terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Proseando sobre... Tudo pelo Poder


 Há poucos anos Ron Howard filmou “Frost/Nixon”, filme que traz a entrevista com o ex-presidente americano Richard Nixon concebida por David Frost, salientando o cenário político americano na época de seu governo, o escândalo de Watergate bem como aspectos polêmicos de sua vida pessoal. Foi um belo filme que não teve a atenção merecida. Agora é George Clooney quem investe nesse âmbito político, trazendo os bastidores de candidatos à presidência dos Estados Unidos. Todas as estratégias e disputas são contrastadas enfaticamente em planos rápidos, bem desenvolvidos, anunciando os focos dos personagens ao passo que a esperança ilusória depositada através da crença em alguém que pode, de alguma forma, mudar o país, se arruína. Promessas se vão.

Clooney chega a sua quarta direção, cada vez melhor, transita entre trabalhos sólidos. Em “Tudo pelo Poder” ele também atua. Mike Morris (Clooney) está concorrendo à presidência, é o favorito, mas teme uma reviravolta. O embate sugestionado entre ele e seu oponente fica de lado para a atenção e a câmera se voltar para seus acessores, homens que planejam meticulosamente ataques a fim de derrubar os planos de seus adversários. Como cães e gatos, a amistosidade é fachada para a impugnação. De um lado está Tom Duffy (Paul Giamatti) opondo Morris, enquanto Paul (Philip Seymour Hoffman) e Stephen Myers (Ryan Gosling) buscam garantir a vitória de seu candidato.

Com diálogos precavidos a não relação aos acontecimentos recentes nas eleições americanas, embora emita alusão ao atual estado do país buscando retomar a dianteira da economia mundial, o filme sugere a esperança no olhar de um jovem crente quanto à vitória e a dignidade de seu candidato. É em cima dessa expectativa que o filme se centra, colidindo ideologias com frustrações, explicitando a fé de um homem crendo que seu país seguirá um caminho promissor. Não demora e acontecimentos denunciam inconveniências, assolando promessas. Tal constatação não poderia vir de um homem otimista, denunciando nessas entrelinhas a ótica de alguém que vive tal situação no país e parece descrente quanto ao seu futuro.

A narrativa se desenvolve didaticamente, com clareza, contrariando a opinião de que filmes com teor político sejam arrastados. Tal como “Frost/Nixon”, “Tudo pelo Poder” acumula grandes momentos, desde a força do texto a cenas pungentes, como o destino de uma estagiária vivida por Evan Rachel Wood. O elenco é outro trunfo, filtra magistralmente a idéia do filme. O trabalho dos atores compreende o universo proposto por Clooney, fortalecendo ainda mais a obra. A trinca Gosling, Hoffman e Giamatti se destacam junto a Marisa Tomei, que surge em doses, vivendo uma jornalista atroz. Um painel político americano é montado, contando uma mesma história, tão íntima de nós, brasileiros, o que de imediato nos aproxima compreensivamente da mutação inevitável do personagem de Gosling. Sua renúncia à fé que outrora mantinha, tempos em que carregava um sorriso orgulhoso. Este semblante converteu-se numa expressão séria, afligida, como a nossa diante nossos líderes. 

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