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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Proseando sobre... Hércules

Uma das coisas mais estimulantes quando se pensa no conceito de expectativa é a possibilidade de se surpreender, ainda mais quando essa origina-se de uma expectativa negativa sobre algo. Muitos filmes decepcionam quando esperamos demasiado por eles. Outros melhoram. Filmes que, por uma simples espreitada no trailer já são considerados potenciais fiascos. Quando vistos percebemos que não são bem assim. É o que aconteceu com esse Hércules, nova adaptação dirigida por Brett Ratner e estrelada pelo sempre carismático Dwayne Johnson. Diante a possibilidade de assistirmos uma verdadeira catástrofe cinematográfica tempos após termos visto seu trailer fanfarrão, eis a surpresa em perceber que a obra não é essa atrocidade toda. Hércules (2014) é apenas irrelevante. E durante sua existência passageira nas telonas, consegue divertir muito sem comprometer a história original. Aqui Hércules é outro, é baseado em uma história alternativa. É um legítimo mercenário. 

O filho de Zeus, detentor de uma força imensurável, ganhou novamente as telonas. É natural que um personagem tão importante apareça mais frequentemente em épocas de tantas adaptações. Em seu início conhecemos aspectos de sua história. Os seus 12 trabalhos nos são apresentados brevemente através de uma narração que exprime a maior virtude do roteiro: questionar fatos e papeis. Os deuses parecem vencidos nessa obra, existindo como citações enquanto a epopeia de Hércules transcorre no cenário bem desenhado com tonalidades amareladas. Redescobrir seu valor enquanto um semideus desconsiderando intervenções divinas parece ser seu desafio. Vem corroborar a máxima: duas mãos trabalhando fazem mais que milhares rezando! 

É bem por aí. E olha só, Hércules não trabalha sozinho. Vem auxiliado por uma série de seguidores, alguns poucos soldados que ele colheu durante seus feitos. Insere-se aí estereótipos e uma arqueira feérica. Com o time, o semideus passa a servir o rei da Trácia (John Hurt) que prometeu como recompensa seu peso em ouro. O roteiro se agarra a esse serviço, levantando seus fundamentos a partir de uma liderança questionável, sem nunca revelar verdadeiramente ao espectador quais as intenções por trás de cada um daqueles rostos cansados de guerra e em constante busca por riqueza. Há uma série de flashbacks – por vezes insuportáveis – que deixam no ar uma dúvida sobre o passado do filho de Zeus. A ação retratada vem quase sempre acompanhada por muito humor, o que condensa a trama tornando-a um entretenimento divertido, um pipocão carente de substância suficiente para honrar dignamente a representação do mito de seu herói. 

Alan Moore fez campanha para o filme ser boicotado, pois lembrou de seu amigo ignorado, Steve Moore, morto em março desse ano, autor da HQ Hercules: The Thracian Wars, a qual este filme foi baseado. O cara mal foi consultado e antes de morrer demonstrou todo seu descontentamento com o que sua obra estava se transformando. É fácil entender tal queixa através do viés da narrativa filmada calorosamente por Brett Ratner. O diretor tem experiência em equilibrar ação e humor, vide a franquia A Hora do Rush. Formulaica tal como a maioria absoluta das grandes produções, Hércules é enérgico, engraçado, descerebrado e tem um grande nome envolvido como isca. O personagem está definitivamente mais humanizado, ainda que se eleve enquanto um ser sobre-humano beneficiando o deleite de seus fieis apreciadores. É para se ver, se divertir e naturalmente esquecer. Ahhh, Dwayne Johnson, que já foi o Escorpião Rei, funciona bem como Hércules apesar de suas expressões afetadas. 

Esse ano ainda foi lançado um outro filme baseado no personagem, Hércules (Legend of Hercules, The, 2014), dirigido por Renny Harlin e estrelado por Kellan Lutz. Não vi. Ninguém que conheço gostou. 


terça-feira, 2 de abril de 2013

Proseando sobre... G.I. Joe: Retaliação



John Chu, diretor de “Se ela dança eu danço 2 e 3” e de “Justin Bieber: Never Say Never” – ?????? – pegou as rédeas da franquia “G.I. Joe” que começou com o fracassado “A Origem de Cobra” em 2009. Agora temos uma segunda parte renovada, intitulada “Retaliação”, que muda totalmente seus protagonistas, mantendo unicamente Channing Tatum, Byung-hun Lee e Ray Park. Grandes nomes como Dwayne Johnson e Bruce Willis chegam para reforçar com seus prestígios. Já a história não é lá um reforçador. O foco é a destruição megalomaníaca e as pirotecnias, coisas costumeiras. Entra também a comédia pastelão, um tempero como alívio a abundância de violência. Nada de extraordinário ou de ordinário. Mera diversão.  Mero mero.

As organizações Cobra continuam querendo destruir o mundo com armas de imenso poder de dizimação. Dessa vez ela se alia ao governo dos Estados Unidos de modo cruel. Como estratégia para o sucesso, a organização destrói os G.I. Joe numa emboscada, e faz parecer que os caras na verdade eram traidores da pátria. Sem oponentes, dominam a Casa Branca. No entanto alguns sobrevivem a armadilha e não ficam apenas para contar a história, mas para desmascarar os envolvidos no plano e restabelecer o poder do país para finalmente salvar o mundo. Paralelamente rolam mais duas tramas: a amizade entre Duke (Tatum) e Roadblock  (Johnson) destruída; e o embate particular entre os ninjas Storm Shadow e Snake Eyes. As razões para esse conflito? Não será nessa parte que saberemos.

“Retaliação” deveria ter saído em 2012, mas decidiram converte-lo em 3D e atrasou o lançamento. Algumas cenas extras com os personagens de Tatum e Johnson foram acrescentadas nesse tempo, já que imaginaram após sessões fechadas que talvez essa amizade fosse uma das únicas coisas relativamente interessantes do longa. O fato é que o insucesso da primeira empreitada não pode ser repetido, renderia o enterro da franquia. Então tentam de tudo, mesmo que precisem seguir a fórmula usual e já insuportável. Também restam absurdos exibicionistas: o arsenal engenhoso surpreendente, a prisão subterrânea com os presos e a escapada de um dos ninjas que consegue fazer parar os próprios batimentos cardíacos. Feito desmedidamente para demonstrar o poderio da produção, o melhor acaba ficando por conta do clichê habitual, porém nunca desinteressante: a garota vestida com um vestido vermelho apertado que arrebata os homens por perto. E o
público também.

Bruce Willis surge num papel cômico e solta algumas frases para o deleite de seus fãs. A ação acontece o tempo inteiro, a narrativa é enérgico. Tem seu grande momento quando os ninjas se enfrentam, culminando numa fuga por montanhas, algo verdadeiramente atraente. Os bonecos da Hasbro, ou melhor, os comandos em ação como são conhecidos pelos brasileiros, tiveram com essa sequência maior dignidade comparado ao fiasco horrendo que fora o primeiro filme. Ainda assim terminou medíocre como outras adaptações parecidas – por exemplo, “Battleship” – vem terminando. 


segunda-feira, 4 de março de 2013

Proseando sobre... Os Miseráveis



Tom Hooper se consagra, não pelo que fez enquanto diretor, mas pelo que conquistou com a equipe de produção desse "Os Miseráveis". Algumas divulgações publicitárias insistiram em dizer que foram registradas cantorias ao vivo durante as encenações. Algumas provavelmente aconteceram. A minoria! É bastante claro e seria estranho, talvez até embaraçoso, esperar que seus ótimos atores desempenhassem grandes números musicais já que não são cantores. Estão longe disso. Russell Crowe que o diga. É preciso gostar de musicais. Há quem não aprecie. Particularmente, adoro. O cinema está abarrotado deles, obras magnânimas, imortalizadas com sequências inesquecíveis e canções imortais. “Cabaret”, “O Mágico de Oz”, “Cantando na Chuva”, “Dançando no Escuro”, “Moulin Rouge”. Eis alguns exemplos para entrarmos no assunto. Neste, os atores dialogam cantando acompanhados de melodia. São quase 160 minutos assim. Belos 160 minutos, plasticamente e narrativamente, evidentemente sem comparar com a obra original, escrita por Victor Hugo, tantas vezes adaptada para a telona. 

A história centra em Jean Valjean (Hugh Jackman) que ficou preso por 19 anos após roubar um pão. Ele foge e revitaliza sua vida, ganhando fama com outro nome, enquanto o inspetor Javert (Russell Crowe) segue em sua cola atravessando décadas a sua procura. Outros personagens vão surgindo, balanceando a diferença social abrupta, com a miséria nas ruas, pessoas sujas humilhadas por circunstâncias. Entre elas está Fantine (Anne Hathaway, destemida e intensa no pouco tempo que lhe foi reservado em cena), mulher que perdeu o emprego e foi obrigada a viver na sarjeta, se prostituindo para garantir o alimento da pequena filha. Imerso em indigências, o longa caminha melancólico, com canções esperançosas – belas composições escritas – hasteando a bandeira da dignidade num cenário de revoluções – aspirações que aconteceriam anos depois. A história dá um salto.

Jean Valjean segue em fuga e Javert, implacável, mantém-se perto, a espreita, como se a honra de prender o fugitivo motivasse seu ofício. É interessante perceber as falhas dessa imponência fardada no personagem de Russell Crowe, maquinado num propósito vago o qual ele mesmo questiona, cedendo em nome do dever imposto. O ator trabalha bem essa composição austera, compensando sua voz enquanto cantor. Nesse período, Valjean cuida de uma garota, Cosette (Amanda Seyfried), que é cortejada pelo jovem idealista revolucionário Marius (Eddie Redmayne), cara que está envolvido na rebelião estudantil. 

Desenrola-se um romance para acalentar toda a tragédia que o filme envolve, funcionando pouquíssimo, já que aparece como uma subtrama dramática a qual, inevitavelmente, damos pouca importância. Há outras coisas rolando. Mas percebemos o casal como símbolo do futuro da nação, especialmente com Cosette que atravessou dois extremos sociais. É o bastante. Ainda há outra dupla que surge dissonante na narrativa com humor: Madame Thénardier (Helena Bonham Carter) e Monsieur Thenardier (Sacha Baron Cohen). Num princípio soam deslocados, porém vão ganhando espaço graças ao apelo humorado como alívio, sobretudo veiculado a Cohen.

Uma bela história, boas músicas e um elenco afinado – ao menos a maior parte dele – não são o bastante para tornar “Os Miseráveis” numa obra primorosa como alguns julgam. É gigante em composição, referências e estética. A câmera de Hooper, por sua vez, as vezes tira a beleza contextual da época para beijar os protagonistas, mantendo-os perto, evidenciando a maquiagem dos atores e suas expressões atormentadas. Ele deixa o filme se levar sem cadenciar embora seja longo e recheado de canções que se acumulam. Nesse terreno, quem se destaca mesmo é Hugh Jackman, surpreendendo, abandonando a impressão de ator pipoca para se entregar a uma obra eloquente e importante, sendo a estrela principal. E de estrelas se fez o filme, um autêntico musical, criativo e corajoso, pois é (en)cantadamente interpretado – deve-se aos atores que gemem, sofrem, tossem enquanto soltam a voz. Tom Hooper se coroa não pelo que realizou, já que a direção está engessada, restando a constituição artística de cada quadro e na liberdade criativa do belo elenco que arrebata e nos faz gostar deste longo longa.


segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Proseando sobre... O Hobbit

Após tanto tempo de espera, de expectativa quase agonizante de alguns fãs, finalmente chega aos cinemas “O Hobbit: Uma Jornada Inesperada” nos levando, outra vez, a Terra Média. Isso, logicamente, nos transporta imediatamente ao universo esplêndido de “O Senhor dos Anéis” tão bem dirigido por Peter Jackson há cerca 10 invernos. O diretor retorna nessa nova empreitada. Bateu saudade, é oportunidade de matá-la. Não é só dessa terra que sentimos falta ao longo desses anos, mas também dos personagens que carinhosamente aprendemos a gostar. A surpresa é grande ao final, sobretudo para quem leu o livro: muito desses personagens retornam, posso adiantar. E esses não estavam na história original contada por Tolkien. Certamente há quem não vai gostar, especialmente os mais saudosistas. Diante este início de trilogia, – um esplendor visual inquestionável e narrativamente empolgante –, creio que o maior problema do filme, no sentido da crença pessoal de que poderia ser maior, é seu diretor. 

Constatamos logo na abertura que se trata de uma extensão de “O Senhor dos Anéis”. Há, obviamente, relação com a trilogia de Jackson, fundamentada pela inserção de Frodo (Elijah Wood) juntamente ao Bilbo envelhecido (Ian Holm), com o segundo contando sobre suas aventuras de outrora, igualmente ao visto anteriormente. A fórmula se repete provocando uma sensação de nostalgia. É bom para começar. É a história contada anteriormente não dita, a qual não somente Frodo tomará conhecimento, como todo o mundo. Isso é gigante, dada a magnitude criativa de seu autor, J.R.R. Tolkien. Portanto, imediatamente após presenciarmos situações que foram tão bem transpostas do livro para o roteiro, pensamos: 3 filmes? Onde isso vai parar? Algumas coisas são demasiadas delongadas e trabalhadas com empenho cirúrgico em proporções técnicas, o que pode acarretar esgotamento em espectadores pouco acostumados a filmes de longas durações, além de ser essencialmente previsível: temos ciência que muitos personagens irão sobreviver, afinal, estão em “O Senhor dos Anéis”. Tal fato prejudica a expectativa final.

Bilbo Baggins (Martin Freeman, irrepreensível) tem seu habitual sossego interrompido numa manhã por um velho barbudo, Gandalf (Ian McKellen), que lhe oferece uma aventura. Os diálogos e até as piadas do livro são seguidas a risca pelo roteiro, proporcionando alguma satisfação ao público leitor capaz de abrir um sorriso constatando que aquela velha e bela história está a sua frente, encantadoramente representada. Bilbo é informado que alguns anões lhe visitarão e em breve sairão para reaver um tesouro anteriormente roubado pelo poderoso dragão Smaug. Eles irão precisar atravessar terras para chegar até a montanha solitária. Esse percurso guarda riscos imensuráveis, mortais. Sair para uma expedição dessa dimensão não é feitio para um hobbit que preza a tranquilidade, cachimbos e bons banquetes ao longo do dia. Todavia, ao que parece, segundo explicações do mago, ele está destinado. Mais tarde 13 anões surgem em sua porta e causam um frisson na pequena toca atordoando o jantar do pequeno. Liderados por Thorin, escudo de Carvalho (Richard Armitage), o grupo pouco a pouco conta sobre o passado e discorre a respeito do futuro incerto que lhes aguarda. 

No meio do curso, ecoando canções inspiradoras que recordam quem são e o que deverão fazer, todos os pequenos aventureiros toparão com famintos trolls, violentos orcs, ferozes wargs, elfos – entre eles Elrond (Hugo Weaving) e Galadriel (Cate Blanchett) –, gigantes de pedra, goblins e o inesquecível Gollum (Andy Serkis, fascinante com trejeitos e expressões muito bem caracterizadas). O jogo de adivinhas entre Gollum e Bilbo é, talvez, o melhor momento do filme. Ainda aparece Azog, um orc branco, como um vilão específico dessa primeira parte, uma ressalva para ressaltar Thorin, transformando-o num guerreiro célebre, um líder a altura – com o perdão da palavra – do que os anões precisam. Thorin torna-se, finalmente, muito mais poderoso do que aquele apresentado na obra literária. E a rota até a montanha segue levando a jornada dos 13 anões e do hobbit que encontra no meio do caminho um anel que lhe dá a possibilidade de ficar invisível. E diante tantas desventuras, a salvação de Deus ex machina, conceito levantado por muitos após conferirem a obra arrebatada.

Tecnicamente é realmente impecável, poderoso, límpido. Não tive a oportunidade de assisti-lo em 48 frames, tecnologia inovadora do High Frame Rate trabalhada por Jackson nesta obra. Já a direção artística é vigorosa, constatar Valfenda em sua exuberância através da tridimensionalidade é uma experiência lisonjeira. A fotografia aliada ao 3D funciona bem, embora por vezes decepcionante, talvez pela pouca familiaridade do diretor com o estilo. Não é nada que comprometa a beleza exuberante de todo o filme. Desde a vila dos hobbits até as montanhas, conferimos o cuidado dos realizadores. Desde as transformações físicas dos personagens principais até os efeitos em batalha – destaque para o embate entre os gigantes de pedra –, o filme nos brinda com o que há de melhor alegoricamente. Já a história, ótima, ganha conotações que não lhe dizem respeito pela ambição de seu realizador querer fazer teimosamente uma ponte com sua obra prima, “O Senhor dos Anéis”. Essa gana desejosa comprometeu “O Hobbit”, o que me faz pensar que outro diretor, um pouco menos contaminado pela elaboração de Tolkien, pudesse fazer algo muito mais significativo, transformando esse trabalho em algo independente daquela saga do Frodo. Guillermo del Toro fora cotado para assumir a cadeira da direção e ficarei eternamente curioso para saber o que este admirável realizador poderia ter feito com esse retorno a terra média conciliada com sua ilustre criatividade sombria e fabulista. Ainda assim, é imperdível.


terça-feira, 27 de novembro de 2012

Proseando sobre... E Agora, Aonde Vamos?

O trajeto leva a um cemitério e dezenas de mulheres seguem esse rumo para prestar homenagem aos entes enterrados, vítimas da guerra. Muitas são viúvas, outras perderam filhos e não conseguem compreender o que significa aquele conflito que tira a vida de tantos. No fim, todos perdem. O novo trabalho da ótima cineasta Nadine Labaki vem explanar um pouco dessa cultura com um tom crítico que fala de uma pequena aldeia no Líbano, onde convivem cristãos e mulçumanos, buscando harmonia num pequeno espaço sem saber dos embates em volta no Oriente Médio através dos quais a guerra está explodindo. As mulheres, então, procuram boicotar todos os tipos de informações para que essas não inflamem a discórdia. No lugar dos amores, elas querem enterrar a ignorância de povos que se devastam em nome da fé.

Nadine Labaki é um dos grandes nomes femininos no cinema recente. Ela não fez nenhuma obra espetacular, trabalhou pouco como produtora, diretora, roteirista e atriz, concebendo 2 longas metragens: Caramelo (Sukkar Banat, 2007) e esse E Agora, Aonde Vamos? (Et Maintenant On Va Ou?, 2011). Em ambos ela demonstra facilidade em contar histórias, apresentando a cultura de seu povo e tecendo críticas bem centradas sobre o papel da mulher nesse contexto e as guerras que assolam populações. Habilidosa, a diretora ainda trabalha com alguns artifícios narrativos que acrescentam esteticamente, como algumas canções e coreografias.

Com um olhar substancialmente imparcial, a diretora discorre elementos do cristianismo e do islamismo, enaltecendo diferenças – que não são tão distantes essencialmente – e diagnosticado os entraves através de inconveniências que os afastam. As crenças propriamente ditas. Se alguém ordena guerra em nome da fé, que seja feito. Não há uma discussão ou reflexão sobre os atos, há uma dissonância forte o bastante para impedir a coexistência. O futuro então parece condenado. Essa ótica está enraizada no povo, como algo comum e necessário. O encorajamento vem de cima, de ordens superiores. Daí se desenrolam atribuições e polêmicas.

Cercada por minas, a pequena aldeia onde a história acontece não tem televisão – exceto uma em praça pública – ou rádio para acompanhar o que acontece com o mundo. Qualquer informação veiculada, as divergências logo são sabotadas pelas mulheres que fazem de tudo para impedir alvoroços. Aquém do resto do país, distanciados da tecnologia, abarcam seus costumes num marasmo quase primitivo, embora tenham um ideal social bem definido, apesar da estremecida relação. Transitando por ali está Nadine Labaki vivendo Amale, uma das que estão em defesa da boa convivência e respeito. Mas há muita pouca coisa para essas mulheres fazerem quando o sectarismo incendeia.        

Ilustrado com a beleza tradicional daquela terra e banhado pelos costumes e tradições religiosas, o filme é bem capturado pela boa fotografia que exalta o sol abrigando esse povo, cada vez mais inseguro. Este ainda se levanta. E como o clima já é suficientemente pesado por seu significante, a diretora aposta na comédia e busca explicitar amenamente os ocorridos, demonstrando com avidez o quão infeliz são alguns subjugados pelo modelo lógico da crença, no profundo pesar da memória daqueles que se vão a troco de nada. O orgulho é representativo, tal como a estupidez. Labaki arrebata isso. 

* Crítica originalmente publicada em http://www.cineplayers.com/critica.php?id=2548 

sábado, 1 de setembro de 2012

Proseando sobre... Os Mercenários 2


“Os Mercenários” lançado em 2010 veio com a promessa de reunir grandes astros dos longas de ação dos anos 80 e trazer a tela toda sua hegemonia e performance clássica que empolgou muita gente naqueles anos. Infelizmente foi uma decepção. Eis que chega sua continuação angariando ainda mais gente, reunindo toda uma equipe de brucutus numa nova missão. Ahhh... esse sim se fez impactante, não pela história contada, mas pela realização e homenagem, pelo divertimento e brincadeira, e mais, pela metalinguagem proposta garantindo momentos de muito humor e um clima de nostalgia melancólico com a constatação desses heróis envelhecidos. O que não significa que eles não possam tocar o terror! E tocam! Eletrizam!

A abertura do filme é um autêntico cartão de visitas do que a obra trará em seu desenrolar. Muita violência e brutalidade, a testosterona quase sai pelos poros de seus personagens que empunham armas como se estas fossem extensões de seus corpos, destruindo tudo e a todos que funcionam como potenciais ameaças, deixando rastros de sangue e violência pelo caminho de maneira estranhamente cômica, impactante, capaz de fazer os fãs delirarem com tal abertura monumental. Um exagero, um exagero notável, bem realizado e recheado de frases de impacto – algumas escritas nos carros e caminhões. Que filme é esse? Um salto há 30 anos atrás. De fato estamos diante dos donos dos rostos mais marcantes do cinema de ação. E tome referências!

O roteiro escrito por Sylvester Stallone juntamente a Richard Wenk refaz caminhos comuns de produções do gênero com um maniqueísmo prático, além de ser um banho de alusões aos seus atores, algo que notadamente garante boas risadas do público, especialmente naqueles que conhecem cada um deles. Aí se solidifica o exercício da metalinguagem, proposta adequada do filme que não se leva a sério, brinca com si mesmo fazendo emergir na mente lapsos de outros longas do gênero como “Rambo”, “O exterminador do Futuro” e “Soldado Universal”. E o que dizer de manejos e dicções, como Jean-Claude Van Damme vivendo o vilão Vilain que, em certa altura, dá um chute nos transportando aos seus tempos de glória, recordando “O Grande Dragão Branco” e “Desafio Mortal”.

Pancadaria, tiros, bombas, caos. Atributos masculinizados que aturdem durante todo o filme. No entanto ainda há alguma profundidade, ou pelo menos tentativa, já que Stallone, não satisfeito com o empenho enérgico da obra, busca trazer alguma reflexão triste sobre sua condição enquanto mercenário – o que sugere, talvez, um desabafo pessoal sobre seu serviço prestado ao cinema comercial onde já não é tão exigido. Algo próximo de “JCVD” onde Van Damme discursa ressentidamente a respeito de seu passado. Se há uma projeção intimista empregada no longa, não se sabe, mas há o protagonismo evidente de Stallone com seu Barney Ross ao lado de Lee Christmas (Jason Statham), ambos tem os personagens melhores trabalhados. Também participam da brincadeira caras como Jet Li, Dolph Lundgren, Terry Crews, Liam Hemsworth e Randy Couture. 

Anteriormente mal dirigido pelo próprio Stallone, essa sequência escapou pelos dedos do intérprete de “Rocky Balboa” e ficou a cargo de Simon West, diretor responsável pelos filmes “Assassino a preço fixo”, “Con Air” além do ruim “Lara Croft: Tomb Raider”. Ao menos em “Os Mercenários 2” compreendemos um pouco melhor o contexto da trama com a câmera mais contida e a edição sem o excesso de cortes – o senso espacial, por sua vez, é absolutamente ignorado. West cumpre bem seu papel e entrega cenas de ação expoentes com energia o bastante para não dar chance para o espectador se desconcentrar. Não é, em qualquer hipótese, uma enxaqueca narrativa como “Transformers”. É de fato um filme que mostra o potencial de seus atores, coroando com presenças ilustres e cenas pra lá de empolgantes. Arnold Schwarzenegger e Bruce Willis juntos causam um furor. Porém há alguém que vem potencializar a ação, um tal lobo solitário, Booker, vivido por ninguém menos que Chuck Norris! Engraçadíssimo. Ele é um dos alívios cômicos da narrativa, fazendo jus a sua fama ganha na internet. E suspeito que este teve 100% de acertos nos tiros, não sofreu nenhum arranhão e tampouco perdeu uma gota de suor. 

Ao final é isso, diversão descompromissada, uma homenagem a esses caras que deixaram uma marca no cinema cujos feitos dificilmente serão esquecidos, uma vez não fazerem parte dos sucessos passageiros a qual estamos expostos atualmente. E se tanta ação parece ser algo notoriamente comum, ainda mais pensando nos vários exemplos lotando as prateleiras das locadoras, ao menos esse tem a nostalgia necessária para um filme funcionar organicamente com os espectadores. Se ao final não obtivermos qualquer aprendizado, reflexão ou não presenciarmos grandes atuações, ao menos a diversão é inegável, nos divertimos juntamente aos atores que claramente estão satisfeitos em fazer parte dessa movimentada recreação!