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quarta-feira, 25 de junho de 2014

Proseando sobre... A Culpa é das Estrelas

Honestamente não penso que o filme faça de tudo para nos emocionarmos. Como se quisessem vender uma ocasião vislumbrando um sofrimento que escolhemos passar a partir do momento que lemos a sinopse e seguimos para a sessão. Longe disso. Não faltam exemplos na história do cinema com tal pretensão. Não é o caso de A Culpa é das Estrelas, filme inspirado no best seller do escritor John Green. Há elementos fundamentais que evocam o pranto e contribuem naturalmente para o despertar da emotividade em diferentes níveis. Aos detratores, parecem motivados pela ira da provável mesmice que encontraram ou que julgaram que encontrariam antes mesmo de sentar na sala de cinema; aos que gostaram, que criticamente ou não avaliaram a obra como um romance sensível, permitiram-se vivenciar a emoção proposta, algo que funciona. Algo que naturalmente funciona.

Funciona por perspectivas reais. Todos tem ciência sobre o quão sério uma doença como o câncer pode ser. Ainda está no imaginário popular a periculosidade dela, como o anúncio de uma sentença de morte, uma condenação! O filme não se trata disso, obviamente, mas é o contexto. O filme trata de um possível romance de alguém cujo ideal de um futuro feliz fora estremecido quando descobriu que tinha uma doença terminal. O tempo tornou-se ouro. Para dimensionar a sensação, os protagonistas são demasiadamente jovens sofrendo juntos, se apegando ao que tem por mais um dia o qual o sol nasce lhes permitindo aproveitar o tempo que lhes restam. Isso já é motivo para emocionar uma vez que a empatia é instantânea. Nos projetamos!

E o câncer é um assunto inesgotável. Não faz muito tempo que rimos com o despudorado 50% (50/50, 2011) ou com o comovente A Guerra Está Declarada (La Guerre est declarée, 2011). Há tantos outros. O fato é que muitos acreditaram que topariam com uma bobagem do nível de Um Amor para Recordar (Walk to Remember, A, 2002) – esse que possui fãs muito mais pelas situações propostas na narração do que pelo filme. Talvez A Culpa é das Estrelas esteja mais próxima do ótimo Inquietos (Restless, 2011). Aqui dois jovens, Hazel e Augustus, se cruzam num grupo de apoio a pacientes com câncer. Interagem, brincam, se apaixonam como qualquer casal adolescente que cria expectativas no outro e se diverte. No caso, há algo a mais que compartilham, a possibilidade do futuro explode em suas cabeças bagunçando-os de incertezas, tão caoticamente como as estrelas no céu. Ainda assim, o conforto vem do afago de todos em sua volta, algo que a câmera do diretor Josh Boone consegue compreender burocraticamente. Há ainda uma busca por respostas vinculada a presença de um escritor na Holanda (esse é vivido por Willem Dafoe). Os motivos de uma repentina viagem acaba similar a conclusão escolhida tanto no livro quanto no filme. Um pequeno símbolo do vindouro oculto.

É definitivamente um filme muito pouco inventivo, não traz muito de novo. Mas traz o essencial romântico de uma boa história honesta e verdadeiramente cativante. É verdade que o mérito reside em Shailene Woodley, atriz que vive Hazel. A menina impressiona, nos mantém ligados e preocupados frente a sua condição. Seus gestos, sua leveza, sua dicção garantiu uma das interpretações mais singelas e críveis do ano até então. A situação da doença felizmente não é romantizada, é naturalizada. Um desafio conquistado com pouca densidade. Uma pena ver uma armadilha usual repetida que tira a força em seus minutos finais quando o uso de um flashback evocativo visa – dessa vez sim – um acréscimo de emoção. Essa deixa de ser natural pelo que o filme havia construído até ali. E percebam, a vida não é um lamento, mas uma celebração.  Simples, o longa emociona, é OK.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Proseando sobre... O Hobbit: A Desolação de Smaug



Mais ágil e vibrante que o anterior, O Hobbit: A Desolação de Smaug é capaz de unir algumas pontas e dar continuidade ao arco dramático dos eventos passados sem prejudicar a história e o ritmo, anexando ainda alguns bons personagens. É inevitável não querer fazer referência a obra prima O Senhor dos Anéis. A presença de alguns personagens – que não constam na obra original – e menções passageiras a outros serve como nostalgia e oportunidade de fazer o espectador gostar mais desta nova saga. No entanto a duração longa, muito embora seja dinâmica e divertida, arrasta-se com planos desnecessários. Há subtramas perfeitamente dispensáveis que nos fazem questionar o rumo da franquia e o interesse maior de Peter Jackson. Aos saudosistas, o filme é uma lástima! Aos que não se importam muito com fidelidade em adaptações o filme é uma deliciosa aventura!

Bilbo segue juntamente aos anões rumo ao Reino Perdido dos Anões de Erebor. São várias as aventuras e embates mortais pelo caminho, semelhante ao longa anterior. Nesse há mais ação, bem mais! O espetáculo visual garante o interesse do espectador e às vezes rouba a atenção da narrativa. O convencionalismo e os clichês seguem incomodando, a tal ajuda que aparece subitamente nas horas inapropriadas tiram a beleza e o suspense iniciado pela sugestão de ameaça e os combates perdem o impacto. Inquestionavelmente infantil, a Desolação de Smaug ganha conotações mais severas com as alterações no roteiro diante a adaptação, imprimindo mais ferocidade – com cabeças rolando e corpos despedaçados sem sangue – a jornada heróica e verdadeiramente perigosa, especialmente quando estão em cena os Orcs e Wargs.

A história ganha traços de obra épica pelos feitos diários de seus personagens, e testemunhamos tudo com convicção em respeito ao que estamos vendo e, principalmente, compreendendo. As cenas de batalhas são bem realizadas e coreografadas. O diretor não perdeu esse cuidado. A técnica o favorece, desde o som ao desenho artístico, tudo responde a favor do longa que mergulha na ação e emerge na tensão, enquanto o humor condensa. Quanto ao drama, esse recai sobre alguns poucos personagens, tendo ligação ao passado e a cobiça que envolve a pedra Arken. O romance não fica de lado e aparece de forma constrangedora, relacionando o anão Kili e a elfa Tauriel. A tentativa de Jackson em plantar uma heroína na história é satisfatória, mas a forma com a qual escolheu lhe ofertar um romance foi absolutamente tola!   

Se o filme tivesse mais 30 minutos, correria o risco de tornar-se aborrecido. Sua exagerada duração é injustificável, a não ser pelo exibicionismo técnico e megalomaníaco de Peter Jackson. Ainda lamento Guillermo del Toro ter pulado fora da direção antes do início das filmagens. O Hobbit: A Desolação de Smaug é um belo filme, sem dúvidas, mas plenamente esquecível e longe de ser um dos mais significativos do ano. E isso é terrível, já que o ano não foi dos mais relevantes. A expectativa com relação ao próximo filme se mantém, ainda mais após o final em aberto que deixou o público atônito e curioso. Ele veio após o melhor momento da obra, a aparição do dragão Smaug. O ótimo ator inglês Benedict Cumberbatch empresta sua voz e movimentos para a concepção da fera. O resultado foi dos mais impressionantes. Que venha o próximo e que seja ainda melhor. E sem embolações, se possível.   


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Proseando sobre... O Tempo e o Vento



O Tempo e o Vento é a obra prima de Érico Veríssimo. Também é uma das mais célebres obras literárias brasileiras. Quando foi anunciada uma adaptação, não faltaram reprovações sobre a possibilidade de transformar tamanha história num filme. Uma série seria insuficiente para se ter ideia da dimensão. Os produtores não se importaram e assumiram a responsabilidade, concebendo um filme que tem lá seus 120 minutos. Pouco, muito pouco. Mas é deveras corajoso! Quem o assumiu foi Jayme Monjardim, o cara que filmou o enfadonho Olga (idem, 2004) e a linda telenovela A Casa das Sete Mulheres, escrita por Letícia Wierzchowski. Wierzchowski, aliás, refaz parceria e roteiriza essa adaptação. O resultado final foi um filme visualmente encantador com uma narrativa apressada, recheada de passagens da obra original, mas precipitadas, encaixadas em míseros minutos diante o que sua magnitude essencialmente clama.

Há tanta beleza nessas passagens fotografadas. Os pampas são exuberantes e a fotografia do competente Affonso Beato dá todo o aspecto do que foram aqueles tempos, com o sol mergulhando no solo, referenciando o tempo que o vento levou embora através de distintas gerações. Assistiremos muitas paisagens em sequenciais planos abertos. Delinear a história de “O Continente”, o primeiro livro da trilogia “O Tempo e o Vento”, é um desafio para qualquer realizador. Algo que talvez não devesse ser feito. No entanto o que o filme de Monjardim proporciona é uma imersão histórica através do atrativo visual, já que a narração se aproxima muito mais de um episódio televisivo do que de cinema. Vale principalmente pela curiosidade daqueles que desconheciam a obra e desejaram definitivamente conhecê-la. Que ao menos funcione como um estímulo para isso.

Temos acesso a história através da personagem Bibiana Terra (Fernanda Montenegro) que narra com ternura ao seu amor, um certo capitão Rodrigo (Thiago Lacerda) representado enquanto figura espiritual, a trajetória de sua família. Teremos acesso a várias gerações, todas envolvidas com a guerra, culminando no romance central de Rodrigo e Bibiana (na fase jovial é vivida por Marjorie Estiano). Tanto sangue fora derramado nos campos esverdeados e tantos romances condenados. Uma das personagens diz que a maldição das mulheres da família Terra é ter que esperar, ciente de que às vezes algumas esperas se eternizarão. Tudo isso aparece sem fundura. Podemos supor que tudo que Bibiana diz são lapsos desconjuntados do passado sem a profundidade merecida. O longa é envolvido por bons artifícios técnicos e artísticos a fim de emplacar a história no gosto popular: a trilha sonora está exaltada e os figurinos caprichados. Fade in/out dão impressão de episódios, planos sequenciais favorecem o teor cinematográfico e elipses exprimem a passagem do tempo, mas surgem expositivas em demasia. A narração é convencional a uma trama novelesca a qual Monjardim parece não conseguir abandonar.
  
Os atores se esforçam, buscam dar importância aos seus papéis. Percebemos que todos são fundamentais e com muito a oferecer, mas não demoram para seus personagens serem descartados, o que causa um inevitável desconforto naqueles que acompanham e se interessam especificamente por um ou outro. O tempo não consta no título arbitrariamente. Ele é fundamental para a história e deve se fazer presente na narrativa como um diferencial. No filme ele surge como poesia, já que falta todo o aprofundamento contextual e de personagens que o livro propõe. Evidentemente comparações entre a obra literária e a cinematográfica são injustas, mas nesse caso tratamos de algo que nasceu para se imortalizar na literatura. O filme passará perdurando somente na lembrança da beleza aquecida harmonizada por romances e guerras febris. Já o livro é um retrato documental de uma das várias histórias do Brasil com todas as graças reunidas para se perpetuar.        

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Proseando sobre... Jack Reacher - O Último Tiro



Um bom roteiro impede “Jack Reacher - O Último Tiro” de ser um mero filme de personagem estrela. A presença de Tom Cruise reforça a indagação, visto o histórico de obras que o têm a frente, por exemplo na franquia “Missão: Impossível”. Costumo questionar os caminhos diferentes que Cruise e Brad Pitt seguiram desde que despontaram como galãs do cinema, com o primeiro tornando-se astro de grandes filmes cujo conteúdo é discutível; enquanto o segundo tornou-se um grande realizador e produtor, além de ser um bom ator ligado a interessantes projetos. Certamente não é essa a questão proposta aqui, mas é relevante, dada a situação de Tom Cruise, aos 50 anos, não figurando como um mero galã, mas alguém que está percebendo o tempo passar dentro da história e na vida. Ótimo no papel, dedicado como sempre, esse é um de seus mais notáveis trabalhos de constituição de personagem. 

Baseado no livro “O tiro” de Lee Child, o filme carrega um mistério a respeito de um crime que leva diretamente a identidade de um único culpado, com todas as provas caindo sobre um ex fuzileiro, James Barr (Joseph Sikora), que fora internado imediatamente após ser gravemente agredido na prisão. Ele chama pelo nome Jack Reacher num bilhete. Por quê? Para quê? É o que as autoridades questionam, especialmente uma advogada, Helena Rodin (Rosamund Pike). Reacher (Cruise) subitamente aparece, homem cujo histórico indica um militar condecorado, tornou-se um andarilho sem destino, rodando o país sem ser pego ou descoberto. Alguns detalhes dizem muito sobre ele. O personagem é explorado pelas ações adotadas, e logo compreendemos suas convicções e filosofia desprendida, baseando a vida na justiça e verdade, embora algumas de suas escolhas aparentam ir contra tais princípios.  

Um homem paga um estacionamento e posiciona-se em frente a um parque portando uma arma. Ele observa cuidadosamente as ações de várias pessoas caminhando, mirando-as, como se procurasse um alvo. Passando de uma a uma, o atirador seleciona e puxa o gatilho, matando 5 e desperdiçando uma bala. 5 mortos sem razões, desconhecidos, sem ligações. Um crime brutal e aparentemente passional leva a uma busca pelo responsável, restringindo a uma pequena lista de prováveis assassinos, já que o atirador é, certamente, um profissional. Pistas são largadas aos montes. 

Christopher McQuarrie é o diretor que também roteiriza, trabalhando com grandes detalhes neste filme que conta com mais de 120 minutos de duração. O cineasta que venceu o Oscar por “Os Suspeitos” – aquela genial obra dos anos 90 cujo final permanece inabalável – cria um ambiente de inquérito motivado por suspeitas num terreno em que ninguém está livre. O próprio protagonista é posto a prova pelo espectador que se atém a pormenores. Essencialmente, o personagem central agrada – longe de compará-lo com o original concebido na obra literária, uma vez que não a li – por sua execução. É divertido acompanhá-lo, já que reúne o melhor de cada espião famoso do cinema e da literatura, apossando-se de uma expressão austera e uma seriedade inteligente, carregando uma única peça de roupa, o que demonstra desamarras sociais.    

Tom Cruise também produz a fita e se torna marco de um filme de vários interesses, oculto até seus últimos momentos, colocando a prova a veracidade do caso, já que os fatos se quebram pelo conhecimento restrito a experiência de um ser semelhante em profissão, caso do herói e o ferido Barr. Tem boa ação, não decepcionando fãs do gênero com cenas longas de embates e perseguição, ao passo que trabalha bem como um enérgico filme de espionagem, ultrapassando clichês que figurariam como um problema graças ao bom desenvolvimento dos personagens. E ainda tem o diretor Werner Herzog atuando com sua voz inconfundível vivendo o destemido Zac – os cinéfilos não irão demorar para celebrar tal aparição cult e melhorar qualquer conceito que vinha tendo relativo ao filme quando ouvi-lo proferir algumas palavras. Robert Duvall e Richard Jenkins fecham o elenco desse considerável longa policial.


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Diário Cinéfilo: O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights, 1992)

Dia: 06 de Janeiro

8- (Revisão) O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights, 1992)

Adaptações cinematográficas a partir de obras literárias costumam desagradar os mais saudosos fãs. É compreensível, no entanto precisa-se entender que são artes diferentes, lógicas diferentes. Se tem um clássico da literatura que ganhou várias versões no cinema foi “O Morro dos Ventos Uivantes” de Emily Brontë, um romance poderoso que trata do amor destrutivo de maneira densa e explosiva. Não espanta que tal obra seja encarada por vezes como um thriller, afinal, não deixa de ser quando observamos as atitudes de seus grandes personagens, sobretudo na adaptação realizada em 1992 por Peter Kosminsky que tive a oportunidade de rever. Nela temos um Heathcliff (Ralph Fiennes) tempestuoso e uma Cathy Linton (Juliette Binoche) funesta, amaldiçoados pela tempestade frente a um vislumbre do vindouro incerto. O amor que padeceu numa propriedade fria cujas conseqüências se arrastaram para outra geração será sempre lembrada pelos amantes do livro e também do filme. Bem fotografado e dirigido, essa talvez seja a adaptação mais enxuta e bem realizada da obra prima de Brontë. 

Direção: Peter Kosminsky
Elenco: Juliette Binoche, Ralph Fiennes, Janet McTeer, Sophie Ward e Jeremy Northam

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Proseando sobre... Até que a Sorte nos Separe



O sonho de todo brasileiro: ganhar na mega-sena e ter a vida resolvida. Pouquíssimos gozam dessa oportunidade. No filme, um casal de classe média-baixa fatura 100 milhões da noite para o dia, o que os faz largar seus empregos e ter uma vida de luxo exacerbada, torrando milhões com viagens, roupas, plásticas e comidas. Adquirindo tudo que o dinheiro pode comprar, a dupla que possui dois filhos e uma bela mansão com decorações coloridas refletindo a alegria em suas vidas, irá passar por sérios apuros após o patriarca Tino (Leandro Hassum) descobrir que suas dezenas de cartões de crédito não possuem mais fundo e que mais do que falido, está com altas dívidas. Esta reviravolta é o mote para uma série de situações das mais comicamente desprezíveis. “Até que a Sorte nos Separe” é uma comédia elaborada a partir da adaptação do livro “Casais Inteligentes Enriquecem Juntos”, de Gustavo Cerbasi. 

Comédias de situações são vistas, revistas, referenciadas e expurgadas anualmente dentro de nossa cultura cinematográfica. Esse é mais um dos representantes do riso fácil e trivial, conferidas nas telinhas em programas de humor cujo humor é ausente. Leandro Hassum é um de seus mais ilustres representantes. Carismático, ganha o público com suas facetas e caretas, mas a mesmice esgota em menos de meia hora e sua persona passa a aborrecer previsivelmente. Seu personagem que funcionaria melhor se fosse apresentado em apenas alguns momentos sustenta com dificuldade a narrativa. Ele está estereotipado em demasia e por vezes irritante, segurando uma história frívola pouquíssima convincente. É para divertir e não se levar a sério. Alguns podem defender o filme assim. Até daria certo se a idéia, ao final, não fosse espremer uma moral vazia sobre a vida. 

Roberto Santucci, diretor do sucesso “De pernas pro ar”, é quem está por trás das câmeras. Habituado a esse tipo de humor – o cara deve ter gostado de filmar comédias ou da grana veiculada a elas –, o diretor permite que seus atores façam graça como podem. Não ache estranho experimentar algumas sensações de já ter visto algumas coisas antes em ao menos 3 ou 4 momentos da projeção. Nesta história, o par romântico de Hassum é Danielle Winits, uma consumidora compulsiva que não vê problemas, segunda a mesma, de voltar a ser pobre. Tomada por botox e extravagâncias, a loura anuncia uma terceira gestação, levando o marido a ter que bolar condições para que ela não descubra a falência, o que resultaria em complicações para a gravidez, já que está é de risco. De outro lado, no vizinho, uma subtrama: um casal vive com problemas por conta do planejamento financeiro de Amauri (Kiko Mascarenhas), ele nega um segundo filho temendo inflacionar o orçamento. Desenvolve-se aí o contraste de relações e posturas entre vizinhos – é perceptível a casa do segundo, diferentemente do primeiro, com cores frias, informando visualmente o quão decadente e triste tem sido o convívio familiar. Há ainda uma terceira história composta por um homem que enriqueceu, mas não teve mulher e filhos, lamentando-se arrependido. 

A passagem de tempo do filme se desenvolve por cerca de 9 meses, ostentando o tempo e gravidez da mulher. Essa noção temporal é algo absurdamente ignorado pelo diretor que aparenta ter esmiuçado muito menos. 1 mês, talvez. A percepção é a barriga crescendo, e os eventos ao redor petrificados. Ainda conta-se com a participação de Ailton Graça imitando um gay. Tal encenação ainda funciona? Não! A originalidade também não é das maiores: se situações como uma partida de tênis entre um idoso centenário com Tino é um dos clímax do filme, então é para se preocupar com o quanto seus produtores subestimam a inteligência do público. Engraçadíssimo como um quadro do Zorra Total e inteligente como os Teletubbies, esse “Até que a Sorte nos Separe” é mais um exemplo do que há de pior no cinema brasileiro: a falta de coragem de fazer algo grande, que não tenha que se prostrar frente uma canalhice confundida com comédia.      


quarta-feira, 9 de maio de 2012

Proseando sobre... Um Homem de Sorte


Pra quem gosta de se alimentar com romances de folhetim, este é um banquete. A única novidade é constatar o galã teen Zac Efron no papel de um fuzileiro naval, algo difícil de conceber num primeiro instante. O resto nós já vimos. O famoso escritor de Best Sellers românticos, Nicholas Sparks, ganhou com este “Um Homem de Sorte” uma sexta adaptação para as telonas. Vai ganhar o coração dos seus leitores graças a fórmula usual que funciona ainda mais aqui por conta da direção de Scott Hicks, sempre paciente e dedicado aos detalhes. No mais, só de olhar o cartaz e ler a sinopse, podemos prever tudo o que virá. De fato!

Durante a guerra do Iraque, uma catástrofe, em meio a tantas outras, acontece na frente de Logan Thibault (Efron). Algum tempo depois, após voltar para a casa de parentes, percebe que a guerra não o deixou, sempre incomodado com barulhos altos, até mesmo os de games de ação. Numa manhã, ao ser acordado, assusta e se defende com violência. Daí constatamos que acompanharemos um jovem carregando os traumas da guerra num conflito familiar, porém tudo isso subitamente é ignorado para a estruturação de uma nova idéia. A guerra é um contexto, uma desculpa, quase uma encenação teatral colegial.

O interesse da trama é outro, introduzida lá no Iraque numa fotografia caída sem dono, levando apenas uma mensagem e estampando uma bela garota. Tal achado funciona como um amuleto da sorte, ao menos é o que Logan atribui, pois, imediatamente após guardar a imagem, sobreviveu a coisas que não acharia capaz de sobreviver. Igualmente a quem crê numa torrada com uma imagem divina, o fuzileiro credita a imagem toda sua fé prometendo, após ser dispensado, encontrar aquela mulher que tanto lhe rendeu sorte. O roteiro de Will Fetters trabalha sobre esse plano dando alguma personalidade aos personagens caricatos de Sparks. Mero esforço sem recompensas. 

Encarando o filme como uma concepção para um público bastante especifico, então nos deparamos com uma obra eficiente. Tudo que o espectador que aprecia filmes semelhantes procura está lá, com uns aperitivos extras, inclusive uma moralzinha recalcada. Chama a atenção algumas cenas românticas de caráter erótico surpreendente – aquela sob uma ducha é usual, porém arrebatadora diante as expectativas. É para maiores e para horrorizar os fãs de “Crepúsculo” que acharam a lua de mel de Edward e Bela ousada. 

Apesar de tudo, por melhor defesa que queiramos fazer para o filme, é frustrante perceber que tal trama ainda seja facilmente engolida. Ninguém espera que o trabalho seja uma referência genuína entre os romances atuais, no entanto, não faz mal se levar mais a sério e se condensar enquanto um drama expoente sem o melodrama grotesco. Tem até artifícios tradicionais inseridos: o antagonista irritante e uma criança oprimida. Ainda que tenha um bom diretor por trás, – é notável o esforço de Scott Hicks – este pouco pode fazer para história se converter em algo mais, digamos, crível. Afinal, não se trata elementarmente de uma fantasia absurda.  

Fugaz, mas sem grandes pretensões, esse é mais um longa passageiro, mais uma oportunidade para encher os bolsos do escritor e ganhar o coração de suas fãs. Não chega nem perto de algo como “Diário de uma Paixão” também escrito por Sparks e adaptado por Nick Cassavetes, mas embora ruim, está muito a cima de bombas como “Um amor pra recordar”, também baseado em livro. Já Zac Efron não interfere, empenha-se em manter uma expressão séria, com a barba por fazer, procurando se desvencilhar do status de galã teen que adquiriu desde seus tempos de “High School Musical”. Seu par romântico, vivido por Taylor Schilling pouco acrescenta. A cena às vezes é roubada por Blythe Danner, a avó do anjo da guarda de Logan. Dizer que o filme é um clichê é um clichê.

domingo, 25 de março de 2012

Proseando sobre... Jogos Vorazes



 “Jogos Vorazes” é uma ficção futurista, vista com um olhar de reprova por seu público quando este acompanha, abismado, a proposta dos jogos que unem humanos numa arena, caçando-se até restar apenas um sobrevivente. O clemente dito salvo pelos senhores. A América do Norte, agora nomeada Panem, tornou-se uma capital com 12 distritos. Um casal jovem é selecionado por cada um para se enfrentar num verdadeiro campo de batalha. Apenas um sairá vivo. O vencedor garante privilégios ao seu povo. A diversão sublinhada pelo projeto roteirizado por Suzanne Collins a partir de seu Best-Seller é uma obra pessimista com o futuro, com as pessoas, com o que poderão se tornar. Estamos nos tornando, sejamos sensatos. Vivemos num ambiente próximo, devoramos o que nos é imposto e constantemente somos manipulados por artifícios midiáticos alcançando uma lógica de consumo movimentada e devoradora. E que a sorte esteja sempre a seu favor, é o que sugere o lema dos jogos, frisando o azar fatal.

O palco está montado, a distopia inflamada é bem coordenada pelo diretor Gary Ross (“Seabiscuit”). Trata-se de uma nova adaptação literária com óbvias intenções de alcançar o público mais jovem. Isso explica a censura. Se alguns filmes direcionados a eles buscam o entretenimento sem profundidade e questionamentos, este “Jogos Vorazes” destoa do lugar comum e vai além do aparato visual, exigindo de uma compreensão crítica do que está posto em cena, discutindo liberdade, política, conceitos morais e éticos, refletindo sobre o ser humano, seu papel social e sua responsabilidade com o mundo. Tudo isso divide espaço com a criatividade de seus realizadores, que, com uma direção artística corajosa, concebe um porvir luxuoso e vazio.  

De cara, percebe-se a natureza daquele universo. As tomadas na floresta, a beleza bucólica e a sensação de liberdade – até aparecer uma primeira cerca – remetem a um ideal perdido, um retorno ao passado primitivo. A caça indicada por armadilhas e arco e flecha explana o contexto que vive Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence), moradora do Distrito 12, o mais ordinário, apresentando suas habilidades para conseguir mantimentos para a família, evitando sempre partilhar de auxílios do governo, o que lhe custaria uma chance a mais de ser um dos escolhidos para participar dos Jogos Vorazes. 

A narrativa é determinada por críticas sociais, centrando, de início, num ofertório mortal. Jovens são sorteados para defender seu distrito, como se ofertassem a alma a uma entidade divina, porém longe disso, divindades não cabem nesse universo. A vida tributada é unicamente em prol da diversão dos incautos. A forma com que estes assistem passivamente esse conflito bárbaro e hostil explicita a extinção do respeito pelo próximo, exaltando a vaidade individual egoica. Este futuro trabalhado em cena é magnânimo e já fora especulado antes em obras primas da literatura, como em 1984 de “George Orweel”. Podemos ver tipos de teletelas em vários locais, observando tudo o que acontece bem de perto.

A ideação de Gary Ross é plenamente crítica do ponto de vista urbano, com a confraria burguesa, representada de um modo futurista debochado com figurinos, penteados e maquiagens extravagantes, numa ótica sobre a alienação de um povo com cultura subvertida, alimentado por uma lógica de mercado amoral. As pessoas assistem e se divertem, e o que está em cena é um retrato do apogeu da violência, a arena do coliseu encaixotada em telas, marcada pela diferença social de 12 distritos se enfrentando em nome da sobrevivência e de um glamour absurdo. Traços desse futuro proposto pelo longa já são diagnosticados em nosso presente, com a sociedade do espetáculo notada na televisão, nas revistas, na internet; é a materialização humanitária como objeto a ser consumido, extirpado e descartado, substituído. Para despertar a atenção, vale abusar da violência.

Lawrence, ótima, representa a fragilidade e introspecção de sua personagem, crente quanto sua dificuldade em se socializar. A conversão de sua Katniss é intrínseca, frágil num início – sua estremecida segundos antes de ser lançada em combate é marcante – torna-se resistente, buscando se impor frente aos riscos ao redor. O romance é outro atributo significativo, longe dos imaginários compartilhados em super produções, ficam suas intenções em aberto ao lado do jovem Peeta Mellark (Josh Hutcherson). Essa é uma subtrama engenhosa do roteiro.  

Com um figurino cafona, o que o torna interessantíssimo e engraçadíssimo, a composição dos vindouros é cômico, ficando melhor quando representado por seus envolvidos personagens. O produtor Seneca Crane (Wes Bentley de “Beleza Americana) – vale ressaltar aqui a sociedade das aparências – com sua barba desenhada, é aberto a qualquer possibilidade de tornar seu show mais atrativo, valendo-se até de exorbitâncias. Elizabeth Banks como Effie Trinket  com sua moda indiscreta é um auxílio cômico, ao passo que Stanley Tucci compõe, talvez, o personagem mais mirabolante como o apresentador Caesar Flickerman. Ainda surgem, de uma maneira mais contida, no entanto com importância inestimável atores como Woody Harrelson vivendo o tutor Haymitch, Lenny Kravitz interpretando o gentil Cinna e Donald Sutherland, com notável excelência, encarnando o Presidente Snow. Alguns nomes, notadamente, reporta a um caráter romano, como Sêneca, Caesar. Afinal, o que são os participantes senão juvenis gladiadores?

Unindo atributos de grandes blockbusters sem abrir mão de uma boa história, “Jogos Vorazes” se revela uma próspera surpresa, acarretando um mundo arquitetado sem belezas, senão a gana pela sobrevivência e por justiça. Questões vencidas pelo ser humano através da história, conquistadas com sangue em guerras, novamente almejadas numa segregação social futura, cega pelo poder. Gary Ross convence com uma narrativa sóbria, cheia de detalhes, entretanto otimamente conduzida e relativamente bem explicada durante sua longa duração. O trabalho do montador viabiliza o progresso da história sem nos cansar, abrigando valores e referências durante as duas saudosas metades: a preparação e a ação. As duas se equivalem.