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sexta-feira, 21 de março de 2014

Proseando sobre... Sem Escalas

Liam Neeson virou sinônimo de filmes de ação. O cara leva jeito com os papéis. Nos últimos anos, sua filmografia contou com cerca de uma dezena de filmes do gênero que obtiveram relativo sucesso. Dessa vez ele encarna um agente federal responsável pela segurança de um vôo, um vôo que fora sequestrado. Tudo é obscuro. Falsas pistas surgem aos montes e o espectador se pega interessado, atento, tentando desvendar juntamente ao herói o que de fato está acontecendo ali. Várias são as hipóteses tratadas pelo roteiro, o que incita a curiosidade do espectador, tenso diante os acontecimentos que acontecem em pleno vôo, com pessoas morrendo a cada 20 minutos, sob ameaças das mensagens de um misterioso estranho.

Há uma bomba no avião! Se não bastassem os passageiros morrendo, ainda é preciso lidar com essa. Filmado quase que inteiramente num só espaço, o filme entrega a paranoia americana. Tem um herói, Bill Marks (Neeson), manchado por possíveis fracassos passados. Este até tem medo de voar, ou melhor, de decolar, conforme explica para uma passageira (Julianne Moore). Carrega um símbolo supersticioso. Seu anúncio inicia a saga sobre a compreensão de quem é seu protagonista, aparentemente desequilibrado e solitário. Algo sério lhe aconteceu. O roteiro se encarrega de possibilitar vários momentos em que o público junte peças e especule, se entretendo com o infortúnio alheio. Todos são suspeitos. Bill Marks desconfia de todos e todos desconfiam dele. E de um muçulmano. Sempre eles.

Poderíamos supor que Sem Escalas se trata de mais um elementar longa cujo mistério que lhe ronda irá se revelar tal como em ficções convencionais, doido para surpreender o espectador com uma surpresa tola plantada. Previsão equivocada. A direção do espanhol Jaume Collet-Serra favorece muito o filme, não cai em maneirismos costumeiros, engata o suspense e o mantém sem alívios, a não ser por uma cena ou outra, especialmente aquela em que o personagem de Neeson revela em público seu passado. Tal cena está deslocada da trama, marginalizada, como se o roteiro não tivesse encontrado outro recurso para promover seu protagonista, imperfeito, passível de erros. No mais, acerta no tom, na pegada que condensa drama e suspense policial. Collet-Serra e Neeson repetem uma parceria que havia começado em Desconhecido (Unknown, 2011).

De construções narrativas breves e impelidas a reviravoltas, Sem Escalas é uma produção eficiente e competente de um gênero gasto e difícil, especialmente quando este se concentra quase que inteiramente em um só local. As atuações burocráticas não comprometem, o ritmo e a frequência de eventos não dão muito tempo ao elenco de apoio de mostrar  serviço. Quem se garante é mesmo Neeson e sua carranca. Já Moore parece viver uma versão solitária feminina de Marks, sua presença inoportuna – como ela chega no avião, por exemplo – lhe dá mais importância do que merece, tornando-a considerável para o bem ou para o mal. A recente oscarizada Lupita Nyong’o juntamente a Michelle Dockery e Corey Stoll completam o elenco.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Proseando sobre... Chamada de Emergência



Poderia funcionar como um thriller, e talvez como um dramalhão a respeito das operadoras de centrais policiais que atendem diariamente ligações com queixas de emergência. Poderia ser tanta coisa, como qualquer filme que possua um bom argumento, mas cujo roteiro põe tudo a perder. “Chamada de Emergência” até bebe das duas fontes mencionadas, sendo mais feliz quanto ao thriller, já que possui um serial killer que mata suas vítimas impiedosamente. Seu intuito é – tentar – restituir uma ausência da infância.
  
Jordan (Halle Berry) é uma dessas operadoras. Certo dia atende uma ligação de uma garota implorando por ajuda, já que há um estranho em sua residência lhe ameaçando. A personagem de Berry dedica o tempo em benefício da garota, assumindo o controle da situação com profissionalismo e experiência. No entanto um erro foi fulminante e bastou para condenar a vítima. Uma adolescente morre tragicamente. Tem-se um trauma que afasta a profissional por um tempo de seu ofício. A tendência do filme é explanar esse afastamento e o trauma emocional vivenciado pela protagonista. O diretor até esboça um aprofundamento com planos que remetem a um drama de situação. Não demora pra este ser descartado. Meses se passam, motivo pra compreendermos que a situação não mudou e Jordan ainda sofre. Temos outra história? Quase isso. 

Querendo fugir da realidade enfrentada no passado, a operadora se manteve na mesma empresa e tornou-se instrutora, porém não demorou para que outra ligação caísse em seu colo. A situação é praticamente a mesma. Chance de reviver o pretérito e aceitá-lo. Aí entra uma das virtudes do filme: Halle Berry! A atriz garante algumas boas cenas com dicções desesperadas e expressões inseguras, procurando se dominar. De outro lado aparece Abigail Breslin, a garotinha de “Pequena Miss Sunshine”, que parece ter sido importada de algum filme de terror oitentista. Sua composição é despótica, tendendo a gritos e sussurros. Isso lhe dá gás para uma reviravolta no ato final que... mencionarei em breve. 

A história faz coro com obras análogas: “Por um fio” e “Celular”, por exemplo. As duas são mais satisfatórias. O argumento aqui é um pouco mais atrativo, simplesmente por se ater a uma condição real e rotineira de profissionais que passam os dias atendendo ligações emergenciais das mais variadas: desde ocorrências triviais como morcegos entrando dentro de quartos até seqüestros ou assassinatos. Vidas por uma linha, basicamente. Pena não ser melhor desenvolvido nesse âmbito sem dispensar o potencial thriller, escolhas o levaram a outros caminho e consequentemente outros resultados finais que não são dos mais lisonjeiros.

Algumas cenas predispostas a violência dão dimensão ao perigo que a menina seqüestrada, Casey (Breslin), está passando. As razões são inverossímeis, uma desculpa indigesta. Isso é o que menos parece preocupar seu diretor ao final. Aliás, o final é duro de se levar a sério. Brad Anderson, cara que filmou o estupendo “O operário”, tem um roteiro ruim em mãos, não há muito o que fazer. Este roteiro parece ter a intenção de danar tudo e querer impressionar! Acompanharemos um plano de vingança alterando todos os fundamentos. Na cena anterior aos créditos finais, me veio a mente um “Game Over” enquanto seguia confuso sobre o que tinha assistido. Talvez uma versão econômica de Jogos Mortais? Tanta pretensão aniquila bons projetos! E condena bons nomes, como o próprio diretor que ainda concebe algumas boas cenas – especialmente aquelas em que Casey está presa no porta malas de um carro em movimento. E a bandeira dos Estados Unidos surge para terminar de enterrar o filme. Quanto heroísmo patriótico!


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Proseando sobre... Jack Reacher - O Último Tiro



Um bom roteiro impede “Jack Reacher - O Último Tiro” de ser um mero filme de personagem estrela. A presença de Tom Cruise reforça a indagação, visto o histórico de obras que o têm a frente, por exemplo na franquia “Missão: Impossível”. Costumo questionar os caminhos diferentes que Cruise e Brad Pitt seguiram desde que despontaram como galãs do cinema, com o primeiro tornando-se astro de grandes filmes cujo conteúdo é discutível; enquanto o segundo tornou-se um grande realizador e produtor, além de ser um bom ator ligado a interessantes projetos. Certamente não é essa a questão proposta aqui, mas é relevante, dada a situação de Tom Cruise, aos 50 anos, não figurando como um mero galã, mas alguém que está percebendo o tempo passar dentro da história e na vida. Ótimo no papel, dedicado como sempre, esse é um de seus mais notáveis trabalhos de constituição de personagem. 

Baseado no livro “O tiro” de Lee Child, o filme carrega um mistério a respeito de um crime que leva diretamente a identidade de um único culpado, com todas as provas caindo sobre um ex fuzileiro, James Barr (Joseph Sikora), que fora internado imediatamente após ser gravemente agredido na prisão. Ele chama pelo nome Jack Reacher num bilhete. Por quê? Para quê? É o que as autoridades questionam, especialmente uma advogada, Helena Rodin (Rosamund Pike). Reacher (Cruise) subitamente aparece, homem cujo histórico indica um militar condecorado, tornou-se um andarilho sem destino, rodando o país sem ser pego ou descoberto. Alguns detalhes dizem muito sobre ele. O personagem é explorado pelas ações adotadas, e logo compreendemos suas convicções e filosofia desprendida, baseando a vida na justiça e verdade, embora algumas de suas escolhas aparentam ir contra tais princípios.  

Um homem paga um estacionamento e posiciona-se em frente a um parque portando uma arma. Ele observa cuidadosamente as ações de várias pessoas caminhando, mirando-as, como se procurasse um alvo. Passando de uma a uma, o atirador seleciona e puxa o gatilho, matando 5 e desperdiçando uma bala. 5 mortos sem razões, desconhecidos, sem ligações. Um crime brutal e aparentemente passional leva a uma busca pelo responsável, restringindo a uma pequena lista de prováveis assassinos, já que o atirador é, certamente, um profissional. Pistas são largadas aos montes. 

Christopher McQuarrie é o diretor que também roteiriza, trabalhando com grandes detalhes neste filme que conta com mais de 120 minutos de duração. O cineasta que venceu o Oscar por “Os Suspeitos” – aquela genial obra dos anos 90 cujo final permanece inabalável – cria um ambiente de inquérito motivado por suspeitas num terreno em que ninguém está livre. O próprio protagonista é posto a prova pelo espectador que se atém a pormenores. Essencialmente, o personagem central agrada – longe de compará-lo com o original concebido na obra literária, uma vez que não a li – por sua execução. É divertido acompanhá-lo, já que reúne o melhor de cada espião famoso do cinema e da literatura, apossando-se de uma expressão austera e uma seriedade inteligente, carregando uma única peça de roupa, o que demonstra desamarras sociais.    

Tom Cruise também produz a fita e se torna marco de um filme de vários interesses, oculto até seus últimos momentos, colocando a prova a veracidade do caso, já que os fatos se quebram pelo conhecimento restrito a experiência de um ser semelhante em profissão, caso do herói e o ferido Barr. Tem boa ação, não decepcionando fãs do gênero com cenas longas de embates e perseguição, ao passo que trabalha bem como um enérgico filme de espionagem, ultrapassando clichês que figurariam como um problema graças ao bom desenvolvimento dos personagens. E ainda tem o diretor Werner Herzog atuando com sua voz inconfundível vivendo o destemido Zac – os cinéfilos não irão demorar para celebrar tal aparição cult e melhorar qualquer conceito que vinha tendo relativo ao filme quando ouvi-lo proferir algumas palavras. Robert Duvall e Richard Jenkins fecham o elenco desse considerável longa policial.


domingo, 6 de janeiro de 2013

Diário Cinéfilo: Uma Jovem Tão Bela Como Eu (Une Belle Fille Comme Moi, 1972)

Dia: 05 de Janeiro


6- Uma Jovem Tão Bela Como Eu (Une Belle Fille Comme Moi, 1972)

Admito uma falha cinéfila: vi pouquíssima coisa de François Truffaut, o cara que filmou o exuberante “Os Incompreendidos”. Pretendo melhorar e escolhi o relativamente famoso “Uma Jovem Tão Bela Como Eu” para acrescentar minha lista de obras conferidas do cineasta. Nela acompanhamos relatos de Camille Bliss (Bernadette Lafont), mulher que fora acusada de ter cometido um assassinato. Na prisão, a jovem e bela conta sua história de maneira sedutora para Stanislas Previne (André Dussollier), um sociólogo que pretende desenvolver uma tese sobre mulheres criminosas. O discurso da garota fica sempre em aberto, com seu caráter questionado por todos em volta devido seu cinismo irrevogável enquanto o sociólogo concebe uma entrevista tendenciosa. Ele quer acreditar nela, não resistindo a render-se em bajulações, presenteando até mesmo com um banjo o qual o presenteado solicita sem saber tocar. A sexualidade se exalta e os homens tornam-se tolos frente à mulher. Assistimos com humor os desarranjos românticos dispostos por uma histérica protagonista. É filme de femme fatale, de ambições nefastas e ingenuidades debochadas a partir de uma narrativa cheia de caracterizações estereotipadas e uma direção sem grandes atributos.  
 
Direção: François Truffaut
Elenco: André Dussollier, Bernadette Lafont, Philippe Léotard, Charles Denner e Claude Brasseur

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Diário Cinéfilo: Killer Joe - Matador de Aluguel (Killer Joe, 2011)

Dia: 02 de Janeiro

3- Killer Joe - Matador de Aluguel
(Killer Joe, 2011)

O novo filme de William Friedkin é esplêndido em vários âmbitos. E comparo ao alucinado “Possuídos” lançado em 2006 o qual adoro. Este novo é tragicômico, violento, debochado e despudorado. Encare tudo como elogios. No todo, é um trabalho viril, deslocado do costumeiro universo hollywoodiano, tratando de pessoas absolutamente desprezíveis, surpreendentes, surpreendentemente sórdidas. Killer Joe (Matthew McConaughey, impressionando) é um detetive e assassino de aluguel do Texas. Ele fora contratado por Chris Smith (Emile Hirsch) que desejava a morte da mãe pensando que isso poderia lhe render uma interessante soma em dinheiro proveniente do seguro de vida. Ele tem o aval do pai, da madrasta e da irmã Dottie (Juno Temple). Obviamente, nem tudo acontece como planejado. A trama infla de acontecimentos desatinados, desde cobrança de dívidas e tráfico de drogas até pedofilia. O que conferimos é um amontoado de situações das mais pitorescas, com os personagens de caráter duvidosos num turbilhão de infortúnios sequenciais. E a cena da coxa de frango? Gina Gershon se imortalizou.  

Direção: William Friedkin
Elenco: Matthew McConaughey, Emile Hirsch, Juno Temple, Thomas Haden Church e Gina Gershon

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Proseando sobre... Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres


É inevitável lidar com a ansiedade quando uma obra literária que gostamos é cogitada para ganhar uma versão cinematográfica. Essa ansiedade, por sua vez, não significa que seja sempre uma expectativa boa. Acrescenta-se a essa ânsia uma mutação desta obra proposta por seus realizadores, uma ótica distinta de um cineasta corajoso. Há quem tema pela conclusão, há quem se decepcione, como quase sempre ocorre em adaptações de livros para a telona. “Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres” pode ser considerado um remake de um filme sueco, a primeira parte de uma saudosa trilogia. Mas é, mais do que qualquer outra coisa, uma adaptação livre do famoso romance de Stieg Larsson. E mencionando unicamente os filmes, tanto a versão européia quanto esta concebida por David Fincher, não devem ser crucialmente comparadas, são equivalentes no ponto de vista narrativo, porém diferem na concepção e principalmente no resultado. Ambos, no entanto, são belos filmes, mesmo que distorçam sem medo – sobretudo o segundo – a história contada pelo escritor.

Um jornalista, Mikael Blomkvist (espertamente vivido por Daniel Craig), está em julgamento. Anda com problemas por difamação de um poderoso empresário em sua revista Millennium. Sem muito dinheiro, recebe um inusitado convite: escrever a biografia de Henrik Vanger (Christopher Plummer), um poderoso magnata. Mas isso é fachada, Henrik aposta na habilidade e nos métodos de investigação de Mikael para que esse descubra sobre um desaparecimento de mais de 40 anos, um caso aparentemente insolucionável, mas que ainda persiste numa esperança vaga de descoberta. O espectador é convidado a mergulhar num mundo de desordem familiar, religião, mentiras e nazismo, de uma maneira vívida como há muito o gênero não trazia. Os mistérios que circundam vêm acompanhados de uma trilha sonora sufocante e atuações magnânimas, especialmente de sua inusitada e primorosa protagonista.   

Mais do que qualquer outra coisa, e isso é um marco diferencial na carreira de Fincher, é notável perceber a sutileza com que constrói seus personagens. Através de planos breves, temos acesso ao ser humano presente nas figuras elaboradas. Acessamos assim o apreensivo Mikael Blomkvist com uma fragilidade tocante, isso pode ser conferido no seu pavor quando temeroso. Do mesmo modo, porém de uma maneira mais sutil, percebemos Lisbeth Salander (atuada por uma Rooney Mara mais do que fascinante) como uma pequena jovem imponente, dona de si, arredia ao exterior. Inteligente e jamais submissa, nunca se curva aos superiores, ganha uma ou duas cenas em que baixa a guarda, quando, por exemplo, demonstra todo seu afeto pelo tutor; outro momento, talvez o mais significativo, aquele em que come um lanche dirigido, normalmente, ao público infantil, o que sugere um retorno ao passado, evidentemente perdido.

Da mesma forma, Fincher concebe o universo onde se passa a história, uma espécie de ilha particular de uma poderosa família sueca. O vento às vezes surge como trilha daquele angustiado contexto, cujas pessoas distantes se ignoram, como se fossem meros desconhecidos. O clima também evoca um mistério, este abastece o filme e contribui para seu desenvolvimento dinâmico e esclarecido, apesar do excesso de informações. Nesse ponto, nos tornamos cúmplices da investigação da dupla Blomkvist/ Salander, com a agilidade da segunda contrapondo o raciocino fragmentado do primeiro. Ali estão inseridos os familiares em declínio, encabeçados por um desgastado líder, Henrik Vanger e um sobrinho, o gentil Martin Vanger (Stellan Skarsgård).

Permeado por uma atmosfera sombria, este mais novo trabalho de David Fincher tem um ritmo ágil, fazendo seus mais de 150 minutos passarem rapidamente. O trabalho de montagem influi no didatismo do longa, sempre seguro e pouco temente as suas investidas que contrariam a obra original. É o filme para consagrar Rooney Mara, despida de pudor e com uma habilidade contagiante na construção de sua Lisbeth, tornando-a incômoda, potente e absolutamente frágil, isso sem mencionar em sua composição oriunda de uma punk exibindo a tatuagem de dragão nas costas, essa que faz referencia ao título verdadeiro. É um trabalho impecável por parte da atriz e outro triunfo notável na filmografia de seu realizador. Fincher volta às origens sombrias tal como foram os velhos e brilhantes trabalhos “Seven” e “Zodíaco”.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Proseando sobre... A Hora do Espanto (2011)



A leva de filmes trazendo os sanguessugas noturnos não tem data para encerrar. Felizmente, para seus apreciadores, esse assunto cultiva bons elementos mesmo em tempos em que a saga “Crepúsculo” marcou uma nova idéia do ser vampiro. A moda tradicional segue soberana, um brinde de sangue a isso. E quando inovações entram num limbo, refilmagens acabam assumindo e a bola da vez é este “A Hora do Espanto”, baseado no clássico oitentista, mantendo os personagens originais e dando a eles uma nova ótica e um banho de modernidade. O vampiro presente segue carniceiro, é perigoso e letal como o tubarão de “Tubarão”, exemplo dado por um dos personagens, ao mesmo tempo em que debocha da versão de Stephenie Meyer.

Dirigido por Craig Gillespie, o cara por trás do ótimo “A Garota Ideal”, este filme não vislumbra um tema sério cujo humor de escape sugerido balanceie uma temática discutível. Aqui não há pretensões, há recreio e horror através de um vampiro exterminador. A história não é das mais atrativas, mas diante ao que deseja oferecer, funciona. O jovem estudante Charley Brewster (Anton Yelchin) mora com a mãe, Jane (Toni Collette), com quem tem uma relação bastante amistosa. Passa os dias com Amy (Imogen Poots de “Extermínio 2”), sua namorada, uma das garotas mais desejadas do colégio. Leva uma vida boa, invejável, mas carrega segredos, um passado nerd guardado a sete chaves – assunto que renderá uma subtrama. Seus problemas começam quando conhece seu estranho vizinho, Jerry (Colin Farrell), um vampiro sedento e decide voluntariamente combate-lo em defesa das mulheres de sua vida.

O vampiro Jerry, cujo nome parece tão ameaçador como Bill de “Tue Blood”, ganha uma piada inspirada. Mas fica só essa sugestão, a maldade impera sem sátira, mas com sangue e bom humor. O filme é inteiramente movimentado, com o roteiro de Marti Noxon (“Eu sou o Número Quatro”) debruçando-se completamente sobre as perspectivas do primeiro, com o mesmo charme e descompromisso dos filmes do gênero do anos 80. É quase nostálgica a experiência de conferir esta obra que encara reais possibilidades de não ser levada a sério. Mas será que é pra levar? Não importa a postura frente a ela, a diversão nos é devidamente proporcionada.

Com produção notoriamente inspirada nos pioneiros do gênero, “A Hora do Espanto” é um aglomerado de situações comuns numa versão dinâmica, apoiada na moda vampiresca para resgatar um de seus clássicos com direito a cruzes, alho, queimaduras solares e estacas. As atuações não fogem a regra do convencional, se destaca Colin Farrell (que já vinha de um ótimo desempenho em “Quero matar meu Chefe”) e David Tennant que encarna um mágico canastrão interessado em mitos fantásticos. As ambientações também triunfam, se sobressai a direção artística expondo a casa de Charley e seu quarto juvenil contrapondo a enigmática e escurecida casa do vizinho. Com esse resgate, resta esperar, com pessimismo, se “Fome de Viver” ou “Drácula” correm o risco de ganharem também uma nova versão.


segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Proseando sobre... Quero Matar meu Chefe


3 amigos e verdadeiras enrascadas. Não estamos falando de “Se Beber, Não Case”. “Quero matar meu Chefe” bebe da fonte de comédias com adultos em situações pra lá de curiosas. Mas não se trata de adultos idiotas ou com comportamentos infantis como a dos caras perdidos em Las Vegas, mas de um trio propenso a confusões por escolhas equivocadas. Este equívoco provém de um assunto extremo, o assassinato. A inexperiência sobre o assunto ganha ênfase pela dedução e por um conselho caríssimo cobrado por um personagem. Esgotados pelas obrigações postas pelos seus respectivos chefes, os três relembram Alfred Hitchcock e seu ótimo “Pacto Sinistro” para conceber a idéia de um matar o chefe do outro. Tem início a conspiração.

Para compreensão desse extremismo, somos apresentados dinamicamente aos chefes e empregados. Nick Hendricks (Jason Bateman) almeja uma promoção há anos, faz hora extra sem pestanejar e acredita piamente que subirá de cargo, até quando leva uma punhalada de seu chefe inescrupuloso e predisposto ao workaholic, Dave Harken (Kevin Spacey), e se percebe completamente escravizado e sem futuro na empresa; de outro lado, Kurt Buckman (Jason Sudeikis) aguardava para assumir o posto do gentil chefe Jack Pellit (Donald Sutherland, numa ponta), no entanto, após a morte desse, o filho Bobby Pellit (Colin Farrell, fantástico) assume a empresa e parece determinado em destruí-la; por último, muito embora pareça uma situação aprazível, se revela doentia com Dale Arbus (Charlie Day) sofrendo insinuações sexuais e ameaças da dentista ninfomaníaca Julia Harris (Jennifer Aniston). Tementes quanto ao futuro, decidem pelo assassinato.

Dirigido por Seth Gordon de “Surpresas do Amor”, este filme concentra-se no passo a passo do trio em busca de algo que provocasse mortes acidentais em seus chefes. A euforia incontida se manifesta na experiência da novidade, proposta bem desenvolvida pelo roteiro salientando o quanto os caras não tem a mínima idéia do que estão fazendo, se apoiando, em teoria, sobre o que viram em algum seriado investigativo ou num filme. O percurso é abarrotado de gags visuais e piadas machistas, baseando-se na história dos 3 enquanto amigos de longa data – os diálogos denunciam a intimidade. Fora desse contexto, o duelo com os patrões também motivam boas risadas e até suspiros, principalmente quando Aniston com sua silhueta provoca com fetiches e induções pervertidas. Spacey, controlador e compulsivo, irrita no melhor sentido. Já Farrell rouba a cena com um penteado incompreensível capaz de fazer alguém desprevenido gargalhar quando perceber quem é o ator.

Divertido e de narrativa bem explicada, o exagero joga a favor nas situações inusitadas contextualizadas, indo de envolvimento com drogas, perseguições – com uma piada no estilo “Johnny English” – e passeios em bairros perigosos até assassinatos. Jamie Foxx dá as caras, tatuado e de aparência ameaçadora, se revelando um péssimo negociador, o que leva o público a contestar sua origem e compreender, hilariamente, num ato, qual o crime que lhe manteve preso. Bateman é o protagonista, responde em algumas cenas principais, mesmo caindo fora de algumas situações pelo medo – vou esperar no carro. O ator funciona melhor quando está ao lado de Sudeikis e Day, uma vez desaparecer diante a imponência característica de Kevin Spacey. No meio de tantas comédias, essa relação cômica delineada por Seth Gordon sobre os papéis de chefe e empregado na sociedade é um feliz golpe numa composição cinematográfica onde, tratando-se de um gênero difícil como a comédia, termina como uma feliz experiência de entretenimento – ao menos acima da média atual.