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sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Proseando sobre... E a vida continua



Baseado num livro de 1968 psicografado por Chico Xavier através dos relatos do espírito André Luiz , o filme “E a vida continua...” ganhou as telas cinematográficas com a direção de Paulo Figueiredo. Esse é mais um representante do cinema espírita, subgênero que vem ganhando força no cinema nacional, com constantes sucessos de público e fracassos de críticas. A idéia, pelo que estes filmes apresentaram até então, é comercializar a doutrina do espiritismo. A proposta é evidente, poderia ser disfarçada nas entrelinhas da produção como todos outros projetos tendenciosos fazem, caso estivessem envolvidos diretores e roteiristas competentes e atrelados a arte cinematográfica em suma, e não a um comercial de mais de 90 minutos.

Trazendo discursos morais através da hipótese de um mundo onde residem os espíritos, o longa escrito pelo próprio diretor é extremamente didático, cuidadosamente explicado, fruto de circunstâncias que podem esclarecer ao público o que está acontecendo. O planeta Terra nada mais é do que um local onde abriga-se matérias – o corpo humano – em formação pessoal. Para o desenvolvimento da trama, tão simplória e sem virtudes narrativas, um arco dramático é criado, centrando em duas vidas unidas por Deus num hospital – o que chamaríamos de coincidência, nomeiam de propósito. Daí um aprendizado, um afago ao risco frente à morte. 

Com dois personagens em estado terminal, Evelina (Amanda Acosta) e Ernesto (Luiz Baccelli), o filme laça os espectadores a partir da oferta da esperança e do desconhecido, plano que será trabalhado no futuro do longa, mas que já ganha alguns adiantamentos de Ernesto que discursa sobre a morte e teoriza a respeito de seu pós. Os conceitos e práticas da religião são impostos, o que garante a empatia dos seguidores da doutrina. Algo natural e que deve-se levar em conta, afinal, é para eles que a obra fora concebida. Há ainda um método prático para nos solidarizarmos pelos personagens quando percebemos duras injustiças em suas vidas. Ações que escorrem até os princípios do pós morte, retratando, entre outras suposições, a reencarnação. 

Todo o enredo vai de encontro com os artifícios frouxos colocados pelo filme, como o melodrama, a trilha lenta e a vagarosidade, fora a caricatura e a tendência explícita em acalentar o público atrás de respostas. Nem a fotografia, algo bem utilizado em produções anteriores, ganha boa atenção aqui. Quanto às atuações, essas são das mais risíveis, encenadas, como se o diretor não obrigasse ninguém a repetir tomadas, ou por pura pressa em finalizar o projeto. O trabalho de som é outro problema escancarado, quase desconfiei de que os atores estavam dublando suas falas. Nem Lima Duarte se dá bem na empreitada que não preza seu talento, dando a ele o encargo de instrutor num céu. Beira o ridículo a composição geral, não a hipótese. Trata-se de um filme, e é justamente sobre o filme que este texto trata, não sobre o que este procura apresentar, ou vender. 


domingo, 9 de outubro de 2011

Proseando sobre... O Filme dos Espíritos


 Bom perceber que uma obra como o "O livro dos espíritos" de Allan Kardec não tenha sido ousadamente adaptado para o cinema, mas surgido como inspiração significando o impacto das palavras segundo os espíritos para algumas vidas. Isso não quer dizer que tal realização tenha sido uma concepção certeira de uma moral. Triste é especular o filme como finalidade mercantil exaltando a doutrina espírita como também as Casas André Luiz. Para fundamentar essa estrutura de teor comercial, vários personagens somam a história através de subtramas breves encaminhadas a um mesmo lugar.

Na direção a dupla André Marouço e Michel Dubret fazem um trabalho convencional, e tentam através de planos detalhe elaborar significados em imagens, como “O livro dos espíritos” numa estante ao lado de pensadores evocando a importância da obra em meio a ciência; o quadro cuja face de Jesus é revelado durante um desvelo; ou a pintura “A Criação de Adão” de Michelangelo ao fundo num escritório de um dos mais notáveis seguidores da obra de Kardec. Tal percurso explícito na narrativa são apenas minúsculos momentos adequados a temática transposta, e poderia ser grandioso enquanto um filme que busca se apoiar no livro base do espiritismo.

A narrativa escrita por André Marouço sofre para ser minimamente crível. Há um acumulo de histórias que se entrelaçam que até Guillermo Arriaga teria dificuldade para solucionar. A rapidez dessa tentativa só é dada através de desenlaces frívolos sem outras razões a não ser comover o público, especialmente os adeptos da doutrina. É natural que estes apreciem a obra uma vez que buscam ver exatamente o que o filme propõe mostrar. Trata-se de uma grande disseminação de tal ideologia num olhar altruísta cheio de mensagens em pró da vida num otimismo voluntário.

Bruno (Reinaldo Rodrigues) é um professor universitário sofrendo pela morte da esposa. Com ela, ele compartilhava um segredo, algo ressentido capaz de provocar ainda mais lamentações por um passado escolhido. Nesse ponto uma temática polêmica é levantada e discutida seguindo os preceitos da filosofia espírita. Há uma resolução numa cena durante uma sessão de grupo proposta pelo Dr. Levy (Nelson Xavier) ligando o passado e o presente de um personagem caça níquel referente ao tema. A maneira utilizada pelo diretor em conciliar o significado da ação neste ato é embaraçosa e deslocada.

Se o roteiro falha, os aspectos técnicos também não oferecem muita coisa, entregando-se ao lugar comum sem inovações. A maneira de exibir o desalento de seus personagens através do excesso, como Bruno e suas constantes bebedeiras, ganham força pela fotografia turva e pela direção artística buscando sombras. A vida obscurecida celebra a luz através do esclarecimento, da influência aspirante propagada, do livro velho passando de mão em mão oferecendo conforto.

Sem complexidade e cheio de mensagens perdidas pelo exagero de sua composição relacionada às várias histórias cruzadas, “O filme dos Espíritos” deixa de ser uma homenagem a obra de Allan Kardec para soar como um produto da doutrina espírita com potencial de angariar novos adeptos. Não quer dizer que o longa tenha sido feito unicamente com este propósito, mas custa crer no contrário a esta hipótese devido sua inferência fílmica e fragilidade em contar uma história onde a força se dê também no seu desenvolvimento, dispensando as precipitações das conclusões determinadas.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Proseando sobre... As mães de Chico Xavier


“As mães de Chico Xavier” é o filme que encerra as comemorações do centenário do famoso médium. Igualmente aos outros filmes, esse possui um arco dramático denso que só não emociona mais pela previsibilidade de seu tema ao colocar mães que perderam seus filhos em contato com Chico Xavier para este, através de cartas psicografadas, trazer mensagens de amor acalentando os corações feridos daquelas que perderam um ente próximo. Chico, em uma passagem, justifica: “a saudade é uma dor que fere nos dois mundos”. Tal frase explicita o que será o longa cujos desafios implícitos de encarar a morte ganham a esperança de um reencontro futuro.

Dirigido pela dupla Glauber Filho e Halder Gomes, este arrasa bilheterias promove o espiritismo através dos feitos de Chico Xavier. Envolve 3 histórias para contar a dor da perda, a amargura do luto e a incapacidade de aceitar. Nessa última, a solução se encontra nas palavras provindas das psicografias. O filme passa por um longo percurso por vezes cansativo tingido de azul – note que a cor predomina como símbolo de serenidade – narrando histórias de 3 mães desesperadas. Ruth (Via Negromonte) perdeu seu único filho para a dependência química; Elisa (Vanessa Gerbelli) não digere o acidente que levou seu filho que iria completar 5 anos; e Lara (Tainá Muller), grávida, terá duas grandes questões para lidar. Chico Xavier (novamente vivido por Nelson Xavier) surge na história quando um jornalista (Caio Blat) fica incumbido de fazer uma matéria sobre seus feitos.

O filme coloca idéias sem discuti-las – não há espaço para acusações ou defesas – se tratando apenas como um viés da religião e sua propagação enquanto doutrina, mesmo que coloque em cena alegorias relacionadas a outras religiões. A forma com a qual reflete a possibilidade do aborto é banal e nada acrescenta a trama, uma vez conhecermos outros filmes que já discutiram o tema de maneira bem mais interessante. É um filme feito para espíritas, curiosos e para quem procura se emocionar ou um afago advindo do espiritismo. Funciona dentro de sua proposta enquanto homenagem, embora uma figura como Chico Xavier mereça um trabalho bem mais conciso e sólido que reverencie seu feito de maneira não postiça como estes longas recentemente realizados.

O roteiro facetado acaba prejudicado pela montagem resultando em bocejos iniciais. A falta de inovação também não colabora para o sucesso do longa, restringindo unicamente a artifícios já vistos sem surpreender em nada. As lágrimas existirão para quem se permitir, e essas são reforçadas pela boa trilha de Flávio Venturini e pela atuação tocante de Vanessa Gerbelli cujos gestos e expressões parecem orgânicos nos causando comoção imediata – há um plano lento e tristíssimo envolvendo sua personagem. Que mãe está preparada para perder um filho? Que conforto esta pode ter senão a tomada de consciência e aceitação? “As mães de Chico Xavier” trata dessa busca por respostas de maneira melancólica e exagerada em sua composição cinematográfica pretendendo emocionar a qualquer custo. E consegue.