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quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Proseando sobre... Jack Reacher - O Último Tiro



Um bom roteiro impede “Jack Reacher - O Último Tiro” de ser um mero filme de personagem estrela. A presença de Tom Cruise reforça a indagação, visto o histórico de obras que o têm a frente, por exemplo na franquia “Missão: Impossível”. Costumo questionar os caminhos diferentes que Cruise e Brad Pitt seguiram desde que despontaram como galãs do cinema, com o primeiro tornando-se astro de grandes filmes cujo conteúdo é discutível; enquanto o segundo tornou-se um grande realizador e produtor, além de ser um bom ator ligado a interessantes projetos. Certamente não é essa a questão proposta aqui, mas é relevante, dada a situação de Tom Cruise, aos 50 anos, não figurando como um mero galã, mas alguém que está percebendo o tempo passar dentro da história e na vida. Ótimo no papel, dedicado como sempre, esse é um de seus mais notáveis trabalhos de constituição de personagem. 

Baseado no livro “O tiro” de Lee Child, o filme carrega um mistério a respeito de um crime que leva diretamente a identidade de um único culpado, com todas as provas caindo sobre um ex fuzileiro, James Barr (Joseph Sikora), que fora internado imediatamente após ser gravemente agredido na prisão. Ele chama pelo nome Jack Reacher num bilhete. Por quê? Para quê? É o que as autoridades questionam, especialmente uma advogada, Helena Rodin (Rosamund Pike). Reacher (Cruise) subitamente aparece, homem cujo histórico indica um militar condecorado, tornou-se um andarilho sem destino, rodando o país sem ser pego ou descoberto. Alguns detalhes dizem muito sobre ele. O personagem é explorado pelas ações adotadas, e logo compreendemos suas convicções e filosofia desprendida, baseando a vida na justiça e verdade, embora algumas de suas escolhas aparentam ir contra tais princípios.  

Um homem paga um estacionamento e posiciona-se em frente a um parque portando uma arma. Ele observa cuidadosamente as ações de várias pessoas caminhando, mirando-as, como se procurasse um alvo. Passando de uma a uma, o atirador seleciona e puxa o gatilho, matando 5 e desperdiçando uma bala. 5 mortos sem razões, desconhecidos, sem ligações. Um crime brutal e aparentemente passional leva a uma busca pelo responsável, restringindo a uma pequena lista de prováveis assassinos, já que o atirador é, certamente, um profissional. Pistas são largadas aos montes. 

Christopher McQuarrie é o diretor que também roteiriza, trabalhando com grandes detalhes neste filme que conta com mais de 120 minutos de duração. O cineasta que venceu o Oscar por “Os Suspeitos” – aquela genial obra dos anos 90 cujo final permanece inabalável – cria um ambiente de inquérito motivado por suspeitas num terreno em que ninguém está livre. O próprio protagonista é posto a prova pelo espectador que se atém a pormenores. Essencialmente, o personagem central agrada – longe de compará-lo com o original concebido na obra literária, uma vez que não a li – por sua execução. É divertido acompanhá-lo, já que reúne o melhor de cada espião famoso do cinema e da literatura, apossando-se de uma expressão austera e uma seriedade inteligente, carregando uma única peça de roupa, o que demonstra desamarras sociais.    

Tom Cruise também produz a fita e se torna marco de um filme de vários interesses, oculto até seus últimos momentos, colocando a prova a veracidade do caso, já que os fatos se quebram pelo conhecimento restrito a experiência de um ser semelhante em profissão, caso do herói e o ferido Barr. Tem boa ação, não decepcionando fãs do gênero com cenas longas de embates e perseguição, ao passo que trabalha bem como um enérgico filme de espionagem, ultrapassando clichês que figurariam como um problema graças ao bom desenvolvimento dos personagens. E ainda tem o diretor Werner Herzog atuando com sua voz inconfundível vivendo o destemido Zac – os cinéfilos não irão demorar para celebrar tal aparição cult e melhorar qualquer conceito que vinha tendo relativo ao filme quando ouvi-lo proferir algumas palavras. Robert Duvall e Richard Jenkins fecham o elenco desse considerável longa policial.


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Diário Cinéfilo: Django (Django, 1966)

Dia: 06 de Janeiro

7- Django (Django, 1966)

Na espera pelo novo filme do Tarantino, “Django livre”, conferi o clássico “Django” com Franco Nero. Aliás, Nero estará no novo do Tarantino. Nada mais justo. O filme começa com o protagonista arrastando um caixão. O que há dentro é uma incógnita, mas parece ser muito importante. Cena clássica com esse homem vestido de preto sob o sol transitando sobre um mundo abominável, atravessando fronteiras étnicas e culturais de um povo que vive em conflito sangrento. Sem sorrisos e sem medo, lá se vai um homem apenas com uma arma em punho desferindo tiros certeiros deixando rastros de sangue. Essa é a figura do herói do western, tantas vezes copiada e remodelada, concepção italiana de uma figura viril que atravessa o interior dos Estados Unidos. O filme se desenvolve cheio de reviravoltas e surpresas, instigando o espectador e influenciando a posteridade das décadas seguintes. O trabalho do diretor Sergio Corbucci é um marco certeiro da cultura do spaghetti western. É o cinema em evolução, tecnicamente e narrativamente, acompanhando o avanço tecnológico e estabelecendo figuras célebres que seriam revisitadas no futuro por sua importância em gênero. “Django” teve seqüências questionáveis e logo dará as caras na telona.

Direção: Sergio Corbucci
Elenco: Franco Nero, José Bódalo, Loredana Nusciak e Ángel Álvarez

sábado, 1 de setembro de 2012

Proseando sobre... Os Mercenários 2


“Os Mercenários” lançado em 2010 veio com a promessa de reunir grandes astros dos longas de ação dos anos 80 e trazer a tela toda sua hegemonia e performance clássica que empolgou muita gente naqueles anos. Infelizmente foi uma decepção. Eis que chega sua continuação angariando ainda mais gente, reunindo toda uma equipe de brucutus numa nova missão. Ahhh... esse sim se fez impactante, não pela história contada, mas pela realização e homenagem, pelo divertimento e brincadeira, e mais, pela metalinguagem proposta garantindo momentos de muito humor e um clima de nostalgia melancólico com a constatação desses heróis envelhecidos. O que não significa que eles não possam tocar o terror! E tocam! Eletrizam!

A abertura do filme é um autêntico cartão de visitas do que a obra trará em seu desenrolar. Muita violência e brutalidade, a testosterona quase sai pelos poros de seus personagens que empunham armas como se estas fossem extensões de seus corpos, destruindo tudo e a todos que funcionam como potenciais ameaças, deixando rastros de sangue e violência pelo caminho de maneira estranhamente cômica, impactante, capaz de fazer os fãs delirarem com tal abertura monumental. Um exagero, um exagero notável, bem realizado e recheado de frases de impacto – algumas escritas nos carros e caminhões. Que filme é esse? Um salto há 30 anos atrás. De fato estamos diante dos donos dos rostos mais marcantes do cinema de ação. E tome referências!

O roteiro escrito por Sylvester Stallone juntamente a Richard Wenk refaz caminhos comuns de produções do gênero com um maniqueísmo prático, além de ser um banho de alusões aos seus atores, algo que notadamente garante boas risadas do público, especialmente naqueles que conhecem cada um deles. Aí se solidifica o exercício da metalinguagem, proposta adequada do filme que não se leva a sério, brinca com si mesmo fazendo emergir na mente lapsos de outros longas do gênero como “Rambo”, “O exterminador do Futuro” e “Soldado Universal”. E o que dizer de manejos e dicções, como Jean-Claude Van Damme vivendo o vilão Vilain que, em certa altura, dá um chute nos transportando aos seus tempos de glória, recordando “O Grande Dragão Branco” e “Desafio Mortal”.

Pancadaria, tiros, bombas, caos. Atributos masculinizados que aturdem durante todo o filme. No entanto ainda há alguma profundidade, ou pelo menos tentativa, já que Stallone, não satisfeito com o empenho enérgico da obra, busca trazer alguma reflexão triste sobre sua condição enquanto mercenário – o que sugere, talvez, um desabafo pessoal sobre seu serviço prestado ao cinema comercial onde já não é tão exigido. Algo próximo de “JCVD” onde Van Damme discursa ressentidamente a respeito de seu passado. Se há uma projeção intimista empregada no longa, não se sabe, mas há o protagonismo evidente de Stallone com seu Barney Ross ao lado de Lee Christmas (Jason Statham), ambos tem os personagens melhores trabalhados. Também participam da brincadeira caras como Jet Li, Dolph Lundgren, Terry Crews, Liam Hemsworth e Randy Couture. 

Anteriormente mal dirigido pelo próprio Stallone, essa sequência escapou pelos dedos do intérprete de “Rocky Balboa” e ficou a cargo de Simon West, diretor responsável pelos filmes “Assassino a preço fixo”, “Con Air” além do ruim “Lara Croft: Tomb Raider”. Ao menos em “Os Mercenários 2” compreendemos um pouco melhor o contexto da trama com a câmera mais contida e a edição sem o excesso de cortes – o senso espacial, por sua vez, é absolutamente ignorado. West cumpre bem seu papel e entrega cenas de ação expoentes com energia o bastante para não dar chance para o espectador se desconcentrar. Não é, em qualquer hipótese, uma enxaqueca narrativa como “Transformers”. É de fato um filme que mostra o potencial de seus atores, coroando com presenças ilustres e cenas pra lá de empolgantes. Arnold Schwarzenegger e Bruce Willis juntos causam um furor. Porém há alguém que vem potencializar a ação, um tal lobo solitário, Booker, vivido por ninguém menos que Chuck Norris! Engraçadíssimo. Ele é um dos alívios cômicos da narrativa, fazendo jus a sua fama ganha na internet. E suspeito que este teve 100% de acertos nos tiros, não sofreu nenhum arranhão e tampouco perdeu uma gota de suor. 

Ao final é isso, diversão descompromissada, uma homenagem a esses caras que deixaram uma marca no cinema cujos feitos dificilmente serão esquecidos, uma vez não fazerem parte dos sucessos passageiros a qual estamos expostos atualmente. E se tanta ação parece ser algo notoriamente comum, ainda mais pensando nos vários exemplos lotando as prateleiras das locadoras, ao menos esse tem a nostalgia necessária para um filme funcionar organicamente com os espectadores. Se ao final não obtivermos qualquer aprendizado, reflexão ou não presenciarmos grandes atuações, ao menos a diversão é inegável, nos divertimos juntamente aos atores que claramente estão satisfeitos em fazer parte dessa movimentada recreação!