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quinta-feira, 7 de março de 2013

Proseando sobre... Duro de Matar: Um Bom Dia para Morrer



Alguém deveria fazer isso parar, pois, embora seja duro de matar John McClane, o personagem enquanto ícone do cinema de ação acabara morrendo, já que está se parodiando, com um Bruce Willis no piloto automático, reproduzindo tudo o que já fez. A franquia não depende nem mais dos feitos do seu famoso personagem central, mas dos efeitos ao seu redor e do perigo iminente que este deve passar para justificar o título do longa. Ele é impossível de matar! Agora é seu filho quem está em teste. Sem graça e com a mesma sorte, John McClane Jr. (Jai Courtney) é uma cópia barata do pai. Courtney acaba carregando um peso gigante: despertar no público o mesmo interesse que Willis despertou no final da década de 80. Nem é preciso dizer qual foi resultado.

“Duro de Matar: Um Bom Dia para Morrer” acontece na Rússia, local o qual Jr. está preso. O pai vai até lá descobrir o que está rolando e tentar uma reaproximação com o garotão – problemas de relacionamento entre pai e filho é uma subtrama tola e irritante proposta pelo roteiro. Chegando lá, percebe que o filho não é lá exatamente um mau rapaz e está envolvido num esquema para salvar o mundo, mesmo que em julgamenro. Tudo está indo bem, até a chegada do paizão que atrapalha seus planos e em pouco tempo se responsabiliza por uma catástrofe nas ruas de Moscou. Perseguições, explosões, tiros, capotamentos: um dia comum na vida de McClane que já não teme mais o perigo como outrora. 

O roteiro escrito por Skip Woods – cara responsável por aberrações como “Hitman” e “Wolverine” – não só sabota o personagem de Willis, ele desequilibra o filme inteiro, pendendo para a diversão passageira, com piadas e ação descerebrada. Para os fãs da série, esse é um capítulo para se esquecer. Woods deveria ser proibido de escrever qualquer coisa. Já a direção é de John Moore, cara que fez “Max Payne” e o remake de “A Profecia”. Que dupla, em? Esta é uma obra para ser consolidada como uma das piores sequencias – quinta parte! – dos últimos anos no cinema de ação e de qualquer outro gênero. Nem menciono a completa falta de noção espacial e temporal do diretor.

E o que salva? Tanta testosterona imaculada por armas, violência e detonação, e no meio disso a russa Yuliya Snigir vestindo um colante e tocando o terror empunhando uma arma. Símbolo fálico para o gozo num filme absolutamente masculino. Ainda aparece Mary Elizabeth Winstead, a cheerleader do Tarantino em “À Prova de Morte”, como Lucy McClane. Conhecemos ela em “Duro de Matar 4.0”.  Ela dura cerca de 2 ou 3 minutos em frente a câmera sem nenhum propósito a não ser justificar que ela continua existindo.

O humor resplandece em vários momentos, desde o início num congestionamento até o ato final na cena do helicóptero. Elas, no entanto, parecem ter sido escritas por algum colega do Adam Sandler sem noção cômica. Algumas piadas se repetem insistentemente, como a das férias do protagonista(?) ou a conversa onde o filho não chama o pai de pai. Faltou revisão do roteiro? Subestimam o público ou trata-se de uma paródia? John McClane está totalmente em segundo plano, mesmo com o longa sendo dele. Ou então decidiram arranjar uma nova franquia com o Jr.. Que não saia mais nada desse abismo e John Moore se envergonhe pelo que fez com a criação de Roderick Thorp, dirigida pela primeira vez em 88 por John McTiernan. Bons tempos.


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Proseando sobre... Django Livre



Ele conseguiu de novo. Tarantino agora trás uma epopéia western utilizando todos os recursos, referências e características de um legítimo faroeste. Chegou nos cinemas em Poços mais uma de suas extasiantes e competentes obras, “Django Livre”, violenta e sarcástica, referenciando um importante personagem ícone do westen do anos 60, “Django”, no caso e na época vivido por Franco Nero. Aqui o Django – com o D mudo, é preciso frisar – é encarnado por Jamie Foxx. A história é outra, trata de escravos. Django é um. Era um. Foi comprado pelo dentista caçador de recompensas Dr. King Schultz (Christoph Waltz) e tornou-se um mercenário em parceria. Juntos eles atravessam cidades atrás de cabeças que possam render-lhes algum dinheiro. Passam por um inverno sangrento, novas ambições chegarão na primavera. 

Vemos constantemente o horizonte tomado por um sol laranja que castiga campos desertos e cidades minúsculas buscando crescimento. Representa entre outras coisas o progresso dos Estados Unidos. Esse horizonte é posto em tela por Tarantino, tal como fragmento dos westerns os quais homenageia, e como destino de um cinema liberto de controle. O diretor explora isso, pois fala de si, transgride a forma comercial e concebe algo autoral, igualmente seus trabalhos anteriores, transitando por vários lugares e remodelando a fórmula comum. É bom demais acompanhar essa sua criação, sangrenta, despudorada e agressiva, tudo se conglomerando em tiradas cômicas. 

O rastro de sangue deixado pelos personagens protagonistas leva a um inteligível senso de direção que remonta a ótica tradicional dos filmes western. Não vão para o Oeste, mas para o Sul, onde residem milhares de escravos. Um apontamento nas cenas iniciais demonstra isso, um outro rumo para um novo contexto. Nele sobram deboches. Um deles, talvez o melhor, seja no ato em que um grupo da Ku Klux Klan improvisada e desordenada tenta por fim a dupla central, eles mal conseguem enxergar qualquer coisa com sacos na cabeça, no entanto se obrigam a usá-los como símbolo de algo que eles mal saberiam explicar o que é. Ouvem falar e fazem. Há também a cena em que um bolo branco está para ser servido, sobremesa atraente cujo sabor provavelmente é amargo. Negros escravos de brancos protestantes o colocam na mesa.    

Com personagens icônicos, o filme se desenvolve desequilibradamente. Sempre há algo a ponto de explodir. A coisa toda é tão emergente que em uma cena, por exemplo, um simples aperto de mãos ganha uma dimensão descomunal. Mise-en-scène, contexto, armas e olhares afunilam um ato. Não demora para a cor vermelha predominar. Spaghetti em composição e postura, falamos de um western atemporal, vislumbrando tempos de outrora com inovações narrativas e técnicas de filmagem simbiótica entre a característica autoral de seu realizador com os manejos de câmera dos filmes antigos, como os utilizado por gênios iguais ao Leone ou Ford. Já é o bastante para querer ver “Django Livre”, mas há muito mais. A trilha sonora que bebe da fonte clássica com instrumentos de cordas divide espaço com o rap. 

Famoso por criar grandes personagens, o diretor trabalha com ótimos atores, entre eles estão Leonardo DiCaprio num papel vilanesco já na segunda metade da projeção, e Samuel L. Jackson – voltando a atuar num filme do Tarantino – como um escravo condescendente a sua condição. E o que dizer do ato em que Django (Foxx) e o Django de 1966 (Franco Nero) dividem a tela numa conversa breve? As luvas brancas usadas por Nero remete diretamente as suas mãos feridas no final do clássico, provocando uma certa estranheza que se converte em nostalgia e satisfação por percebermos que o cara está ali, devidamente reverenciado. Pensando em todos os atores, nos recordamos de Christoph Waltz, um monstro em cena, engolindo todos os outros intérpretes. Em sua veia ainda pulsa um pouco de seu personagem Coronel Hans Landa de “Bastardos Inglórios”, porém dessa vez mais cômico e com um código moral própria que rivaliza com as pretensões narrativas. “Django Livre” termina onde quase todas as obras tarantinescas terminam: na vingança. Ou melhor, as obras começam com ela e acontecem a partir dela. Filmaço!


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Proseando sobre... Jack Reacher - O Último Tiro



Um bom roteiro impede “Jack Reacher - O Último Tiro” de ser um mero filme de personagem estrela. A presença de Tom Cruise reforça a indagação, visto o histórico de obras que o têm a frente, por exemplo na franquia “Missão: Impossível”. Costumo questionar os caminhos diferentes que Cruise e Brad Pitt seguiram desde que despontaram como galãs do cinema, com o primeiro tornando-se astro de grandes filmes cujo conteúdo é discutível; enquanto o segundo tornou-se um grande realizador e produtor, além de ser um bom ator ligado a interessantes projetos. Certamente não é essa a questão proposta aqui, mas é relevante, dada a situação de Tom Cruise, aos 50 anos, não figurando como um mero galã, mas alguém que está percebendo o tempo passar dentro da história e na vida. Ótimo no papel, dedicado como sempre, esse é um de seus mais notáveis trabalhos de constituição de personagem. 

Baseado no livro “O tiro” de Lee Child, o filme carrega um mistério a respeito de um crime que leva diretamente a identidade de um único culpado, com todas as provas caindo sobre um ex fuzileiro, James Barr (Joseph Sikora), que fora internado imediatamente após ser gravemente agredido na prisão. Ele chama pelo nome Jack Reacher num bilhete. Por quê? Para quê? É o que as autoridades questionam, especialmente uma advogada, Helena Rodin (Rosamund Pike). Reacher (Cruise) subitamente aparece, homem cujo histórico indica um militar condecorado, tornou-se um andarilho sem destino, rodando o país sem ser pego ou descoberto. Alguns detalhes dizem muito sobre ele. O personagem é explorado pelas ações adotadas, e logo compreendemos suas convicções e filosofia desprendida, baseando a vida na justiça e verdade, embora algumas de suas escolhas aparentam ir contra tais princípios.  

Um homem paga um estacionamento e posiciona-se em frente a um parque portando uma arma. Ele observa cuidadosamente as ações de várias pessoas caminhando, mirando-as, como se procurasse um alvo. Passando de uma a uma, o atirador seleciona e puxa o gatilho, matando 5 e desperdiçando uma bala. 5 mortos sem razões, desconhecidos, sem ligações. Um crime brutal e aparentemente passional leva a uma busca pelo responsável, restringindo a uma pequena lista de prováveis assassinos, já que o atirador é, certamente, um profissional. Pistas são largadas aos montes. 

Christopher McQuarrie é o diretor que também roteiriza, trabalhando com grandes detalhes neste filme que conta com mais de 120 minutos de duração. O cineasta que venceu o Oscar por “Os Suspeitos” – aquela genial obra dos anos 90 cujo final permanece inabalável – cria um ambiente de inquérito motivado por suspeitas num terreno em que ninguém está livre. O próprio protagonista é posto a prova pelo espectador que se atém a pormenores. Essencialmente, o personagem central agrada – longe de compará-lo com o original concebido na obra literária, uma vez que não a li – por sua execução. É divertido acompanhá-lo, já que reúne o melhor de cada espião famoso do cinema e da literatura, apossando-se de uma expressão austera e uma seriedade inteligente, carregando uma única peça de roupa, o que demonstra desamarras sociais.    

Tom Cruise também produz a fita e se torna marco de um filme de vários interesses, oculto até seus últimos momentos, colocando a prova a veracidade do caso, já que os fatos se quebram pelo conhecimento restrito a experiência de um ser semelhante em profissão, caso do herói e o ferido Barr. Tem boa ação, não decepcionando fãs do gênero com cenas longas de embates e perseguição, ao passo que trabalha bem como um enérgico filme de espionagem, ultrapassando clichês que figurariam como um problema graças ao bom desenvolvimento dos personagens. E ainda tem o diretor Werner Herzog atuando com sua voz inconfundível vivendo o destemido Zac – os cinéfilos não irão demorar para celebrar tal aparição cult e melhorar qualquer conceito que vinha tendo relativo ao filme quando ouvi-lo proferir algumas palavras. Robert Duvall e Richard Jenkins fecham o elenco desse considerável longa policial.


domingo, 12 de setembro de 2010

Proseando sobre... Conta Comigo



Jornada entre riscos e sorrisos
Quem preza a amizade como quando tínhamos 12 anos? Época do ponto de partida da adolescência em que as ações eram bem mais emocionais. Muitos filmes retratam essa fase de ouro, e não são todos que conseguem transmitir com sinceridade o quão importante e inconseqüente ela é; nem o quanto marcante deverá ser. Algumas da melhores lembranças estão lá e são desencadeadas por cheiros, imagens e gostos sempre com uma saudade pungente no peito de tempos que não vão mais voltar. “Conta Comigo” é um dos exemplos de filmes imortais. Falando de infância e início da adolescência, esse considerado clássico da sessão da tarde ainda vigora como um exemplo significativo do ser criança e, embora se passe no final da década de 50, precisamente em 1959, o filme foi realizado nos anos 80 e ainda hoje, mesmo que a tecnologia tenha mudado algumas relações, surte efeito para quem não dispensa o companheirismo. É impossível viver sozinho. 

Dirigido por Rob Reiner que em 2007 filmou “Antes de Partir”, o longa acompanha a jornada de quatro garotos que descobrem o corpo de um menino morto perto dos trilhos de um trem que passava pelo estado de Oregon, próximo a uma pequena cidade onde moravam. O desaparecimento desse menino é uma notícia viral e pensando na possibilidade de ficarem famosos ao serem os responsáveis por encontrarem o cadáver, partem em sua busca. O caminho trilhado irá expor a relação desses quatro: Gordie, aspirante a escritor, vive uma relação conturbada com o pai e sente falta do irmão mais velho morto num acidente; Chris, de origem humilde, sonha com um grande futuro e recentemente teve problemas com um roubo; Corey, desafiador, adora chamar a atenção; e Vern, um gordinho alvo de chacota dos amigos. Reunidos por um objetivo, carregam uma arma de fogo, objeto de consideração por parte dos meninos. No percurso, os episódios em que ficam presos numa ponte por onde um trem se aproxima e o mergulho numa lagoa com sanguessugas são trágicos e cômicos. 

O longa é baseado no conto de Stephen King, “The body”, e foi adaptado para o cinema pela dupla Raynold Gideon e Bruce A. Evans, concorrendo o Oscar de roteiro adaptado. Os personagens são explorados através dos diálogos e das brincadeiras entre as crianças – para exemplificar: o pai alcoólatra de Chris; o sentimento de Gordie achar que seu pai o preferia morto a seu primogênito – e tudo isso através de uma narração em off do escritor décadas após a jornada. Várias são as cenas que denunciam o comportamento impulsivo e descompromissado dos quatro ao mesmo tempo em que outras revelam preocupações adultas: vejam quando empolgados com a caminhada, esquecem completamente de trazer comida; ou quando não levam a sério os reais perigos da arma que carregam; em outra instância, enquanto Chris e Gordie falam do futuro, Corey e Vern discutem sobre super heróis. 

Kiefer Sutherland (à esq) em um dos seus primeiros trabalhos
No elenco, alguns nomes que ficaram famosos posteriormente, dentre eles a presença marcante de um dos atores mais promissores de Hollywood da década de 80 morto prematuramente em 1993 devido uma overdose, River Phoenix. Estão no elenco Wil Wheaton, Corey Feldman (“Gremlins”) e Jerry O'Connell (“Joe e as Baratas”). Completando, Kiefer Sutherland numa representação da rebeldia dentre jovens  do tipo "Juventude Transviada" e John Cusack numa ponta como o irmão de Gordie. O cinema poderoso num pequeno filme que tem muito a contar, o qual o final é mais do que um aprendizado sobre a infância e adolescência, é sobre a vida em sua iminência. A trilha é outro trunfo indo de Jerry Lee Lewis a Ben E. King e seu extraordinário hino, “Stand by Me”.