quinta-feira, 18 de abril de 2013

Proseando sobre... Chamada de Emergência



Poderia funcionar como um thriller, e talvez como um dramalhão a respeito das operadoras de centrais policiais que atendem diariamente ligações com queixas de emergência. Poderia ser tanta coisa, como qualquer filme que possua um bom argumento, mas cujo roteiro põe tudo a perder. “Chamada de Emergência” até bebe das duas fontes mencionadas, sendo mais feliz quanto ao thriller, já que possui um serial killer que mata suas vítimas impiedosamente. Seu intuito é – tentar – restituir uma ausência da infância.
  
Jordan (Halle Berry) é uma dessas operadoras. Certo dia atende uma ligação de uma garota implorando por ajuda, já que há um estranho em sua residência lhe ameaçando. A personagem de Berry dedica o tempo em benefício da garota, assumindo o controle da situação com profissionalismo e experiência. No entanto um erro foi fulminante e bastou para condenar a vítima. Uma adolescente morre tragicamente. Tem-se um trauma que afasta a profissional por um tempo de seu ofício. A tendência do filme é explanar esse afastamento e o trauma emocional vivenciado pela protagonista. O diretor até esboça um aprofundamento com planos que remetem a um drama de situação. Não demora pra este ser descartado. Meses se passam, motivo pra compreendermos que a situação não mudou e Jordan ainda sofre. Temos outra história? Quase isso. 

Querendo fugir da realidade enfrentada no passado, a operadora se manteve na mesma empresa e tornou-se instrutora, porém não demorou para que outra ligação caísse em seu colo. A situação é praticamente a mesma. Chance de reviver o pretérito e aceitá-lo. Aí entra uma das virtudes do filme: Halle Berry! A atriz garante algumas boas cenas com dicções desesperadas e expressões inseguras, procurando se dominar. De outro lado aparece Abigail Breslin, a garotinha de “Pequena Miss Sunshine”, que parece ter sido importada de algum filme de terror oitentista. Sua composição é despótica, tendendo a gritos e sussurros. Isso lhe dá gás para uma reviravolta no ato final que... mencionarei em breve. 

A história faz coro com obras análogas: “Por um fio” e “Celular”, por exemplo. As duas são mais satisfatórias. O argumento aqui é um pouco mais atrativo, simplesmente por se ater a uma condição real e rotineira de profissionais que passam os dias atendendo ligações emergenciais das mais variadas: desde ocorrências triviais como morcegos entrando dentro de quartos até seqüestros ou assassinatos. Vidas por uma linha, basicamente. Pena não ser melhor desenvolvido nesse âmbito sem dispensar o potencial thriller, escolhas o levaram a outros caminho e consequentemente outros resultados finais que não são dos mais lisonjeiros.

Algumas cenas predispostas a violência dão dimensão ao perigo que a menina seqüestrada, Casey (Breslin), está passando. As razões são inverossímeis, uma desculpa indigesta. Isso é o que menos parece preocupar seu diretor ao final. Aliás, o final é duro de se levar a sério. Brad Anderson, cara que filmou o estupendo “O operário”, tem um roteiro ruim em mãos, não há muito o que fazer. Este roteiro parece ter a intenção de danar tudo e querer impressionar! Acompanharemos um plano de vingança alterando todos os fundamentos. Na cena anterior aos créditos finais, me veio a mente um “Game Over” enquanto seguia confuso sobre o que tinha assistido. Talvez uma versão econômica de Jogos Mortais? Tanta pretensão aniquila bons projetos! E condena bons nomes, como o próprio diretor que ainda concebe algumas boas cenas – especialmente aquelas em que Casey está presa no porta malas de um carro em movimento. E a bandeira dos Estados Unidos surge para terminar de enterrar o filme. Quanto heroísmo patriótico!


quarta-feira, 17 de abril de 2013

Proseando sobre... A Busca



Tratando substancialmente dos percalços do fim de um casamento e das conseqüências disso na vida de um adolescente testemunhando a ruína da relação entre os pais, esse “A Busca”, filme do estreante Luciano Moura, é infeliz em esboçar o arco dramático da história. Pouca coisa segura o drama arrastado que leva um pai de família, médico, a rodar o Brasil atrás do filho desaparecido, que saiu de casa voluntariamente e pegou a estrada com um cavalo. História estranha? O desenrolar dela é ainda mais. Também é previsível, dada as apresentações do roteiro em uma cena inicial. Me adiantei demasiado, toquei na essência desse longa focado na busca enquanto outras coisas se desconcertam caoticamente e se estruturam no desespero. Para manter a nossa atenção até o final, somente o desempenho de Wagner Moura.  

Um casal de médicos, Théo (Moura) e Branca (Mariana Lima) estão prestes a por um ponto final na união. Inevitavelmente, as conseqüências caem sobre Pedro (Brás Antunes), de 15 anos. O garoto é ótimo com desenhos, talento nunca notado por seu pai. Há ainda uma lacuna, o avô de Pedro, homem ignorado por Théo. Os motivos? Não importam. Em cima disso, fica no ar os fundamentos dessa relação, ou melhor, o que ocorrera que tão fortemente a comprometera. Para entrarmos na história, uma expressão artística arquitetada: uma casa escura, gritos e destruições. Foco nas cenas, em seus detalhes. O diretor preza minudências. O desenrolar se inicia dali. O portão é fortemente batido, porém se mantém aberto, simbolicamente apresentando uma possibilidade de retorno.  

Bons detalhes, mas há preocupação demais com eles. Essa atenção minuciosa atrapalha o desenvolvimento do filme, já que algumas cenas parecem episódicas, quase que deslocadas, às vezes extremistas. Temos ciência do que será o filme, e de suas prováveis conjunturas. Como é vendido é errôneo, apelo comercial barato. Até onde um pai pode ir para encontrar seu filho? As constatações vão além, não temos acesso a metade delas, a não ser lidar com hipóteses da boa cena inicial. A dinâmica é outra, já que não se trata de seqüestro, mas fuga. Isso nem deve ser encarado como spoiler, já que tal constatação acontece bem antes da primeira metade da projeção. Até onde é a função do pai? Ou o que é? Questão mais relevante, porém sem o mesmo impacto da indagação oficial. Há quem vai sentir falta de armas e carros explodindo.  

Como anteriormente mencionado, se há algo que merece ser destacado é atuação de Wagner Moura, um grande ator que convence vivenciando um tipo fragilizado – muito embora demonstre rispidez como defesa – pelas circunstâncias de um casamento desarranjado, culminando na aflição devido ao repentino desaparecimento de seu filho adolescente. A relação entre os dois é testada numa conversa que termina em briga. Nela compreendemos o distanciamento assistindo uma idealização compensatória: o intercâmbio até a Nova Zelândia oferecido pelo pai como garantia de um futuro promissor. Acompanhamos a tal busca interessados, não pela proposta do roteiro que se enreda em frações de desencontros, mas pela representação do ator em ascensão. O resto do elenco quase desaparece, restando um Lima Duarte cativando mais pelo carisma e respeito conquistado através dos anos do que pelo papel, já que pouco tempo lhe é reservado. Diante disso, o artista, tal como representado por Lima Duarte, parece ser vislumbrado transposto ao resto do mundo, apenas com seus livros e suas produções, e ouvindo Wagner. Mantém-se afastado da civilização como um refúgio.

“A Busca” torna-se um roadmovie a partir do momento que Théo sai de casa e adentra nas estradas desbravando pedaços do Brasil que não costumam ser visitados. Contemplamos os paraísos desta terra a partir de caminhos desconhecidos e povos silenciados. Há um clima de mistério balanceando a narrativa. Algumas cenas nos levam a lugar nenhum. O diretor busca o foco novamente, no desaparecimento e em suas obscuras razões. Gênero por gênero, tratando-se de roadmovie, nos faz lembrar o recente “Colegas”, do Marcelo Galvão, filme com um trio de adolescentes com síndrome de down que sai pelo sul do país chegando até a Argentina. De melhor, e ainda nesse âmbito, embora a ótica seja outra, vale ressaltar a obra de Charly Braun, “Além da Estrada”. Todas as três traz relações humanas desordenadas, endossando auto descobertas em outros rumos sob o sol. A praia, como em tantos outros filmes, sugere libertação. Truffaut chegou nela, Walter Salles e incontáveis outros também. Braum e Galvão passaram por ela. Luciano Moura não poderia perder o mergulho. 


sexta-feira, 12 de abril de 2013

Proseando sobre... Os Croods



Depois do ótimo “Como treinar o seu Dragão”, o diretor Chris Sanders abandonou os vikings e se concentrou em outros povos, nos homens de Neandertal. Juntamente a Kirk De Micco, idealizou esse “Os Croods”. Vale evocar, apenas para delinear o contexto, de “Os Flintstones”, sucesso absoluto de público em dezenas de países, que trouxe um viés interessante sobre a idade da pedra, conquistando fãs pela crítica social imposta nos episódios. Uma menção honrosa a uma referência de gênero. Com esse “Os Croods”, a coisa é um pouco diferente, não observamos uma sociedade capitalista como a vista na séria da Hanna-Barbera, assistimos um grupo familiar que resiste as ameaças de feras extintas. A palavra ‘medo’ é o lema do patriarca e líder, Grug. Para ele, o medo garante a sobrevivência. A família inteira se esconde dentro de cavernas saindo apenas para caçar. O exterior é uma incógnita perigosa. Todos rechaçam qualquer novidade. 

Como um tradicional personagem da Dreamworks, a protagonista, a menina Eep, irá desafiar seu meio em benefício de uma conquista pessoal – ou coletiva, dentro da lógica dos projetos do estúdio. Mas aqui o argumento está assegurado pelas circunstâncias da sucessão de acontecimentos de tal época. A menina adolescente irá contra todos os preceitos duramente defendidos pelo pai, as tais ações que repelem ameaças. Fuga. Grug acredita que estes preceitos tradicionais são os responsáveis por garantir-lhes a vida, já que outras tribos foram dizimadas quando se expuseram sob a lua. 

O pavor ao novo ecoa em várias representações, fazendo coro com o mito da caverna de Platão, ilustrado na narrativa enquanto alusão ao desejo de descobertas tencionados pela heroína. O lado de fora, o desprendimento do passado – do que essencialmente são – em benefício da evolução, como a cena em que as mãos dos personagens soltam uma rocha para se arriscar no mundo, é um curtíssimo momento que edifica a obra, não se tratando unicamente de mais uma animação pra buscar mera recreação, mas ser minimamente relevante enquanto um registro histórico – embora esteja longe, longíssimo, de ser infimamente fiel. A cena se repete duas vezes com personagens distintos – geracionais –, demonstrando o quão difícil fora tal processo de libertação através do tempo. 

Vai ainda mais longe quando o herói grosseiro – um Shrek das cavernas – percebe que sua força bruta já não é o bastante, obrigando-se ao uso do raciocínio, fundamental para a salvação da espécie, encontrando ferramentas que possam ser usadas em vantagem. Acompanhamos o processo de seleção natural no meio do caos da separação continental. Todos saem em busca da luz, o sol como expoente, distante e inalcançável. Pensa-se no domínio sobre ele com a descoberta do fogo. Isto é representado por um outro personagem apresentado após conhecermos devidamente o universo Neandertal.  

A Dreamworks, mais do que nunca, investiu na concepção de seus personagens, caracterizando seus trejeitos e dicções, desde o modo de falar até o de se expressar, sem delicadezas. O modo como a família se movimenta, com as mãos tateando o chão, semelhante a um símio, refuta o modelo visto no garoto solitário – este já adaptado as condições terrestres –, o corajoso Guy, que os Croods encontram durante uma fuga inevitável, já que Pangeia estava rachando, comprometendo o refúgio nas montanhas. É Eep quem descobre o rapaz após decidir dar uma escapada noturna, imediatamente depois de perceber uma estranha luz dançando na escuridão. O romance logicamente acontece, porém sem tanta força para tirar o foco da luta por sobrevivência, funcionando com gags e boas piadas. Também é motivo para Grug, o paizão protetor, desgostar do estranho Guy. Conflitos sobram.   

A elaboração grática da Dreamworks Animation é outro ponto considerável. O filme é visualmente bonito, caprichado e detalhado, tanto no cenário que trazem grandes florestas e cânions até os distintos personagens. Alguns vícios narrativos se mantém, como a fórmula de trazer um animal que garanta a simpatia do público, se responsabilizando por 2 ou 3 cenas deslocadas e tornar-se querido pelas crianças. Há ainda uma cena lindíssima de arte rupestre, quando Grug deixa algumas marcas nas rochas contando sua história. Basicamente o filme é isso, uma projeção da transição temporal e cultural de um determinado povo, de maneira recreativa e criativa, atestando o tempo que, quando presos, julgavam o perigo da inovação e se mantinham escondidos dentro da caverna, até testemunharem a realidade, extinguindo a ilusão que os mantinha oprimidos. O grupo então segue em progresso rumo a lucidez diante o obscurantismo.       


terça-feira, 2 de abril de 2013

Proseando sobre... G.I. Joe: Retaliação



John Chu, diretor de “Se ela dança eu danço 2 e 3” e de “Justin Bieber: Never Say Never” – ?????? – pegou as rédeas da franquia “G.I. Joe” que começou com o fracassado “A Origem de Cobra” em 2009. Agora temos uma segunda parte renovada, intitulada “Retaliação”, que muda totalmente seus protagonistas, mantendo unicamente Channing Tatum, Byung-hun Lee e Ray Park. Grandes nomes como Dwayne Johnson e Bruce Willis chegam para reforçar com seus prestígios. Já a história não é lá um reforçador. O foco é a destruição megalomaníaca e as pirotecnias, coisas costumeiras. Entra também a comédia pastelão, um tempero como alívio a abundância de violência. Nada de extraordinário ou de ordinário. Mera diversão.  Mero mero.

As organizações Cobra continuam querendo destruir o mundo com armas de imenso poder de dizimação. Dessa vez ela se alia ao governo dos Estados Unidos de modo cruel. Como estratégia para o sucesso, a organização destrói os G.I. Joe numa emboscada, e faz parecer que os caras na verdade eram traidores da pátria. Sem oponentes, dominam a Casa Branca. No entanto alguns sobrevivem a armadilha e não ficam apenas para contar a história, mas para desmascarar os envolvidos no plano e restabelecer o poder do país para finalmente salvar o mundo. Paralelamente rolam mais duas tramas: a amizade entre Duke (Tatum) e Roadblock  (Johnson) destruída; e o embate particular entre os ninjas Storm Shadow e Snake Eyes. As razões para esse conflito? Não será nessa parte que saberemos.

“Retaliação” deveria ter saído em 2012, mas decidiram converte-lo em 3D e atrasou o lançamento. Algumas cenas extras com os personagens de Tatum e Johnson foram acrescentadas nesse tempo, já que imaginaram após sessões fechadas que talvez essa amizade fosse uma das únicas coisas relativamente interessantes do longa. O fato é que o insucesso da primeira empreitada não pode ser repetido, renderia o enterro da franquia. Então tentam de tudo, mesmo que precisem seguir a fórmula usual e já insuportável. Também restam absurdos exibicionistas: o arsenal engenhoso surpreendente, a prisão subterrânea com os presos e a escapada de um dos ninjas que consegue fazer parar os próprios batimentos cardíacos. Feito desmedidamente para demonstrar o poderio da produção, o melhor acaba ficando por conta do clichê habitual, porém nunca desinteressante: a garota vestida com um vestido vermelho apertado que arrebata os homens por perto. E o
público também.

Bruce Willis surge num papel cômico e solta algumas frases para o deleite de seus fãs. A ação acontece o tempo inteiro, a narrativa é enérgico. Tem seu grande momento quando os ninjas se enfrentam, culminando numa fuga por montanhas, algo verdadeiramente atraente. Os bonecos da Hasbro, ou melhor, os comandos em ação como são conhecidos pelos brasileiros, tiveram com essa sequência maior dignidade comparado ao fiasco horrendo que fora o primeiro filme. Ainda assim terminou medíocre como outras adaptações parecidas – por exemplo, “Battleship” – vem terminando.