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segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Proseando sobre... O Lobo atrás da Porta



A estreia do curta-metragista Fernando Coimbra em longas é marcada pela sutileza na condução da trama e na habilidade em sair do drama policial para o suspense de ocasião, ascendendo a medida que fatos são revelados. É notório seu comprometimento em extirpar o romantismo capenga e converter o rumo delgado de produções semelhantes, assumindo uma direção contrária as pretensões brandas. Aqui o desenrolar é outro, choca pela pureza e crueza, não tão distante do que já estamos habituados a ver diariamente em programas sensacionalistas ou jornais, mas distinto graças à inventividade e coragem de não ser politicamente correto e querer agradar todo mundo com a fantasia da segurança.

A história gira em torno de um provável sequestro. A filha do casal (Milhem Cortaz e Fabíula Nascimento) desaparece, abrindo margens para uma rede de indagações a respeito do responsável pelo sumiço. A coordenadora da creche onde a menina foi vista pela última vez diz que a pequena fora embora junto a uma mulher. Pareciam amigáveis. Segundo as descrições, as suspeitas caem sobre Rosa (Leandra Leal), jovem que tem um estreito e estanho envolvimento com o casal. Acompanhamos o desenvolvimento da história através de flashbacks expositivos que possuem eficiente função narrativa, não só para explicar a ocorrência, mas para exprimir o suspense, pondo em dúvida a realidade e consequente salubridade dos discursos.   

Sem querer fazer um estudo de personagem, o roteiro não se atém a alguém especificamente, o que não quer dizer que nossa curiosidade não seja incitada em compreender as verdades por trás de cada ato específico, bem como de quem os realiza. Acompanhamos a investigação e temos total acesso aos depoimentos, e como esses são tirados dos suspeitos, geralmente originados pelo tom irônico do delegado vivido por Juliano Cazarré. Esse é o momento de descontração, o alívio que permite algumas risadas diante o clima hostil envolvente. A personagem de Leandra Leal é a mais complexa, surpreendendo a todo instante com uma doçura branda e segurança perspicaz. Acompanhar suas obscuras decisões é a melhor oferta da obra, já que esta se desenvolve através de pontos de vista. O de Rosa fica reservado para o derradeiro e impressionante desenlace.

Fernando Coimbra traz na bagagem a experiência que os curtas lhe ofereceram através dos anos e detalha um suspense competente com uma técnica que o tempo lhe deu, aperfeiçoada nas produções particulares onde fazia o que queria. Planos sequências se delongam em distintos momentos corroborando com o desempenho dos atores que agem naturalmente. Coimbra tem controle sobre o elenco e sobre o que deseja apresentar ao público, agindo sem receios quanto às prováveis críticas que receberia por ser inclemente. Os diálogos são bons e fortalecem nossa dúvida. O diretor é mais um bom nome que surge em nosso cinema. 

São vários os assuntos tratados no decorrer do filme, entre eles casos extraconjugais e investigação policial, e nenhuma subtrama tem mais atenção do que deve ter. A narrativa segue um curso de esclarecimentos enquanto efervesce com cenas picantes de paixões repentinas, sempre com a interrogação do futuro e dos que os envolve, bem como suas motivações. Temos a real impressão do quão lúgubre são as relações dispostas em cena, isso é condizente a fotografia escurecida deixando a noção de omissões, e aos vários momentos em que grades sobrepõem os personagens, mantendo-os simbolicamente presos, quase que intimamente inacessíveis.  Sonhos se fundamentam na expectativa, a do outro nos é incerta. E nem todas as verdades são fáceis de encarar. E nem todas as atitudes são simples de compreender.

Filme visto no Paulínia Film Festival 2013





quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Proseando sobre... Os Escolhidos



Se o horror provindo do cinema hollywoodiano vem desapontando muito no cinema, salvo por uma produção ou outra esquecida em semanas, então pode-se dizer que esse “Os Escolhidos” é um sopro de fé sobre o gênero. Encontrando limitações narrativas e afetado por uma fotografia tradicional que não garante um clima obscuro diferenciado uma vez que soa como extensão de longas semelhantes, o filme se encaminha graças a condução de seu diretor que o leva a um patamar superior do suspense de expectativa, abrigado por boas atuações, clímax corajoso e pela montagem que oferece bons momentos de arrepio, ainda que curtos e certamente triviais.

Scott Stewart é quem escreveu o roteiro e quem dirige a fita. É dele o grotesco Padre (Priest, 2011), o que me fez automaticamente esperar desesperançoso seu novo projeto. E se expectativas em demasia costumam frustrar, o contrário também acontece. Filmes do estilo requer a crença de seu público para ter algum valor de gênero, o terror em forma e ação. Dependemos da fé cênica dos atores. Podemos nos permitir fazer parte do universo projetado, compartilhar da ficção e entrar na onda do absurdo, seja com demônios, espíritos, demais figuras folclóricas e extraterrestres. Esse último é o que se apresenta.

A história não traz lá nenhuma grande novidade. Uma tradicional família de um subúrbio vem notando coisas verdadeiramente estranhas acontecer em casa, especialmente com o filho mais novo que anda relatando ter contato com figuras inexistentes. Especula-se Sandman – o João Pestana, para os brasileiros – e seu mito, mas tudo vai além. O cume se dá quando bandos distintos de pássaros se choca contra a casa onde moram. Um especialista em ufologia aparece – o ótimo veterano J.K. Simmons numa interpretação bizarra – alertando o quanto esses eventos são comuns com algumas famílias e que o final nunca acaba bem. Registros de desaparecimentos em vários cantos do globo são colecionados pelo excêntrico velho. A família busca reverter o aviso.

Keri Russell e Josh Hamilton se mostram empenhados a não se aterem a vícios de interpretação, cumprem bem o papel de viver os pais preocupados com os dois filhos expostos a magia tenebrosa local. O enlouquecimento retratado é coletivo, acompanhamos a progressão e o quanto isso afeta os nervos conjuntos numa família que convive com dificuldades e incertezas sobre o futuro, algo trabalhado como forma de empatia, aproximando o espectador dos personagens. A lógica da produção se equivale a horrores semelhantes tais como Sobrenatural (Insidious, 2010) e Possessão (Possession, The, 2012) por hipóteses explicativas implicadas na descrença, o que permite embates tanto dentro do filme quanto fora dele. 

Comparado a outras obras, essa não visa o susto a qualquer custo, fazendo uso exacerbado de trilha sonora potente ou manjados recursos que implicam em previsíveis sobressaltos. O roteiro também não é um dos mais inovadores dentro da proposta, encontrando saídas óbvias para o que cria. A montagem por sua vez favorece as pretensões narrativas, explicitando tudo com competência didática. É uma boa história que abre margens interpretativas, conciliando real e imaginário com a sanidade dos envolvidos posta a prova. Algumas questões propostas pelo roteiro ficam a deriva – o desemprego/emprego do personagem de Hamilton veio para quê mesmo? – e a escuridão com suas abstratas possibilidades presenciais parecem ser mesmo o melhor mecanismo de tensão. E como irrita quando os realizadores demonstram não acreditar na inteligência de seu público e enfiam flashbacks buscando explicar o que por si só fora inteligível ao longo da narração. São escolhas óbvias e importunas que compromete o resultado da obra que se arrasta pra conseguir ser levada a sério.   



quinta-feira, 18 de abril de 2013

Proseando sobre... Chamada de Emergência



Poderia funcionar como um thriller, e talvez como um dramalhão a respeito das operadoras de centrais policiais que atendem diariamente ligações com queixas de emergência. Poderia ser tanta coisa, como qualquer filme que possua um bom argumento, mas cujo roteiro põe tudo a perder. “Chamada de Emergência” até bebe das duas fontes mencionadas, sendo mais feliz quanto ao thriller, já que possui um serial killer que mata suas vítimas impiedosamente. Seu intuito é – tentar – restituir uma ausência da infância.
  
Jordan (Halle Berry) é uma dessas operadoras. Certo dia atende uma ligação de uma garota implorando por ajuda, já que há um estranho em sua residência lhe ameaçando. A personagem de Berry dedica o tempo em benefício da garota, assumindo o controle da situação com profissionalismo e experiência. No entanto um erro foi fulminante e bastou para condenar a vítima. Uma adolescente morre tragicamente. Tem-se um trauma que afasta a profissional por um tempo de seu ofício. A tendência do filme é explanar esse afastamento e o trauma emocional vivenciado pela protagonista. O diretor até esboça um aprofundamento com planos que remetem a um drama de situação. Não demora pra este ser descartado. Meses se passam, motivo pra compreendermos que a situação não mudou e Jordan ainda sofre. Temos outra história? Quase isso. 

Querendo fugir da realidade enfrentada no passado, a operadora se manteve na mesma empresa e tornou-se instrutora, porém não demorou para que outra ligação caísse em seu colo. A situação é praticamente a mesma. Chance de reviver o pretérito e aceitá-lo. Aí entra uma das virtudes do filme: Halle Berry! A atriz garante algumas boas cenas com dicções desesperadas e expressões inseguras, procurando se dominar. De outro lado aparece Abigail Breslin, a garotinha de “Pequena Miss Sunshine”, que parece ter sido importada de algum filme de terror oitentista. Sua composição é despótica, tendendo a gritos e sussurros. Isso lhe dá gás para uma reviravolta no ato final que... mencionarei em breve. 

A história faz coro com obras análogas: “Por um fio” e “Celular”, por exemplo. As duas são mais satisfatórias. O argumento aqui é um pouco mais atrativo, simplesmente por se ater a uma condição real e rotineira de profissionais que passam os dias atendendo ligações emergenciais das mais variadas: desde ocorrências triviais como morcegos entrando dentro de quartos até seqüestros ou assassinatos. Vidas por uma linha, basicamente. Pena não ser melhor desenvolvido nesse âmbito sem dispensar o potencial thriller, escolhas o levaram a outros caminho e consequentemente outros resultados finais que não são dos mais lisonjeiros.

Algumas cenas predispostas a violência dão dimensão ao perigo que a menina seqüestrada, Casey (Breslin), está passando. As razões são inverossímeis, uma desculpa indigesta. Isso é o que menos parece preocupar seu diretor ao final. Aliás, o final é duro de se levar a sério. Brad Anderson, cara que filmou o estupendo “O operário”, tem um roteiro ruim em mãos, não há muito o que fazer. Este roteiro parece ter a intenção de danar tudo e querer impressionar! Acompanharemos um plano de vingança alterando todos os fundamentos. Na cena anterior aos créditos finais, me veio a mente um “Game Over” enquanto seguia confuso sobre o que tinha assistido. Talvez uma versão econômica de Jogos Mortais? Tanta pretensão aniquila bons projetos! E condena bons nomes, como o próprio diretor que ainda concebe algumas boas cenas – especialmente aquelas em que Casey está presa no porta malas de um carro em movimento. E a bandeira dos Estados Unidos surge para terminar de enterrar o filme. Quanto heroísmo patriótico!


domingo, 26 de fevereiro de 2012

Proseando sobre... A Mulher de Preto


“A Mulher de Preto” é a nova aposta da produtora Hammer Films – dona de clássicos do horror –, um típico suspense que sustenta um terror britânico gótico, mas que muito se parece com outros que anualmente estocam as prateleiras nas locadoras com sustos fáceis, climão de casa mal assombrada e personagens amaldiçoados. Esse longa ingressou no cinema, não pelo seu conteúdo pragmático, tão vago e óbvio, mas pela presença de Daniel Radcliffe, a estrela de “Harry Potter” que agora, barbado, se aventura em outras histórias, sem dispensar temáticas sobrenaturais. É inegável o apelo popular que esse projeto de suspense embalado terá, os fãs do bruxo irão ver o ídolo e perceber que aquele personagem se desfez. Um outro rumo para o ator que provavelmente terá um caminho próspero na telona, já protagonizou filmes menores com certa eficiência, contudo permanece estigmatizado como o famoso bruxo.

Servindo como um catalisador de idéias ultrapassadas, o longa de James Watkins prioriza artifícios recorrentes em filmes de espíritos, desde a fotografia turva, névoa e um mistério com crianças mortas entrelaçado a sustos em demasia. Esses sustos, tão previsíveis, seguem uma fórmula básica: a interrupção da trilha sonora pesada e uma pausa para um provável sobressalto. Pronto, feito. Dito isso, seguem outras doses do mesmo, enlouquecidas tentativas de apavorar e um bocejo daqueles já acostumados ao gênero. É para comer a pipoca e tentar se divertir com a proposta da obra. Triste perceber que o filme é prejudicado justamente pelo que almejou promover.

Sem gerar surpresas, a produção aposta no talento de seu protagonista que carrega quase o filme inteiro, sempre com uma expressão rija, as razões são denunciadas numa cena inicial quando seu filho de 4 anos lhe mostra um desenho familiar. Acessamos um passado obscuro do personagem de Radcliffe, o advogado Arthur Kipps.  Sua feição, entre a esposa e a babá, é a única infeliz. Logo ele se esquiva e segue até o trabalho. A progressão dessa apresentação é rápida e sutil. Ele é incumbido, sob ameaças do chefe, a viajar e resolver problemas relacionados a uma mulher morta que deixara uma mansão após seqüenciais infortúnios. Daniel Radcliffe abandona Harry Potter e arrisca um horizonte não tão distante da fantasia que lhe consagrou, todavia apresenta indícios de um ator esforçado, tal como demonstrado em recentes trabalhos ingleses, como exemplo “Meu Filho Jack” e “Um Verão Para Toda Vida”.

Com tomadas que lembram à correria nos corredores do espanhol “O Orfanato”, esse “A Mulher de Preto” idealiza um mal presente, visto que sombras negras aos poucos apresenta a personagem que intitula o filme. Tudo acontece num casarão do século XVII. De lá provém uma maldição numa pequena província inglesa, distante de Londres. Um local aterrorizado pela morte trágica de várias crianças, explicada por alguns como obra de um espírito vingativo, e ignorado pelos arredios descrentes quanto a intervenções sobrenaturais. O clima estabelece conexão a obras análogas, sobretudo as realizações de Guillermo Del Toro tanto como diretor quanto produtor, próximo da já mencionada obra espanhol e também do ótimo “A espinha do Diabo”.

A ambientação é o relevo da trama, com uma estética apavorante que, conduzida de modo pouco inventivo por Watkins, termina desperdiçada. E pode-se perceber esse desvio da noção dramática realizada pela constância atemorizante, exagerando informalmente por razão nenhuma senão apenas apavorar. É como se o plot não fosse suficiente. Pecar pelo exagero é o preço que produções semelhantes pagam. Essa é outra vítima. O cenário interiorano inglês remete a uma sociedade marginalizada, comparada à aristocracia da época nas cidades grandes. Há um único carro no local, isso demonstra o mínimo avanço industrial que chegou até aquele território movido por crenças espirituais. E são essas crenças que motivam discussão na história, a partir de personagens absolutamente crentes quanto a uma força espiritual que sacrifica herdeiros entre outros que creditam os desastres ocorridos ao mero acaso.


sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Proseando sobre... A Caixa



Richard Kelly, o diretor e roteirista do cult aclamado “Donnie Darko”, retorna aos cinemas com uma premissa sedutora: um homem desconhecido aparece na porta de uma casa e oferece aos moradores uma caixa com um botão. Quem apertar, na hora irá faturar uma maleta contendo 1 milhão de dólares. Por outro lado, alguma pessoa no mundo, desconhecida, terá de morrer. A lógica dessa idéia embutida no suspense “A Caixa”, disponível em DVD, se apóia na idéia do filósofo francês Jean-Paul Sartre de que o inferno são os outros. A sentença é dita e compreendida dentro da história no filme através da situação de que, para um bem particular, alguém tem de pagar. O outro como interferente é quem poderá impedir o objetivo pessoal de um determinado sujeito, infringindo sobre seu propósito individual.

Na narrativa de “A Caixa”, baseada num conto de Richard Matheson, a professora Norma Lewis (Cameron Diaz) é quem receberá a visita desse homem trajando um elegante terno, um chapéu e carregando uma imensa cicatriz no rosto. Esse é o misterioso Arlington Steward vivido pelo sempre ótimo Frank Langella, que lhe explica as condições de apertar o botão dando a mulher o prazo de 24 horas para tomar alguma decisão. Fascinada porém desconfiada, ela leva a oferta até seu marido, o engenheiro Arthur Lewis (James Marsden), e juntos questionam quando poderiam encontrar outra oportunidade de ganhar tanto dinheiro resolvendo de vez seus problemas.

 Com esquemáticos planos que fortalecem a tensão juntamente a uma trilha sonora pesada, “A Caixa” funciona bem como um suspense psicológico enérgico, apesar dos maneirismos do roteiro. Claustrofóbico, os personagens estão sempre dentro de lugares ou situações que exijam alguma escolha, como se estivessem enclausurados, metáfora esgaçada quando um personagem sugere que todos estão presos em caixas, sendo em casas, carros, quartos, leis... a história que também avança por um imaginário científico não economiza em cenas que transportam o espectador a um ambiente metafísico. No meio dessa proposta, o casal ainda tem que se preocupar com o filho e, como Arthur acabara de passar por uma grande decepção com um projeto na NASA, tudo parece conspirar para que aceitem a proposta apesar das preteridas consequências.

Diaz é a estrela do filme e se entrega a um papel de fácil identificação sustentando amargura por uma deficiência física que lhe incomoda há anos. Essa, aliás, é um designo projetivo de Norma a Arlington. Funcionando bem dentro da proposta de produzir tensão, esse suspense é mais uma atração nas prateleiras dentro da pretensão de tornar sua história algo bem mais inteligível. Sem a força de “Donnie Darko”, Kelly não cria uma nova grande obra cinematográfica e deverá continuar a ser lembrado por seu antigo projeto.


segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Proseando sobre... Porta Vizinha



 Não é um duelo de sedução, é um complemento perverso de duas mulheres que tentam e inibem. Estamos diante um filme cujo sexo converte-se em violência, transforma-se em sadismo selvagem com crueza. Mas isso é um marco de uma só cena, o bastante para tornar “Porta Vizinha”, filme norueguês exibido na 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, numa experiência sórdida e obscena. Para isso, o diretor Pål Sletaune, escala em seu terceiro longa metragem 3 atores centrais: Kristoffer Joner vivendo John, homem que está passando pelo fim de um namoro; Cecilie A. Mosli encarnando Anne, perturbadora; e por fim, Julia Schacht na pele de Kim, de traço inocente flertando. Os 3 irão viver uma relação sexual dentro de um apartamento de maneira despudorada e inquietante.  

O filme abre com John e Ingrid (Anna Bache-Wiig) discutindo sua relação quando a garota vai até o apartamento do rapaz buscar suas coisas. É o indício da crise que iremos acompanhar através de John, descontente, impulsivo em sua propriedade psicótica. Mas esse é um outro assunto. No elevador, conhece Anne, mulher atraente que o convida a ir até seu apartamento ajudar com alguns móveis pesados. Sua vizinha, até então desconhecida, lhe apresenta sua companheira de quarto, Kim, e as duas começam a discursar sobre o fim do namoro do rapaz, colocando-o contra a parede com detalhes particulares os quais as minúncias faz John supor que as garotas o ouvem através das paredes e, em fuga, inicia uma investigação angustiada atrás de possibilidades, no entanto, alguma coisa parece muito estranha – o clima no filme e a ótima fotografia reforça a sensação – e John retorna ao apartamento das vizinhas.

Pål Sletaune tem uma direção correta nesse filme claustro e labiríntico – notem que os personagens estão sempre entre quatro paredes e por vezes adentram portas que dão para corredores enormes e cheios de caminhos. A pouca luz obscurece e cria sombras que dão impressão de se tratar de um filme de fantasmas, ou de alucinações. As personagens mulheres são dúbias: Anne se revela bem trajada e arrumada enquanto Kim surge com os cabelos despenteados e com aparência enferma.  Não há clareza sobre os argumentos. A narrativa incide num clímax arrastado, e transmite com seriedade um mistério cada vez mais turvo provocando deduções sobre o que na verdade está acontecendo. Sua curta duração – apenas 76 minutos – revela-se um ponto fraco ao não desenvolver melhor sua trama, radicada ainda em seu instante inicial ganhando novas formas e outros significados.