Mostrando postagens com marcador solidão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador solidão. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Proseando sobre... Las Horas Muertas


O tempo em Las horas muertas (idem, 2013), filme do mexicano Aarón Fernández, é o que condensa a narrativa através de seus poucos personagens e do contexto silencioso tal como a obra que é destituída de trilha. Assistimos o pequeno motel Palma Real à beira da estrada, onde as pessoas vão atrás de tempo, de espaço, de fuga e prazer. Assistimos ocasionais chegadas e partidas. Os vínculos são raros, especialmente para o menino Sebastian que, prestes a atingir a idade adulta, está vivenciando um ofício deixado por seu tio, que precisou se afastar do motel e precisava de alguém de confiança para tomar conta durante sua longa ausência. Questões inevitáveis vêm despertar a curiosidade do jovem, seja na ação das pessoas que quase diariamente por ali passam ou na amizade desenvolvida com uma mulher mais velha, igualmente frustrada diante sua condição numa pequena cidade litorânea que a aprisiona, consumindo-a intimamente. Esse é o ganhador do prêmio de melhor contribuição artística na Tokio International Film Festival.

Tudo que nos é apresentado é enxuto, no entanto temos convicção de suas finalidades e representações, já que o filme não enrola e mantém um mesmo ritmo ao longo de seus 100 minutos. As horas mortas sugerida pelo título são expressas pela inanimada figuração de seus personagens, todos obrigados a se ater a uma rotina e segui-la sem surpresas. As novidades ficam por conta dos rostos diferentes daqueles que chegam ao Motel, muito embora eles se repitam. As circunstâncias são as mesmas e nada empolga Sebastian, que se vê sozinho sem opções do que fazer, a não ser disputar cocos com um vizinho mais jovem ou ouvir por trás das portas os hóspedes. Há ainda alguns outros personagens que corroboram essa ideia da demora do tempo, como uma ajudante que lava os lençois voluntariamente como desculpa para encontrar o namorado nas dependências do motel a fim de transas furtivas; ou o idoso que cuida do período noturno, unido unicamente a um cão, esperando as horas passarem com a paciência que a vida no local lhe amestrou.

A perspectiva de mudança chocada com o realismo da sucessão de acontecimentos confere naturalidade tocante a narrativa. Aarón Fernández dirige o filme com prudência. Em suas mãos dois atores burocráticos conseguem demonstrar a ociosidade necessária as quais seus personagens (sobre)vivem. Kristyan Ferrer encarnando Sebastian e Adriana Paz com sua Miranda, mulher que precisa vender casas em um condomínio na praia, mas que vem encontrando duras dificuldades pela rejeição ao local. Soma-se a sua estadia malograda um romance adúltero com um homem que sempre a deixa esperando no Motel. Suas horas vazias encontra as de Sebastian e uma amizade com um curioso encantamento se difunde, estreitando laços. 

O litoral de Veracruz imprime alguma beleza a obra de Aarón Fernández, com o mar de fundo e os coqueiros em volta. O sol não banha o filme como se supunha e a película ganha traços de estranha frieza reprimindo o ambiente caloroso. Os romances que por ali passam são passageiros. O tempo morto acede à harmonia suspensa. No início do filme, um personagem diz que o local precisa de algumas mudanças, embora a rotina fosse importante e não poderia ser alterada. Algumas árvores mortas precisavam ser retiradas. Após a vivência por ali, Sebastian, frente a existência desfalecida cujas pulsões de vida foram sabotadas pelo encadeamento espacial e temporal, busca uma revitalização com pequenas reformas. Simbolicamente ele coloca uma tampinha sobre um besouro e logo o fita, observando a dificuldade do inseto em carregar o objeto, semelhante a sua situação no Palma Real, arrastada e infeliz. Suas tentativas de mudança no espaço físico do motel vislumbram uma alteração sensorial e emocional. A solidão e a percepção de distanciamento, todavia, conserva-se. 


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Diário Cinéfilo: Minha Irmã (L'Enfant d'en Haut, 2012)



Há muitas questões complexas dentro do roteiro desse “Minha irmã”, questões que vão muito além da proposta do título brasileiro, proposto como referência a relação estabelecida que acompanhamos na história, no entanto é pequeno frente a outros embates bem mais importantes. A história vai além da relação entre irmão e irmã, como os personagens se consideram, ela trata de afeto e de valores familiares amoldados, interesses privados pela angústia da realidade, de um provável passado infeliz – que não temos acesso – até um futuro vislumbrado com igual pessimismo. Assistimos um garoto de 12 anos ir até uma estação de esqui diariamente, lá ele rouba equipamentos dos turistas e vende no conjunto habitacional onde mora, ganhando algum dinheiro para se sustentar e dar algo para sua companheira, Louise, bem mais velha que ele, que tem casos amorosos voluntários e se mostra incapaz de se manter algum emprego. Mutáveis, se mantém próximos por necessidade. E por paixão. Algumas eventualidades causam desconfiança no público. A relação vista soa paternal, é ele quem cuida dela. Há também uma aproximação íntima, já que o menino, em certo momento, paga pela atenção da mulher, aparentemente como única forma de manter algum contato, de tocar.  Dependências afetivas e financeiras são tratadas com leveza neste projeto da diretora Ursula Meier. Também tem Léa Seydoux vivendo Louise, o que já merece uma espiada.

Direção: Ursula Meier
Elenco: Léa Seydoux, Kacey Mottet Klein, Martin Compston e Gillian Anderson


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Proseando sobre... Não Quero Dormir Sozinha

 
Duas gerações se chocam pela necessidade. Avó e neta se encontram num momento bastante delicado, quando a matriarca já não possui boa saúde, sofrendo de Alzheimer. É a jovem quem se encarrega de cuidar dela, sofrer juntamente e passar pelos apuros que a doença degenerativa traz. As duas não tem lá muita intimidade, aliás, as relações familiares de Amanda (Mariana Gajá), a protagonista cuidadora, são remotas, com um pai cineasta ausente que financia o hospital da mãe e alguns gastos pessoais da filha. O distanciamento é evidente. É sobre isso que o filme busca tratar: a superação do afastamento, a reaproximação de quem sempre se manteve longe. Exibido na 36ª Mostra Internacional de Cinema São Paulo, Não quero dormir sozinha é um drama sobre a solidão, o primeiro trabalho de Natalia Beristain, selecionado para o Festival de Cinema de Veneza.

Uma ex-atriz do cinema passou, envelheceu e fora esquecida, numa ótica semelhante a de Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950), porém sem a magnificência de Wilder. Dolores (Gabriela Roel) está sozinha, repetindo coisas e com a memória a curto prazo comprometida. A solução é ser internada numa clínica, algo visto com desprezo pela neta que se voluntaria a cuidar da senhora. Mas a dificuldade em lidar com tal sensação inflama quando descobre que sua avó é usuária de álcool e encontra na bebida um bom sono que não alcança quando lúcida. Acompanhar a progressão dessa história é um deleite. De maneira branda, a narrativa perpassa algumas dificuldades dessa vivência, associando-se a A Família Savage (The Savages, 2007) de Tamara Jenkins ou Longe Dela (Away From Her, 2006) da canadense Sarah Polley e sua ternura.

A ação do tempo é tratada com zelo e delicadeza pela diretora, e isso ainda é fortalecido pela boa atuação das protagonistas, a veterana Gabriela Roel e Mariana Gajá. As duas, em certo instante, ficam nuas num vestiário, e contemplamos a diferença dos corpos. Enquanto constatamos a nudez de Amanda em frente o espelho, com o corpo jovem e formoso, logo notamos a chegada de sua avó, reverenciando a neta com saudade dos anos em que dispôs de beleza semelhante. Durante um banho, Natalia Beristain investe em seqüenciais planos detalhes, contrapondo ambas.

O protagonismo é de Amanda, que não consegue passar as noites sem companhia, sempre buscando alguém para dividir a cama. Homens passam por ali diariamente, vivenciando a solidão da garota de olhar triste. Carente de afeto, algo que aparentemente, segundo sugestões do roteiro, não obteve quando criança, ela busca independência negando qualquer tipo de ajuda ou auxílio paterno. De outro lado sua avó, solitária, representa o velho contemporâneo, às vezes esquecido, segregado e injustiçado.

Alguns filmes estão voltando a atenção para a fase da terceira idade. A diretora procura ressaltar com certa poesia o inevitável em vida, a busca pela aceitação do tempo que condenará a beleza e talvez a mente. Não importa a cultura, dramas semelhantes são observados por todos diariamente, especialmente por aqueles que convivem com pessoas mais velhas. O aumento da expectativa de vida obriga o interesse e olhares atentos para a saúde de modo geral nesta fase, algo que criticamente a diretora procura relevar. Daí o filme se converte num relato amargurado sobre o assunto, tratado com intimidade e certo pesar por Natalia Beristain. O que resta para Dolores é a glória de outrora, e para Amanda, uma boa razão para sua existência, até então inanimada, e finalmente garantir alguma boa recordação para o futuro.

* Crítica originalmente publicada em http://www.cineplayers.com/critica.php?id=2542


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Comentando sobre... A Guitarra


Acompanharemos uma vida vazia, sem grandes lembranças, sozinha. A protagonista dessa vida é Melody, sem vínculos, descobrindo uma grave doença. Ela tem câncer e pouco tempo lhe resta. Juntamente a isso, mais dois grandes golpes: ela é demitida de seu cargo e abandonada pelo namorado. Desiludida, deseja gastar seus últimos meses num apartamento espaçoso. Pouco a pouco ela compra luxuosos móveis sabendo da impossibilidade de pagá-los. Pouco a pouco ela enche este apartamento como também enche sua vida de novidades, de relações e experiências, entre elas a concretização de um sonho infantil o qual teremos acesso graças a vários e iluminados flashbacks. Melody – e que nome poderia ser mais adequado? – sempre quis tocar guitarra e sempre manteve uma obsessão por uma guitarra vermelha na época da infância, instrumento o qual jamais pode ter. Melody é vivida pela atriz Saffron Burrows que contracena com mais dois atores, Isaach De Bankolé e Paz de la Huerta. Junto aos dois, a garota percebe uma mudança grande em sua vida, novos hábitos aprazíveis e sorrisos frente a sua condição. É um trabalho de poucos equívocos e de profundas reflexões a respeito do que têm-se feito da vida e quais alegrias temos adquirido. Dirigido com segurança por Amy Redford, filha de Robert Redford, “A Guitarra” fala de sonhos e ambições sobre uma vida sem ânimos e expectativas e quão alguns desejos podem nos ser viscerais.  

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Comentando sobre... A Vida dos Peixes


Refere-se ao distanciamento, ao deslocamento, ao afastamento das origens. Refere-se a lembrança, aos elos, a saudade. “A Vida dos Peixes” é um drama romântico chileno que trata as circunstancias cotidianas da vida, bem como reflete o que temos de abrir mão para ser feliz; ou nos consolar através de uma fantasia de que algumas escolhas, de fato, são para nosso bem. No entanto, algumas coisas são inesquecíveis e irrevogáveis. No simples ato de uma festa, o desencadeamento de lembranças refaz passos e desorienta, é o que acomete Andrés (Santiago Cabrera), chileno morador de Berlim. Ele é funcionário de uma revista de turismo o que lhe mantém muito tempo fora de casa lhe impossibilitando vínculos. Sua vida passageira lhe traz prejuízos aqui e ali. Agora resiste a um vazio existencial que outrora não sentia, e percebe tal incômodo quando revê velhos amigos, uns casados, alguns almejando o posto de Andrés, ocasionando uma inversão de valores na narrativa, sempre muito bem conduzida pelo diretor Matías Bize. Soma-se a esse desalento a lembrança de um amor abandonado, Beatriz (Blanca Lewin), mas que ainda claramente lhe sufoca. E que ótimos são os momentos os quais percebe ter feito muito na vida ao consentir perguntas de umas crianças durante um jogo de vídeo-game e ao mesmo tempo nota não ter trazido nada com isso; ou quando encontra a jovem Carolina (María Gracia Omegna), menina que vira pela última vez quando esta ainda era criança, cena que abre perspectivas do tempo e suas duras ações. Como poderia este protagonista, ao seu modo, orgulhar-se de um posto que lhe torne sozinho? Essa impressão melancólica, realçada pela fotografia exuberante e luzes cintilantes, só manifestam realidades quase insuportáveis, as quais somente coragem motivaria mudar. 

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Proseando sobre... Hanami - Cerejeiras em Flor



 A finitude da vida, a morte inevitável, a angústia a qual ela engrandece, são os temas do belíssimo drama alemão “Hanami - Cerejeiras em Flor”, dirigido e escrito pela diretora Doris Dörrie, que traz os dias do casal Angermeier já com os filhos criados, tocando vagarosamente a vida numa cidade do interior da Alemanha com simplicidade e pacificidade. Trudi (Hannelore Elsner) após ir buscar exames do marido, descobre que ele tem uma doença terminal e não sabe se deve lhe dizer. Seguindo orientação dos médicos, decide realizar alguns sonhos deixados de lado e aproveitar aqueles que seriam os últimos dias dessa união prestes a acabar. Uma de suas maiores vontades era ir até o Japão, mas antes, vão para Berlim onde alguns dos filhos moram e trabalham. Nesse lugar o casal irá se deparar com filhos ocupados e netos que mal os conhece.

Trudi é declarada fã da cultura oriental, sobretudo de Butô. O filme flerta com artifícios japoneses, levando em páginas de um livro imagens do Monte Fugi, lugar de profunda admiração da mulher. Quanto ao marido, Rudi, sem saber de seu estado de saúde, não tem tantas ambições quanto à esposa e aceita acompanhá-la nessa viagem apenas para agradá-la. Mas, para surpresa, o sofrimento acaba comprometendo a vida de Trudi que morre durante o sono num quarto de hotel a beira mar, após dias de profunda aflição e agonia. Nesse ato, ocorre à inversão dos fatos, com Rudi agora sozinho, desesperado com o retraimento repentino, sem saber de sua doença, vivendo o luto e atrás de um sentido para a vida. Ciente da frustração dos filhos por terem de se dedicar a ele, decide ir até o Japão não só para passar os dias com um de seus filhos que mora por lá, mas viver o sonho de sua esposa.

Escrito pela própria Dörrie, o roteiro exalta uma viagem perturbadora, ainda mais para Rudi (vivido por Elmar Wepper) propenso à pacata vida caseira, trazendo as relações familiares estremecidas, com a indiferença dos filhos que consideram a presença dos pais um incômodo. A possibilidade de perdê-los nem passa por suas cabeças. A aparição de moscas no decorrer da história metaforiza a aproximação da morte através da curta vida dos insetos. Já o desprezo vigente mobiliza o público, num misto de mágoa e serenidade, levantando aspectos da relação entre pais e filhos e questionando o valor desta em dias atuais. Discute aí o abandono em asilos, nas ruas ou em casas, facilitando a resolução do problema de dedicar-se ao cuidado. Os dias estão cada vez mais acelerados e o tempo dedicado ao outro parece irrelevante.

Doris Dörrie trata com bastante delicadeza um tema cada vez mais recorrente. E a Alemanha, país tão distante, não parece tão diferente do que acontece no Brasil. O individualismo vitimiza a relação no filme, como exemplo, o contraste entre Rudi com sua simplicidade devota ao trabalho e seus filhos envolvidos completamente com suas singularidades sem espaço para novidades. A narrativa comove pela sutileza combinada a bela fotografia enaltecendo as ruas de Tóquio quando o protagonista visita o Japão, curiosamente vestindo as roupas da mulher como um símbolo, sua companhia, perda recusada em seu luto flagrando solidão. Nesse lugar, convive com a mesma indiferença que vivera em Berlim e encontra numa praça com cerejeiras em flor uma dançarina de Butô, e vive um encantamento que lhe aproxima da esposa, com o cuidado e a atenção que há pouco perdera.   


sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Proseando sobre... Vc tá aí



Isolamento e distanciamento do real, o mundo da tecnologia abusiva separando, individualizando socialmente. O contato com o mundo, em alguns casos, se restringe e mantém prisões particulares onde outros interesses nos capturam comprometendo um convívio mais humano. Como tantos, o protagonista desse “Vc tá aí”, filme exibido na 34ª Mostra de Cinema Internacional de São Paulo, vive no mundo dos games e o contato com o exterior parece-lhe distante. Preso aos jogos, viaja o mundo com outros caras competindo mas, o que poderia ser também uma viagem entre amigos, se revela uma equipe com interesses em comum cuja interação extra profissional é limitada. Jitze (vivido pelo ator Stijn Koomen) está imerso nessa contemplação virtual e seu ostracismo social traduz-se em várias cenas como a solidão de seu apartamento e os fones de ouvido que parecem extensões de seu corpo.  

Dirigido pelo holandês David Verbeek, “Vc tá aí” acerta o alvo que pretende: explora com cadência sensorial as conseqüências da globalização e a propagação do mundo virtual com a influência desse sobre a vida da atual geração. Verbeek tem um roteiro bem amarrado, seguindo a lógica do avanço da tecnologia e competições profissionais internacionais de games. Em Taipei, o jovem Jitze, que embora passe horas na academia fugindo do sedentarismo como sequela de sua profissão, sente ao acordar uma forte dor no ombro consequente das várias horas dedicadas aos treinos e campeonatos. Logo acaba afastado da equipe para se tratar. Sem o que fazer, vaga pelas ruas e encontra dentro de um elevador uma prostituta, Min Min (Ke Huan-ru), e pede para que ela lhe faça uma massagem. O convite termina aceito.

A repercussão desse recolhimento emplaca uma reflexão sobre inferências que o mundo virtual acarreta. É um assunto de disseminação urgencial – há jovens cada vez mais incapazes de se desligar da internet. O filme vai além da adicção por virtualidade, ato muito bem representado com Jitze que se percebe afim de Min Min quando é tocado por ela de maneira carinhosa e cuidadosa. No entanto, suas investidas enquanto oportunidade real acontece através da expressão de pedidos por massagem, e fica claro sua inabilidade em aproximar-se afetivamente, até descobrir que a garota passa horas no Second Life e decide criar um perfil lá. Aí sim ele concebe uma relação íntima. Nesse simulador, fica claro às idealizações do casal: Min Min é uma fada e vive num mundo bastante distante daquele da cidade enquanto Jitze assume o avatar de um soldado, caracterização sem novidade e criatividade, seguindo o mesmo modelo de avatar dos jogos os quais está envolvido. O rapaz cada vez mais dependente da companhia da moça passa a pagá-la para tê-la por perto. Nesse âmbito a relação avança e a construção de uma vida dedicada ao vídeo game estremece quando a companhia anteriormente remota torna-se comercializada.


quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Proseando sobre... Arcadia Lost

O grego “Arcadia Lost”, exibido na 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, é falado em inglês e contém pouquíssimos diálogos com a língua original. A história irá acompanhar alguns dias das férias de uma família americana. Quanto ao elenco, é recheado de atores de menor expressão exceto pela presença de Nick Nolte. Com um prólogo charmoso, o filme dispõe de flashbacks apresentando uma família em dias felizes, – no detalhe dias ensolarados – e esboça especialmente a íntima relação entre pai e filha denunciando a adoração da menina que brinca e provoca incessantemente chamando a atenção do pai. Uma canção sutil alenta a introdução onde sem delongas amargará um desastre.

A direção ficou a cargo do cineasta grego Phedon Papamichael que atenua com sensibilidade comovente os primeiros minutos de seu projeto, apoiando com atuações burocráticas o desenrolar de uma história com um forte texto dramático e teor filosófico em sua tessitura. O rigor do dramalhão se dá na reprodução de seu conflito: a jovem Charlotte (Haley Bennett) não aceita o padrasto e teme pela ocupação desse homem estranho assumindo o lugar de seu falecido pai. São várias as intrigas entre os dois, resultando em desafios e ofensas contra a mãe, desolada durante a viagem pela Arcadia na Grécia, flagra a filha no quarto do hotel juntamente a um desconhecido.

O estouro dessa relação resulta num grave acidente que deixa Charlotte e Sye (Carter Jenkins), o filho de seu padrasto, numa espécie de limbo em busca de um caminho e recebem o auxílio de um homem incógnito, o barbudo e misterioso Benerji (Nolte), cheio de parábolas e lições. Os dois terão de encontrar a direção para retornarem ao local do acidente numa região litorânea, mas antes precisam descobrir um sentido para suas vidas. O percurso irá permitir uma reflexão acerca desses dois personagens vivenciando um novo contexto – a mensagem ao público é evidente embora maquiada e transformada em alegoria complexa. Não estranhe descobrir os finalmentes da história antes do final de sua primeira metade.

“Arcadia Lost” resgata várias de suas cenas no decorrer da história, enfatizando diálogos passados remetendo significados insistentes. O filme está repleto deles. Seu maior valor é a possibilidade de experienciar a narrativa, fazer com que o público viva o filme e questione os entraves de seus personagens, em suas angústias e frustrações; e ainda refletir sobre o onde se encontram perdidos. O espectador de fato mergulha num mar de simbolismos e a imersão dessa asfixia se dá na conclusão particular própria e singular de seu público. Não é um filme para todos os gostos e se mostra mais valorizado do que realmente mereça, no entanto tem sua minúcia e um encanto favorável que o faz digno de alguma atenção.

sábado, 30 de outubro de 2010

Proseando sobre... Insolação


A cineasta Daniela Thomas famosa por seu trabalho na direção de “Linha de Passe” e por participar do roteiro de “Abril Despedaçado” assume a direção ao lado do famoso diretor de teatro Felipe Hirsch nesse dramalhão intitulado “Insolação” que conta sobre o vazio existencial e amoroso.  Nome estranho, nada atrativo. Se tem gente que não gosta de cinema nacional, com esse título então!? Já ouvi gente dizer que os brasileiros não sabem dar nome à seus filmes. Discordo em partes. Esse projeto ainda conta com um elenco de respeito encabeçado por Paulo José, e ainda Simone Spoladore, o talentosíssimo Leonardo Medeiros e as ótimas Maria Luisa Mendonça e Leandra Leal.

O filme fala de solidão – desamparo, desejo inalcançável; essa última palavra deve ser destacada. Fala de amor de um jeito todo poético e de sua inacessibilidade através dos olhos de personagens bem compostos, incluindo, para pasmar, o almejo de uma criança frente a sua primeira paixão já bem crescidinha. O roteiro busca acessar a aspiração apaixonada e utiliza até uma ninfomaníaca entre outros tipos sobrevivendo a frustrações amorosas num litígio de amor mal resolvido. A solidão domina a tela, observe que a cidade – com locações em Brasília – é erma e as formas de vida se dão apenas com a presença dos personagens centrais.

O roteiro é escrito por Will Eno e Sam Lipsyte e os caras não dispensam a alegoria filosófica, presente logo em seu início quando o personagem Andrei (Paulo José) interage com o público levantando questões sobre a vida, cena fechada interrompida quando o leva até outro lugar com livros de baixo do braço entre eles uma introdução da literatura Russa. É o indicativo de onde a história toda foi inspirada. Ali ideais são levantados enlaçando os poucos interessados em ouvi-lo. Desenrola aí um discurso sobre o amor atingindo seus ouvintes incautos como uma flecha propensa a provocar e incomodar.

Não é um filme para todos os gostos. Daniela Thomas e Felipe Hirsch entregam uma constituição que cairia bem enquanto literatura, mas aqui com a oportunidade de fotografar. Nesse quesito o diretor de fotografia Mauro Pinheiro Jr. se sobressai. A história reúne o cotidiano dos personagens recortando cenas e misturando-as. O calor predominante e castigador de Brasília recai sobre esses solitários seres transitando a procura do amor confundindo sua afeição carente com insolação. Provém daí o título, como um símbolo em meio a tantos outros que apóiam a estrutura dramática desse filosófico drama pessoal o qual exercita a criatividade e a atenção de seus espectadores diante algo diferente, mas por vezes – aliás, muitas vezes – longínquo tal como o amor. 

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Proseando sobre... Mary e Max - Uma Amizade Diferente


O improvável se faz presente na animação “Mary e Max – Uma amizade diferente” pela distância de sua idéia nos dias atuais, porém, não muito diferente da lógica a qual estamos envolvidos quando trata-se de meios de comunicação. Se hoje, a proximidade, embora individualizada, se manifeste através da internet, em um tempo nada remoto – ainda existente em contextos especiais – eram cartas que mantinham relações e é em cima delas que a animação em stop motion do Australiano Adam Elliot irá se modelar. 
 
Max sozinho na cinzenta Nova York
Dois são os personagens que moverão o filme: primeiro a pequena Mary Daisy Dinkle, australiana solitária, que carrega uma mancha de nascença e é apaixonada por chocolate. Passando a maior parte do tempo brincando sozinha, observa a ausência do pai num trabalho enfadonho e suas manias pessoais (como embalsamar pássaros mortos); e sua mãe, uma alcoólatra cuja vaidade esconde sua adicção e os constantes furtos, compreendidos pela garota como empréstimos. Em outra ordem, no ocidente, na cinzenta Nova York, um homem melancólico morando num apartamento escuro acompanhado de animais. Frequentador de um grupo terapêutico, metódico, convive com a síndrome de Asperger e de outros transtornos obsessivos. Esse é o quarentão Max Jerry Horovitz vivendo numa singularidade sofrida e amargurada. 
Mary é amante de chocolate
O interação improvável desses dois só acontece quando, no correio, aleatoriamente Mary escolhe um nome numa lista e grava o endereço desejando mandar uma carta a um desconhecido com questões infantis e fantásticas como: “como nascem às crianças nos Estados Unidos?”. Munido de um climão perpassando o bizarro, através de estilizações de personagens de massa, o filme incita uma tristeza incomum em animações, despertando questões filosóficas e religiosas de forma nada sutil, utilizando de um humor negro brando em suas entrelinhas. A graça do projeto se dá nessa diferenciação, em sua originalidade e criatividade, colocando em jogo um caráter racional, embora brinque com fantasia. Essa valiosa, estranha e perpétua amizade ganha um sentido fascinante.
 
Genial em seu desempenho e desenvolvimento, o roteiro não se preocupa em dar soluções às angústias pessoais de seus profundos personagens, amontoando questões ao longo dos anos durante a troca epistolar que atravessa continentes, levando dias, restando a expectativa da demora enquanto a vida de ambos passa. Os dois contextos são explorados com intensidade mórbida, ao mesmo tempo que brinca com dilemas da vida, característica de seu diretor (vencedor do Oscar pelo curta “Harvie Krumpet”). Recheado de significados, “Mary e Max” detém um universo alternativo dentro das animações que implica numa dimensão inovadora, imaginativa e intensa no limite o qual poucos filmes do gênero conseguem nos proporcionar.

sábado, 2 de outubro de 2010

Proseando sobre... A Estrada




Um futuro apocalíptico se materializa em "A Estrada", novo filme do diretor australiano John Hillcoat, que conta a jornada de um homem e seu filho numa sobrevida, famintos e com o frio castigando em busca de esperança num planeta destruído, cinza, cujo futuro está condenado. Os poucos sobreviventes vagam atrás de alimento e de água, enfrentando uns aos outros, entre aqueles que ainda preservam morais humanas e outros entregues às condutas primitivas, alguns praticando ferozmente o canibalismo. Com Viggo Mortensen como protagonista - um dos grandes papéis de sua carreira - o filme se revela um ensaio do fim dos tempos supondo situações as quais o homem enfrentaria. 

Os personagens não têm nome, identificados como o homem, a mulher e a criança, não ficando muito longe da proposta do Saramago em seu “Ensaio sobre a cegueira”. Viggo vive o homem, aquele que mantém esperança nessa terra caótica, caminhando sofridamente com seu filho em direção ao mar, prevendo suas possibilidades de sobrevivência. Em contrapartida a esposa, que preferiu a morte a sofrer, a dupla seguirá resistindo idealizando uma saída. E o que é a vida senão uma luta contínua diária para viver. Nesse contexto de ameaças, o longa recordará “O livro de Eli”, porém, num plano filosófico sibilante sobre sobrevivência. 

John Hillcoat celebra o caos através da caracterização de uma visão apocalíptica nesse lugar em que a morte soa bem mais atraente que a resistência intolerante. O percurso aproveita a destruição para discutir a relação entre pai e filho, unidos por um ideal, maltratados, e evidenciando a força desse homem em manter-se em pé por seu filho, mesmo encarando a realidade posteriormente ameaçando selar suas vidas temendo um final pior. Essa construção do roteiro de Joe Penhall que adapta o romance escrito por Cormac McCarthy, nota o fortalecimento da crença de um recomeço em algum lugar, encarando essa jornada rumo à esperança num litoral, cada vez mais distante e subitamente aparentemente inacessível.