polonesa Malgorzata Szumowska não emprega moral em seu longa e leva as prostitutas a outro âmbito em cena, diferindo do comum retratado onde usam personagens provenientes da miséria e encontrando solução na prostituição. Elas não são vítimas de um contexto. Aqui, acontece por vontade. Faz lembrar as memórias de Mãe, filha, avó e puta quando tece uma crítica a condição da mulher e relata, em defesa das prostitutas, que o mundo não é feito de vítimas e que tudo é negociável, inclusive o sexo.    

A temática não é nova e nunca sai de moda. Steven Soderbergh trabalhou com a ex-atriz pornô Sasha Grey em Confissões de uma Garota de Programa (The Girlfriend Experience, 2009) trazendo parecidamente o glamour hipócrita de uma pessoa que vive duas vidas, embora a verdade seja, por vezes, compartilhada. Incontáveis filmes são lembrados quando se trata o assunto, sobretudo na oferta de estabilidade, finalidade sedutora posta nos diálogos. Esses que no filme soam frouxos e vagos, comprometendo o resultado final. Sua limitação pouco envolve, mas instiga reflexão levantando dúvidas a respeito de quando o prazer se esgota. Vale fazer menção a A Bela da Tarde (Belle de Jour, 1967) de Buñuel, infinitamente superior a esse Elles (idem, 2011).

A complexidade que se supunha é passageira. O filme passa, se delonga e se esvai, deixando poucas questões a tratar. As histórias contadas pelas duas entrevistadas são boas, breves e concisas, conciliando cenas sem pudor – e tome perversão com variados clientes – com relatos sinceros de uma vida de luxúria na capital francesa. Em poucas noites dá para arrendar um apartamento em Paris. Sem julgamentos e com um olhar implícito sobre circunstâncias sociais, Elles remete ao jogo de aparências num turbilhão de vaidades, colocando em pontos mulheres bonitas escolhendo um caminho oculto e lidando com a rejeição e levando uma vida comum e voluntariamente feliz. Isso não quer dizer que estimula o espectador a fazer o mesmo, mas dá um tapa na cara de quem se vê superior a elas. Observamos um sorriso no rosto natural nessas mulheres ao contrário de um tímido movimento nos lábios omitindo insatisfação, esses estampados na face da hipocrisia.

Crítica primeiramente publicada em http://www.cineplayers.com/critica.php?id=2454


quinta-feira, 21 de junho de 2012

Proseando sobre... Slovenian Girl

Jovens que saem de suas pequenas cidades interioranas atrás de um futuro mais interessante em grandes centros. Esta é uma temática conhecida, incansavelmente usada, trabalhada em distintos contextos na busca de se adequar às situações econômicas e sociais dos países retratados. É sobre uma história desse calibre que Slovenian Girl (Slovenka, 2009) se desenrola, trazendo em seu foco a mudança de vida da jovem Aleksandra (Nina Ivanisin), saindo de Krsko a caminho de Ljubljana, a fim de estudar. Sua estada na capital da Eslovênia lhe rende um parâmetro a respeito de condições, o que a faz emergir num mundo até então desconhecido, porém identificado como saída para suas frustrações. A prostituição é retratada sem o glamour ordinário, mascarando hipóteses de aceitação na trajetória de alguém em busca de si e de felicidade, a qualquer custo, em plena crise econômica européia.

É um ideal de sonho distante ou idealizado, pode-se dizer assim, sobre a busca incessante de Aleksandra por um conforto que outrora não tinha. Provinda de uma vida sem luxos, foca nas possibilidades de sucesso no disfarce de uma prostituta com o codinome “Slovenian Girl”, ocultando o ofício de alguns em sua volta, entre eles Gregor (Uros Furst), um ex-amante, Vesna (Marusa Kink), uma querida amiga da faculdade e seu pai, o batalhador Edo (Peter Musevski). Dividida entre dois mundos e contaminada pelas ofertas de ambos, a garota se restringe numa redenção de seu eu, contrastando a imagem já desfeita socialmente da boa garota interiorana atrás de sucesso.

No sentido da narrativa, o clima proposto por seu diretor Damjan Kozole é de mistério, o que estabelece a dinâmica da obra, sempre ameaçando os segredos de sua fria protagonista. O cadenciamento desse ritmo ganha energia em dois atos em especial, após uma morte de um magnata alemão e quando a protagonista percebe-se atrelada a inescrupulosos cafetões propensos a violência desmedida. A variante da história é a postura de seu diretor em salientar a Eslovênia e sua desconjuntura diante a União Européia, só que tal resultado é difuso e inócuo diante suas claras presunções. 

A escolha de sua protagonista em adentrar-se no ramo da prostituição é uma ousadia proposta na história, e o roteiro escrito pelo próprio diretor juntamente a Matevz Luzar e Ognjen Svilicic permite essa abstração de sua estrela. Com algumas semelhanças a Beleza Adormecida (Sleeping Beauty, 2011), de Julia Leigh, e com o asiático Samaritana (Samaria, 2004), de Ki-duk Kim, - só para citar dois exemplos diante de tantos –, a diferenciação se dá pelo vínculo estabelecido com os clientes, o que rende boas subtramas. Slovenian Girl não foge do sentido usual de longas do gênero: a busca pela independência e sucesso a qualquer custo. Essas mulheres não temem o risco, temem o futuro e se motivam pela insegurança do presente. 

De expressão melancólica demarcada pela fotografia escurecida, a sensação aflita do longa perdura e ganha contribuição marcante de Nina Ivanisin, sem sorrisos, lacônica e com uma voz silenciosa.  Damjan Kozole salienta a deriva progressiva de seu longa tal como é a da protagonista, corrompida, guiada pelo almejo danoso. O diretor prioriza a indefinição de sentido, e, uma vez que o amanhã vem a contribuir com o sofisma da previsibilidade, o rumo incerto é mesmo um risco sofrido por quem o vivencia. Usual e metafórico, Slovenian Girl é um bom filme sobre o caminho à posteridade — não só de alguém, mas de um país. 


quarta-feira, 6 de junho de 2012

Proseando sobre... Beleza Adormecida


O universo estabelecido por Julia Leigh é no mínimo atraente. Dito isso, vale acrescentar sobre essa atração inúmeras perspectivas: a filosófica, que reflete o corpo de uma jovem como objeto de prazer; a metáfora, relacionada ao conto de fadas, sobrepondo aquela construção fantástica a realidade infeliz; o sensorial, nitidamente arrastado, contrapondo a vagarosa angústia de viver em circunstâncias despudoradas; a perversão nos atos, algo estabelecido no fetiche de homens com suas manias e sensos; e pela arte, implícita nos manejos fílmicos da roteirista e diretora, exprimindo uma idealização desejosa sobre uma bela jovem nua e frágil entre quatro paredes.

Mais do que assistir e acompanhar a narrativa, parece ser preciso senti-la, por mais custoso que possa ser. Não é difícil se flagrar incomodado em alguns instantes, vários deles cadenciados, mostrando o dia a dia de uma jovem que precisa pagar os estudos. Numa gráfica, sobrevive a um vazio particular, um tempo aturdido e humilhante, e não sendo o bastante tal malogração, seu salário não paga o que deve. É preciso de mais. Sem nada a perder, se interessa por um anúncio no jornal. Aí, talvez, podemos compreender a inserção dela em solo estranho, num lugar em que ela deve servir homens usando lingerie. Mas isso é real.

O filme passa, se delonga e menos informações nos são dadas. A narrativa atravessa um período sumo sobre seu tempo, numa vida em que nada, ou pouquíssima coisa, realmente acontece. O acúmulo de serviços demonstra uma vida rasa, cujo sentido propagado emana solidão. E o que importa nesse meio? O que realmente quer sua protagonista? Não temos esse acesso. Parece não ser o interesse. A vida passa, simplesmente passa e Lucy não vive, é vivida. Acontece que seu trabalho de servir era apenas uma porta de entrada para uma outra e incomum prática: ela precisa ser sedada durante um chá, e durante seu sono, homens passam a noite com ao seu lado. Há uma regra, sem penetração.

A prostituição dessa jovem pequena e delicada é evidenciada através de takes longos em que não só seu corpo é mostrado, mas o cenário inteiro, funcionando como um complemento artístico, como se fosse uma pintura moderna. A direção artística é fecunda ao explorar a palidez de sua estrela naquele contexto. O corpo nu da bela atriz australiana Emily Browning parece remeter a uma idéia de tratar-se de uma jovem ainda não desenvolvida em sua plenitude. É um desespero silencioso, nos adentramos nesse âmbito indolente, com um olhar distante sobre o que acontece entre as quatro paredes de um quarto luxuoso, entre homens ricos e idosos cujos corpos envelhecidos apavoram. E nós fazemos parte, testemunhamos como voyeurs, afinal, estamos em um dos lados do cubo projetado.

Indicado a Palma de Ouro, esta obra pode ser compreendida como retrato moderno, cujos valores deturpados atingem a sociedade e sua individualidade, sua serenidade inerte ao ser, aos outros. Tem boa técnica, a diretora faz uso de elipses como adornos a sua vagarosidade. Aí reside a beleza do filme não acontecido, não concretizado, como atributo significativo ao que a sociedade vigilante é, especialmente quando uma câmera é instalada por Lucy, por curiosidade, para saber o que acontece durante seu sono. Tudo fica em aberto e passível de discussões. É de beleza marcante, porém sem vida, que a primeira incursão de Julia Leigh no cinema transcorre, numa contemplação artisticamente vivaz e de simbolismos atordoantes.


domingo, 6 de novembro de 2011

Proseando sobre... Sauna on Moon



 Selecionado para o Festival de Cannes esse ano, “Sauna on Moon” não retrata a beleza da cultura oriental. Artifícios recorrentes como a direção artística normalmente irrepreensível destacando as cores e a arquitetura é ignorada, nem tem a elegância pungente da arte chinesa, país a qual a história é ambientada. O que veremos é a província de Guangdong, a cidade de Macau, cercada por favelas, em meio a degradações e ruínas. Ali, uma casa de prostituição funciona coordenada por Wu, homem de negócios, otimista quanto ao futuro daquele local e de suas garotas. O filme acompanha sua investida esperançosa apoiado por clientes poderosos e mulheres sem nada a perder.

O diretor e roteirista Zou Peng coloca neste seu segundo trabalho – o primeiro fora “Dongbei, dongbei” – o sonho de seus personagens em atingirem status sociais desejáveis através do entretenimento local, no caso, um prostíbulo pequeno. O lugar é limpo e organizado, atendendo importantes figuras que usam codinomes. A China com seu potencial econômico funciona como antagonista a história narrada, sugestionando os entraves sociais e a mistificação valorativa de seus cidadãos.

Wu não está sozinho em seu desejo, o que exalta laços amplos diante aos constantes fracassos, embora estes estejam escondidos atrás de alguém em defesa do sonho, otimizado e esperançoso. O roteiro alinha a realidade com exatidão. Não estamos frente a um filme que aspira finais revolucionários, felizes. Aquele papo de que ao final tudo vai dar certo não cabe aqui e isso não é um spoiler, sua narrativa compreende essa conclusão desde o início, o diferencial se dá no como lidar com isso. Aí o filme ganha discussões interessantes a partir da perspectiva de seus personagens, quem continua tentando ou quem cai fora.

Vislumbrando seus personagens, principalmente as mulheres, numa clara característica da filmografia oriental no uso de planos detalhe, “Sauna on Moon” é um filme passivo, com uma história lenta e que diz muito pouco, trazendo sonhos e incertezas futuros, busca por felicidade e dinheiro, e também de fama. Um trabalho repetitivo e fustrado, e não importa quais sejam as novidades para se faezr algo diferente – no caso, estoque de produtos do Sex Shop. É um filme para se ver, pensar qualquer coisa sobre o tema repetitivo e aguardar por uma nova sessão.   


segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Proseando sobre... Bruna Surfistinha


O novo sucesso de bilheteria nacional é “Bruna Surfistinha”, filme que retrata um pouco a vida de Raquel Pacheco, filha de pais adotivos de classe média alta paulistana que está disposta a vencer frustrações do cotidiano e conquistar autonomia. O caminho que encontra para isso é a prostituição. Adaptado a partir do livro O Doce Veneno do Escorpião” escrito pela própria Raquel, o longa inicia resgatando cenas do passado da garota intercalando com seu presente, sua aproximação da casa de prostituição, seus primeiros clientes e sua hegemonia que meses depois lhe glorificaria ao mesmo tempo em que lhe seria corrosivo. Seu dia a dia passou a ser retratado num blog recebendo mais de 10.000 visitas diárias e comentários desejosos de homens que economizavam por meses para passar uma noite com Bruna Surfistinha, codinome de Raquel.

O filme possui várias cenas de sexo e como não tê-las? Ao tratar da vida de uma prostituta cujo sexo é o responsável por seu sucesso, este não poderia ficar de fora acontecendo em cena por longos momentos e com vários homens. É o fio condutor da narrativa e através dele conheceremos a fragilidade de uma garota perdida em suas ambições. Nesse percurso sexual, é importante frisar, embora ainda seja tratado com algum humor pelo roteiro, traz uma temática séria ao abordar escatologias, perversão e fetiches que sugerem humor ou nojo, ou para os mais solidários, pena. É interessante como o roteiro expõe os prazeres e a composição proposta pelo diretor Marcus Baldini demonstra de forma recortada e breve o prazer urgencial que os clientes procuram naquela única hora com Surfistinha.

Baldini se revela burocrático na direção fazendo o básico sem aprofundamentos na história – embora essa tenha quase duas horas de projeção – e ignora circunstâncias do passado como a humilhação de sua protagonista no colégio, sua relação com os pais e irmão e a cleptomania que parece atingi-la compreendida por quem vê como uma reação à frustração. Tudo isso aparece em brevíssimos momentos no longa. O interesse do filme é outro: a prostituição como oportunidade de se dar bem na vida. Nesse caso, Bruna tem o auxilio de um blog que funciona como um diário e este lhe vende. É difícil assistir o filme e não recordarmos de Catherine Deneuve em “A Bela da Tarde” que vai parar opcionalmente numa casa de prostituição por motivos distintos aos de Bruna, ou fazer uma ponte com alguns filmes de nossa cultura como “O Céu de Suely”, “Falsa Loura” e recentemente com “Sonhos Roubados”. Entre tantos, principalmente, “Bruna Surfistinha” faz recordar o ótimo “Nome Próprio” devido a fama adquirida pela protagonista através de blogs.

E quem rouba a cena nessa história é Deborah Secco numa atuação marcada por sua lascívia já no primeiro ato quando num plano exibicionista incita o voyeur – ainda que distante daquela que mais tarde irá se tornar . Após conheceremos uma jovem insegura de si considerando-se a garota mais feia do colégio. De início, nada trás de sensual em seu cotidiano sempre vestida com roupas largas e com postura desajeitada. Sua personagem sofre uma grande mudança, exigência de sua nova condição e desabrocha nua frente à câmera sem pudores. Sua conduta é acertiva, a atriz ganha atenção não por ficar nua e transar com filas de homens – despertando imaginação em alguns que vão ao cinema unicamente para vê-la desnudar – mas por seu desempenho dramático exigido em vários atos.

A contemplação visual incita e recrimina preconceitos, uma vez ser um filme simples – pouco intenso – mas conveniente a sua pretensão. Esse “Bruna Surfistinha” trata com sinceridade o tema da prostituição e faz refletir trazendo idealizações de mulheres que decidiram largar tudo para tornar-se prostituta. O assunto é fértil e temos visto cada vez mais em destaque. Como exemplo dos últimos anos temos a ex-prostituta Gabriela Leite que largou o curso de sociologia na USP e decidiu virar prostituta ficando famosa mais tarde com a grife Daspu e o livro de memórias “Filha, mãe, avó e puta”. São exemplos brasileiros de mulheres que convivem com a resistência e preconceitos se submetendo a perigos e humilhações, e lutam para o reconhecimento dessa profissão vista por alguns como uma das mais antigas de nossa história. 


quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Proseando sobre... Confissões de uma garota de programa


2 mil dólares em uma hora. É o que Chelsea consegue nas noites quando vai prestar favores a homens que pagam por seus serviços – e esses serviços não são somente de ordem sexual. Já em DVD, “Confissões de uma garota de programa”, novo filme de Steven Soderbergh, um jovem e promissor diretor que carrega na bagagem um Oscar por “Traffic” e mais duas indicações, traz o cotidiano de uma prostituta luxuosa de Manhattan, exibindo seu cotidiano entre homens milionários. Para discutir essa prática socialmente rejeitada, o diretor abre mão de nudez e relações sexuais concentrando-se no ímpeto de sua estrela que lida com o mundo omitindo-se e censurando-se.

Nesse ofício, ela se depara com os mais variados clientes cuja necessidade está muito além do prazer carnal a qual tão caramente pagam, mas na possibilidade de terem alguém para lhes ouvir, com desabafos financeiros, sobre a economia do país ou escândalos da bolsa de valores. A câmera do diretor renuncia o apresso e encontra um ritmo centrado nos diálogos de seus personagens, sobretudo em Chelsea, vivida pela atriz pornô Sasha Grey, esbanjando beleza, charme e empenho para os descrentes a respeito de seu potencial enquanto protagonista se calarem. Chelsea leva uma vida confortável e ainda namora um homem que aceita seu modo de vida, embora visivelmente enfrente uma profunda introspecção pessimista percebendo o capitalismo estourando em sua cabeça. Tal reflexão foi imposta pelo diretor e pela dupla de roteiristas, Brian Koppelman e David Levien, focando a representação tão valorativa do dinheiro, na sociedade de consumo, com predominância de uma classe financeiramente mais poderosa, sendo desmascarada nas horas com garotas de programa tão presentes nesse contexto e pouco notadas.

Soderbergh explora o elitismo através do contra senso, representado na lascívia de Sasha Grey, e na monstruosidade de seus clientes, em tomadas longas e cores frias, em espaços luxuosos, custosos e finos. Inexplicavelmente traduzido no Brasil, o filme originalmente chama-se “A experiência de uma namorada”, que na real, expressa bem o papel que Chelsea exerce dando aos seus clientes um companheirismo por vezes distante tendo o sexo como um alcance natural. Não deverá atingir um grande público, mas seus pouco mais de 70 minutos garantem uma reflexão bastante destemida sobre valores sociais moralizantes.  


quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Proseando sobre... Ponto de Partida



 “Ponto de Partida”, disponível em DVD, é tão desregradamente triste que pode levar pessoas momentaneamente descontentes com a vida a entrarem num estado de plena angústia. Se o filme proporciona esse risco, ele também oferece consolo ao continuamente nos lembrar que todo mundo tem seus problemas. Para tanto, traz um ex padre aspirando suicídio; uma stripper ganhando trocados para tentar manter o filho vivo; um agente funerário asmático incapaz de gozar de um relacionamento; um ex presidiário com um tumor no estômago e um travesti acovardado pelos insucessos amorosos.

As vidas desses personagens se entrelaçam nas ruas de Los Angeles, alcançadas pela solidão, apunhaladas pela insegurança e pelo distanciamento. O clima dos mais lutuosos ganha bons momentos com trilhas que filtram e amenizam a dor desses personagens. Cercado de mistério, o filme conta com uma narração típica de múltiplas histórias, como ocorrido em “Magnólia” e “Crash – No Limite”, mas sem o ímpeto que fizeram desses dois filmes referências recentes do gênero. Se o diretor e roteirista Timothy Linh Bui não corresponde à eficiência de “Crash” e tampouco a complexidade tão bem amarrada de “Magnólia”, ao menos, ele acerta na frieza com a qual explora seus protagonistas, pendendo mais para as características do mexicano Iñárritu dos ótimos “Amores Brutos” e “Babel”.

No elenco recheado de estrelas, chama a atenção o empenho surpreendente de Jessica Biel, em seu papel mais ousado da carreira, provando não ser somente um rostinho bonito de Hollywood. Muito mais do que dividir créditos com um grande elenco, os melhores momentos do filme são dela, onde a nudez é um mero atrativo de sua tão viçosa protagonista. Ao lado da atriz, o carismático Forest Whitaker sintetiza ira e aflição, enquanto Ray Liotta volta a desempenhar um belo papel após alguns anos. Ainda aparecem Eddie Redmayne, Lisa Kudrow, Kris Kristofferson e o falecido Patrick Swayze, em um de seus últimos trabalhos, e talvez o mais atrevido.

Na aflitiva ordem dos acontecimentos de “Ponto de Partida”, onde esboços de sorrisos competem com lágrimas, esperanças parecem não faltar. E muito embora a esperança apareça como um reforço da tragédia, algo verdadeiramente bom pode sobrevir. Fundamentalmente triste, “Ponto de Partida” escorrega na sua simplista direção e na sua proposta de almejar alguma luz no fim do túnel, distante e turvo como a história em questão.