Imagino os responsáveis numa sala discutindo qual seria a desculpa para
adaptarem o jogo Batalha Naval para um longa de grande repercussão.
Várias idéias absurdas devem ter sido cogitadas, entre elas a
selecionada. Não se pode culpá-los: a proposta é difícil; um desafio. A
decidida, por sua vez, aparece num ato em que, sem radares, os
tripulantes de um navio ouvem atentamente as coordenadas do Capitão Yugi
Nagata (Tadanobu Asano), por causa de sua habilidade em localizar
coisas sem radares: daí um imenso tabuleiro surge em sua frente e tem
início a batalha naval, ignorando completamente algumas noções como, por
exemplo, a desculpa dos alienígenas não conseguirem rastreá-los.
Soma-se a isso a explicação estapafúrdia sobre como um dos personagens
diagnosticou o que é nocivo aos alienígenas graças a uma experiência com
um réptil. São pequenas coisas que passam batido, mas convenhamos que,
no geral,
Battleship - A Batalha dos Mares (
Battleship, 2012) traz demasiada subestimação à inteligência do espectador.
A
narrativa não procura maiores explicações sobre o ataque, ela dá a
razão e entendemos. Isso parece bastar. Tudo surgiu da mera desculpa da
adaptação e traduziu-se o jogo ao modelo mais convencional possível.
Têm-se a garota bonita que aflora os hormônios masculinos vivida por
Brooklyn Decker, e seu pai, o Almirante Shane (Liam Neeson), carrancudo e
imponente, pouco acrescentando a trama, a não ser por fazer vista
grossa para os pretendentes da moça. Há também o modelo perfeito de
honra e hombridade, o irmão do protagonista, interpretado pelo sueco
Alexander Skarsgård (o vampiro Eric de
True Blood). Outra que
merece menção é a dona dos diálogos mais imemoráveis, a personagem de
Rihanna, esta que estreia nas telonas com sua durona Cora Raikes. O
entretenimento barato é cumprido e nada mais é feito.
O cartão
de visita da obra segue o que o cinema popular demanda: ação e humor. É
a formula para apresentar o protagonista, o rebelde típico gênio
indomável Alex Hopper (Taylor Kitsch, que interpretou recentemente o
aventureiro John Carter), e que deve ganhar a afeição do público. A cena
em que o conhecemos é mesmo cômica, mas o filme inteiro procura alívio
no humor o tempo todo, basicamente como uma versão marítima de
Transformers, dado que também trabalha com vilões extraterrestres
dotando de um arsenal rico e naves colossais.
O roteiro ficou a cargo dos irmãos Erich Hoeber e Jon Hoeber, que escreveram
Terror na Antártida (
Whiteout, 2009) e
Red - Aposentados e Perigosos (
Red,
2010). A preocupação destes é direcionar as cenas a combates, sem
desperdiçar tempo com qualquer enrolação dramática – perdas são sentidas
em ligeiros suspiros –, utilizando de frases de efeito e gestos de
heroísmo, bem como redenção e compaixão. Não são poucos os momentos em
que breves palavras motivam os combates no meio do Oceano Pacífico,
entre elas, o “não hoje” martela na cabeça do público crente quanto à
competência de seus protagonistas em defesa do mundo pelas mãos, dessa
vez, de americanos e japoneses. Pearl Harbor vêm a memória.
Com a
humanidade em perigo pela enésima vez, Hollywood celebra mais um ataque
e quem dirige o show caótico aqui é Peter Berg, que tem em mãos uma
produção magnânima. Os efeitos especiais são irrepreensíveis, com
destruições e explosões convincentes e desmedidas, o que hoje não
surpreende mais devido às incontáveis estreias que utilizam desse
atributo no circuito. O som é significativo na produção, é possível
ouvir as ondas chocando-se aos navios durante a guerra. Juntamente a
esses aspectos técnicos, o que há de melhor em Battleship é a a trilha
sonora. O filme todo é embalado por bandas como Stone Temple Pilots,
Creedence e AC/DC, o que potencializa algumas cenas.
Barulhento
e longo, longo demais para tratar tão pouco, Battleship é mais um
expoente da ficção recente que nada diz. Presume-se sucesso de
bilheteria e exaltação pela ousadia de sua adaptação. Hollywood tenta de
tudo, e os alienígenas, ao que parece, continuarão sendo os nossos
melhores vilões e ainda incapazes de nos enfrentar. Otimismo
estadunidense? Enganar-se é um talento do ser humano. E com esse talento
produções assim são lançadas para o espectador ver, não pensar e ir
embora satisfeito.