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terça-feira, 10 de junho de 2014

Proseando sobre... Malévola

Na onda de readaptações ou readequações de contos de fadas – essa tão explorada nova mania hollywoodiana –, Malévola surgiu para sanar a curiosidade do público que manteve até seu lançamento uma expectativa imensurável a cerca da história desta vilã tão aclamada. Nessa onda mencionada constam Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, 2010), Branca de Neve e o Caçador (Snow White and the Huntsman, 2012), Oz: Mágico e Poderoso (Oz: The Great and Powerful, 2013), Jack - O Caçador de Gigantes (Jack the Giant Slayer, 2013) e o horrendo João e Maria: Caçadores de Bruxas (Hansel and Gretel: Witch Hunters, 2013). Há um universo belo e mágico com um teor sombrio usual investido nessa narrativa frágil. Juntamente a competentes efeitos e menções honrosas ao clássico, o filme contrasta a história original. E assusta o quanto se revela piegas e pouco inventivo diante um universo de possibilidades fantásticas. Felizmente resta ao filme o carisma de Angelina Jolie. Se não fosse por isso, pouca coisa sobraria.

O diretor estreante Robert Stromberg, um profundo conhecedor de efeitos visuais – são dele os efeitos de O Labirinto do Fauno (Laberinto del Fauno, El, 2006), Piratas do Caribe: No Fim do Mundo (Pirates of the Caribbean: At World's End, 2007) e As Aventuras de Pi (Life of Pi, 2012) –, retoma um clássico e pressupõe uma releitura. O conto A Bela Adormecida ganha novos adornos, um viés mais rebuscado, sombrio e aventureiro a partir daquela que jogou a maldição do sono eterno sobre a bela princesa Aurora. O roteiro explora profundamente os motivos pelos quais Malévola tomou decisões que lhe fizeram, dentro do imaginário popular, uma vilã. Conhecemos aspectos de sua história, sua doçura, seu respeito com a natureza e a posição de cada um dentro dela, sua brandura e seu amor. Esse último converteu-se em seu tormento. O brilho bucólico dos campos e jardins ganharam sombras quando o símbolo de seu eu fora mutilado.

Tal interpretação implicou em mudanças consideráveis, o que não é nenhum problema. A arte do cinema dá margens para tais modificações. O próprio conto original alterou-se comparado a versão da Disney lá de 1959. Aqui são várias alterações, algumas de enorme relevância e outras triviais. Obviamente, a história se modela a partir de uma protagonista alternativa, vivida com entusiasmo por Angelina Jolie. É sobre ela que o roteiro se debruça, ignorando outras ações. É impossível não notar a desconsideração com outros personagens, o sabotamento das 3 fadas que cuidam de Aurora quando ela simplesmente desaparece passando muito tempo com quem lhe amaldiçoou; ou com relação ao sono profundo, o grande vilão dessa história, que não tem magnitude quando finalmente acontece. São aspectos simples ignorados que cortam as asas do filme impedindo-o de alçar vôos que acrescentariam ou engrandeceriam a obra.

É pura verdade que é um prazer assistir o filme. Seu visual plástico encanta e empolga, o som e a trilha seguem o mesmo ritmo fortalecendo a experiência de acompanhar a história e descobrir os motivos pelos quais Malévola abandonou aquele ímpeto jovial e sonhador do início. Essa é uma sacada que garante a afeição do público, juntamente outros recursos com personagens e gags que transformam aquele reinado abarrotado de tantas tensões em possível captador de singelos momentos de humor. Nada é gratuito, o investimento seguiu a fórmula mais carimbada do estúdio, o que costuma dar certo sem ousadias, até que chega seu ato final e uma novidade é alcançada com certo louvor. Mas quem não previu que pudesse ser como foi já no início da segunda metade do filme?

O que assistimos é, definitivamente, um estupor visual dos mais significativos sobre uma potencial história desperdiçada. Um ode aos papeis femininos os quais a Disney vem ressaltando com bastante força. Travestido de conto de fadas convencional, esse emerge das sombras criativas, mas não dá mais do que alguns suspiros. O ótimo Sharlto Copley vive um Rei Stefan caricatural, enquanto Elle Fanning sorri em demasia com sua cândida Aurora. Angelina Jolie tem alguns grandes momentos, muito mais pelo carisma do que por uma interpretação absolutamente marcante. Viver Malévola deve ter sido um deleite para a atriz. É interessante vê-la encarnar alguém que zelou dedicadamente pelo outro como uma mãe que não teve a oportunidade de conceber um filho, ao contrário de sua vida pessoal admirável. Fica até alguma lição sobre formas de amor, sem normas e sem máculas, inevitáveis e precisas diante condições essencialmente humanas que longe dos contos de fadas compartilhamos.

Texto originalmente publicado em http://cineplayers.com/critica/malevola/2862


sábado, 26 de janeiro de 2013

Proseando sobre... João e Maria: Caçadores de Bruxas



Segue a todo vapor as adaptações de contos de fadas que procuram estabelecer novas franquias para o cinema. Idéias criativas estão escorrendo por entre os dedos de produtores predispostos a realizar obras corriqueiras. Aí surge um desconhecido, um cara que veio lá do norte europeu, Tommy Wirkola, que filmou “Kill Bujo” – paródia de Kill Bill – e “Zumbis na Neve” – longa com mortos vivos nazistas. Criatividade? Ilusão. O diretor ganhou alguma atenção e recebeu o convite para conceber a adaptação livre de “Hansel and Gretel”, conhecido por nós brasileiros como “João e Maria”. O filme não trata das crianças que deixaram migalhas de pão por um caminho numa floresta, mas de dois adultos fortemente armados que se tornaram mercenários, caçadores de bruxas que rodam cidades eliminando as feiticeiras violentamente. Aliás, é importante frisar “violentamente”.   

Retornamos séculos e assistimos dois heróis ainda crianças serem apresentados numa cena pré-créditos num ambiente escuro em meio a uma composição mágica atraente. Nos deparamos com uma casa no meio da floresta feita de doces, ao melhor estilo “A fantástica fábrica de chocolates”. A entrada parece ser um grande pirulito, e quando aberta, converte-se numa boca cheia de dentes, engolindo quem a atravessa. A beleza do local é um atrativo tentador para os pequenos em fuga que decidem, ignorando todos os perigos mortais que os ameaça, experimentar as delícias açucaradas. Isso rende um probleminha futuro a Hansel, servindo como uma piada temporal a respeito de descobertas da medicina com relação a uma doença metabólica tão conhecida por nós. Esse acontecimento é nulo, nada acrescenta a narrativa, a não ser complicar um dos protagonistas numa cena final para dar mais emoção e afundar o longa em clichês ordinários.

Os atores Jeremy Renner e Gemma Arterton formam a dupla protagonista. Renner que tornou-se astro repentinamente após seu papel no ótimo “Guerra ao Terror” assume um Hansel viril, que se choca com árvores e rochas e levanta-se como se tivesse colidido com um colchão. O ator esboça um humor que não fora visto em seus personagens recentes, Aaron Cross em "O Legado Bourne" ou o Gavião Arqueiro em "Os Vingadores". Já Arterton que não emplacou enquanto musa mesmo após seus papéis sensuais em “Fúria de Titãs” e “O Príncipe da Pérsia”, cria uma Gretel agressiva, quase masculinizada, de baixo de muita roupa e armas artesanais. Ela, que também já fora uma Bondgirl em “Quantum os Solace”, divide cenas com outra atriz que fisgou James Bond nos anos 90, Famke Janssen de “007 Contra GoldenEye”.

Irrelevante em todos os pontos de vista, somo a fotografia e a direção artística que tornou-se tão comum que nem merece grandes menções embora sejam coesas e correspondentes a proposta obscura do longa, o filme peca pela direção sem inventividades, evidenciando o pouco senso espacial do diretor. Os personagens vão de uma distância a outra numa velocidade impressionante, o que nos faz questionar nossa visão, já que, aparentemente, as bruxas sobre suas vassouras voam rapidamente e os outros personagens caminhando as acompanha sem dificuldades. Ou as vassouras voam a 5 km/h ou os heróis conhecem os atalhos igualmente Jason conhecia Crystal Lake. Quanto às cenas de ação, essas funcionam bem, energicamente e sem moderações, apesar do excesso de cortes. Há alguns manejos de câmera notáveis. Também é possível se divertir com um Troll que surge no filme – Wirkola é norueguês – cujo nome é Edward. Sátira óbvia ao vampiro reluzente.

Crianças estão desaparecendo numa pequena comunidade, obra de bruxas que as querem para um feitiço secreto. Elas se escondem em florestas. Tem de todo tipo, carregando sempre olhares horripilantes – há uma, ou melhor, duas bem interessantes que duram menos de 10 segundos em cena, irmãs siamesas agressivas. A dupla então é contratada pelo prefeito local que os enxerga como única solução, agradando alguns habitantes e desagradando outros que preferiam resolver com as próprias mãos. Há até um romance que emerge dessa chegada da dupla, quando Hansel salva uma bela ruiva que estava prestes a ir para a fogueira numa ótica próxima a da inquisição. Também chama a atenção a violência disposta. Corpos explodem, sangue jorra e lava os personagens em volta. Corajosa abordagem que deverá agradar alguns públicos. Para finalizar, a personagem vilã explica tudo o que acontece com detalhes, como se o espectador fosse incapaz de entender o que está rolando. Ao menos é breve, fugaz.

  

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Proseando sobre... Branca de Neve e o Caçador

Conto imortalizado dos irmãos Grimm pela Disney, ao ser transformado em fábula infantil já rendeu outros filmes inspirados nele; só este ano dois foram lançados, Espelho, Espelho Meu (Mirror, Mirror, 2012) e esse Branca de Neve e o Caçador (Snow White and the Huntsman, 2012). Ambos tomaram direcionamentos distintos, com o último apoiado num universo gótico entre cenas dignas de bons épicos. É o mais próximo da obra original, por assim dizer, sendo que a violência e o visual alimentam um viés contraditório da beleza da história popularmente conhecida, levando a proporções amplas e satisfatórias do ponto de vista plástico e de produção. O “era um vez...” persiste, no entanto, o que vem depois é surpreendente.

A história é a mesma, com algumas adaptações e adequações. Branca de Neve, ainda criança, órfã de mãe, vê o pai se casar com Ravenna (Charlize Theron, impecável), mulher que lhe tira a vida na noite de núpcias, tornando-se Rainha absoluta. A verdadeira herdeira do trono termina subjugada numa masmorra. Adepta de feitiçarias e obcecada pela beleza, a bruxa monarca suga a jovialidade de jovens da região. Porém, ao questionar o espelho sobre quem é a mais bela, descobre que seu desafeto, a crescida Branca de Neve (Kristen Stewart, pecável), pode superá-la. Dirigido por Rupert Sanders, essa versão vem colidir com a expectativa do público graças à novidade fundada.

A esperança reside na verdadeira princesa, Branca de Neve, que passou a vida presa numa jaula do castelo. Sua fuga dá energia ao filme, levando o espectador a diferentes locais e a reconhecer famosos personagens: o caçador (Chris Hemsworth), responsável por trazer Branca de Neve até o castelo; os sete anões, que aqui são 8; e o príncipe arqueiro (Sam Claflin) de um outro pequeno reino, amigo de infância, sobrevivente às ameaças da megera. Além desses personagens, outros surgem nesse universo de fantasia, alguns emergentes de uma floresta negra e fadas aparecendo num santuário bucólico e utópico com contemplações divinizadas.

Dentro da narrativa, há um notável problema espacial a respeito das regiões de peregrinação dos heróis: o clima muda ferozmente e não temos acesso exatamente à lógica do tempo em que estiveram atravessando as terras. O sol pouco brilha nessa história obscurecida, banhada pelas sombras de um mundo oprimido e morto. Nem flores nascem, o solo turvo sem vida cultiva pobreza com pequenas civilizações mendigando. Todos são hostis à rainha Ravenna, que fez daquele universo dolente, lembrando constantemente com saudade tempos de outrora. 

A trilha sonora é outro trunfo que dá um tom interessante ao longa. Uma canção, Gone, de Ioanna Gika, ecoada num determinado instante, abrilhanta a expedição naquelas trevas através de uma só voz cantarolando uma bonita composição. O visual arrebatador enriquece a obra esteticamente; créditos ao diretor de arte David Warren, que trabalhou em A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, 2011), explorando com minuciosidade a contextura gótica tão aprazível aos olhos, juntamente a fotografia de Greig Fraser (Brilho de uma Paixão [Bright Star, 2009]) e o figurino de Collen Atwood que dá, especialmente, maior credibilidade e noção de perigo à persona Ravenna.

Essa adaptação tem bom ritmo, mas o roteiro não tem lá muita profundidade, explorando pouco seus personagens. Entendemos as motivações de cada um, frases feitas contribuem e as relações amorosas, embora ínfimas, são cabíveis. Dentro disso, auto descobrimentos e redenção germinam apenas como tributo ao conto original. E Kristen Stewart, estrela de Crepúsculo (Twilight, 2008), bem que tenta dar alguma dignidade à protagonista, no entanto, entrega-se aos seus vícios comuns (lábios semi abertos, olhar cerrado), perdendo em dramaticidade até para Thor, ou melhor, Chris Hemsworth. Enquanto isso, Charlize Theron extasia. Visualmente belíssimo, “Branca de Neve e o Caçador” é uma atraente versão, ainda que pobre, da fascinante obra dos irmãos Grimm.