quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Proseando sobre... Contra o Tempo


Modesto comercialmente, mas dotado de ingredientes típicos de Blockbusters, esse “Contra o Tempo”, filme que demorou para chegar aos cinemas brasileiros, se apropria de elementos narrativos hollywoodianos para contar uma boa história sobre um atentado num trem. O foco não é o desastre que vitimou centenas de pessoas, mas como identificar o terrorista responsável pela tragédia. Longe dos clichês do gênero e do modelo de investigação vigente em filmes de ação pulsantes, esse trabalho busca hipóteses científicas para chegar onde quer: entrar no corpo de uma das vítimas para que, em oito minutos – tempo da memória a curto prazo –,  indentificar o responsável e evitar novos ataques. Pura tensão em Chicago. 

O mundo seria diferente se tal prática existisse? A questão é relevante à narrativa que se preocupa em acentuar críticas sociais ao próprio país, levantando reflexões passageiras a cerca das guerras e do homem como objeto nesse meio, em defesa da pátria, entregando sua própria vida, ganhando uma medalha e qualquer outro reconhecimento póstumo. E o filme vai mais longe, mergulha em hipóteses oníricas e metafísicas, cita física quântica e idealiza realidades paralelas em atos repetidos, mas de funções diferentes e direcionamentos cada vez mais enérgicos. A direção do promissor Duncan Jones de “Lunar” estabelece um filme rico em argumentos, embora não explore nenhum com totais êxitos, e explana uma história ágil capaz de capturar vários tipos de público.

A história é sobre Colter Stevens (Jake Gyllenhaal), piloto envolvido com a guerra, preso no que parece ser uma câmara fria. As informações iniciais são poucas para este homem quanto para nós. Stevens não entende a razão de estar ali, frente a um monitor exibindo uma desconhecida lhe passando missões, Colleen Goodwin (Vera Farmiga), e fica ainda mais confuso quando se percebe no corpo de um outro homem, vivendo uma cena breve, dentro de um trem, até a explosão deste. Essa cena se repete várias vezes com o engajamento do piloto em descobrir onde está o terrorista ao mesmo tempo que busca a revelação sobre si naquele espaço novo e assustador. Há ainda uma estranha atraente agindo com bastante intimidade, Christina Warren (Michelle Monaghan, sem muitas funções na história a não ser oferecer um parêmetro romântico).

Duncan Jones vem de elogios, ganhou um status cult por sua obra anterior e todos aguardavam um novo trabalho. As fontes de discussão de “Contra o Tempo” são inesgotáveis, ainda mais pensando que recentemente trabalhos como “A Origem” e “Reencontrando a Felicidade” trouxeram sugestões análogas. Bom de se conferir, e mesmo que em alguns instantes perca o foco caindo num dramalhão – o que não é mal –, o filme consegue estabelecer um vínculo com o cinema popular ao mesmo tempo que trabalha para não ser apenas mais um entretenimento passageiro e esquecível.

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terça-feira, 25 de outubro de 2011

Proseando sobre... Não tenha medo do Escuro


 Começou com um teor fantástico, assombrando, utilizando de pequenas criaturas saindo da escuridão trazendo horror, alimentando-se de dentes de crianças. A fisiologia desses seres remete a arte de seu produtor, Guillermo del Toro, do estupendo “O Labirinto do Fauno”. Afinal, como não recordar do Homem Pálido, devorador? Em volta de escuridão, o que parece uma maldição em dias atuais é herança do século XIX, cuja estilização gótica de um pintor salienta a loucura do realizador, através de imagens pavorosas que ajudam contar a história a qual o filme se desenvolve. O casarão escolhido guarda segredos e brinca com um medo comum, não compartilhado, mas real diante a ameaça que a cegueira turva guarda: a escuridão.

“Não tenha medo do Escuro” é uma refilmagem de um filme concebido para a televisão nos anos 70. A direção é de um estreante, o quadrinista Troy Nixey, visivelmente influenciado pelas obras de Del Toro, que aqui também assina o roteiro juntamente a Matthew Robbins. O diretor explora sem economias a sombra e a angústia que essa traz, apoiando-se na expectativa pela revelação das criaturas, sempre perigosas empunhando objetos cortantes. Essa revelação, por sua vez, funciona na espera, mas perde força quando acontece, o que gerará desconforto em boa parte de seus espectadores aguardando algo verdadeiramente assustador. Não que os pequeno monstros não ofereçam devido alarme, mas as pinturas concernentes a eles dão um aspecto brutal e consequentemente bem mais apavorante.

A atmosfera obscura é inegável, captando pequenos feixes de luz dando a impressão do mal escondido, a espreita e repentino. A fotografia muito contribui para o alcance sensorial da narrativa, sempre triste e nebulosa, ganhando cores somente quando uma luz difusa surge, a única esperança possível frente aos seres da escuridão. Sem afirmações sobre o que são essas estranhas criaturas, especulações não faltam: as fadas de “O Labirinto do Fauno” são lembradas em alguns instantes. Porém o filme tem outro atributo significativo, tão marcante nas obras de Del Toro: as crianças.

Sally Hirst (Bailee Madison, de “Entre Irmãos”) é uma menina que vai morar com o pai, Alex (Guy Pearce) e com a madrasta, Kim (Katie Holmes). Apresentada de uma maneira solitária num avião concebendo desenhos confusos e obscuros diagnosticando sua personalidade introvertida e insatisfeita, a menina vai morar no casarão o qual o pai vem restaurando. Não demora, e portas levam a lugares secretos – é a versão atual da jornada de Ofelia, também é uma caracteristica presente no sucesso espanhol “O Orfanato”, outra produção de Del Toro. As relações dispostas na casa são estridentes com a negação da menina pela madrasta e sua orientação se dá na descoberta: os sussurros das criaturas iniciam-se e perturbam.

Não é o melhor exemplar do gênero, mas sua ambientação e lógica garante arrepios. Seu finalmente não deverá agradar a todos, no entanto sua autoria é legítima, não se prende a brandura hollywoodiana envolvendo crianças, nem a carnificina gratuita de exemplares triviais da safra “Jogos Mortais”, é violento ao seu modo, o que lhe torna um autêntico filme de terror com características clássicas capazes de fazer Vincent Price sorrir. Não se compara as obras análogas semelhantes, inclui-se entre elas “A Espinha do Diabo”, portanto respeita a inteligência de seu público sem abandonar o estilo de cinema fantástico pretendido, o que já é o bastante para estar acima de obras semelhantes do gênero estocadas nas locadoras.

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sábado, 22 de outubro de 2011

Proseando sobre... Gigantes de Aço


 Tem Spielberg na produção e uma criança protagonista, vem emoção por aí. Isto é previsível, igualmente sua história. O público interessado em filmes que buscam alguma redenção ou algo sobre reconciliação terá nesse “Gigantes de Aço” uma bela pedida, uma vez que ainda contarão com um humor leve, efeitos especiais poderosos, um drama condensado e protagonistas queridos. Funciona em sua proposta, só. Os robôs até lembram mini transformers, mas felizmente o longa não atende a veia masturbatória de Michael Bay. É feito para a família e não coloca cenas de caráter libidinoso, porém não economiza nos ângulos exaltando as coxas de Evangeline Lilly.

Shawn Levy, diretor de comédias como “Uma Noite no Museu” e “Doze é Demais” entrega um de seus melhores trabalhos. Inegavelmente divertido, explana relações familiares e afeições com máquinas, humanizando-as. Assim surge Atom, encontrado num ferro velho – no que seria um cemitério –, um robô utilizado em treinamentos, servindo para resistir a ataques, mas nunca agredir os oponentes. O interesse do menino que o acolhe é comovente, fazendo o espectador recordar do ótimo “O Gigante de Ferro” de 1999 tanto na interação quanto na ligação amigável. Max (Dakota Goyo) o leva para casa sorridente, correspondendo sua paixão por aquele universo – seus olhos brilhando frente a famosos robôs, especialmente ao imponente Zeus, denuncia sua adoração. 

Quando os humanos saíram de cena, entraram as máquinas. O ex lutador Charlie Kenton (Hugh Jackman) sofreu com essa troca, mas não abandonou completamente o esporte. Investiu nos robôs, se arruinou e se endividou. Sua pilantragem bem delineada guarda negações daqueles que o conhecem e entendem seus interesses. Onde ele puder investir e faturar alguns trocados, ele fará sem pudor. O duelo de um robô com um touro numa arena foge completamente a regra estabelecida nos combates nos torneios, algo que pouco importa para Charlie propenso a feitos e lucros. As coisas mudam quando seu filho Max aparece logo após a mãe ter falecido. Legalmente, o pai é quem fica com a guarda da criança, para o desgosto do personagem de Jackman.

Desenrolando-se como um novo “Falcão - O Campeão dos Campeões” – Stallone corre o risco de perder seu lugar na sessão da tarde para esse –, “Gigantes de Aço” é diversão familiar garantida embora convencional e pra lá de presumida. Tem Hugh Jackman novamente num papel que muito pouco lhe exige, cativando o público por seu carisma e rememorando resquícios do mutante Wolverine. Em “Gigantes de Aço” não se engrandece, divide a responsabilidade com o jovem Dakota Goyo (o “Thor” jovem) que segura bem o teimoso Max. A motivação do garoto é curiosa e compreendida por sua idealização paterna, figura ausente em toda a vida, surgindo repentinamente buscando não a guarda do pequeno, mas a grana provinda de sua recusa a ele.

A relação da dupla é desenvolvida com bastante naturalidade pelo roteiro, explicitando o ressentimento de Max por seu pai, pouco interessado em sua presença. Por perder a mãe recentemente, se vê dividido entre a família da tia ou os braços de Charlie Kenton. Shawn Levy bem envolvido com bons efeitos estabelece um grau parental de descobrimento, demandando cumplicidade, o que salienta interesses: o pai vê no garoto a possibilidade de faturar uma grana, percebe o talento do menino no controle das máquinas, mas não abandona seu pessimismo quando ao que Max, estranho para ele, tem a oferecer. Deste modo busca facilitações em toda a narrativa. Já Max experiência a novidade, ser o alvo das atenções e conviver com alguém que, além de pai, converteu-se num ídolo, apesar do suplício recalcado.

Funcionando também como um exercício de motivação – o “você pode” proferido irá empolgar –, o filme impulsionará comoção no público, não somente pela proposta inocente, mas pela energia de sua narração. Movimentadíssimo, o trabalho usa o melhor do Motion Capture para dar veracidade aos robôs. A mixagem de som é outro atributo significativo. Nas cenas de combate, ouvimos as latarias amassarem junto aos movimentos das ferragens se revirando. Nessa disputa vigente ao melhor estilo “Rocky Balboa”, o resgate de um sonho se concretiza com Charlie Kenton voltando a fazer o que sempre gostou: lutar. A glorificação se dá nesse retorno aos ringues e na possibilidade de criar um lutador poderoso e um vencedor para a vida. 

Passado em 2020 quando as lutas entre os humanos perderam a graça por não atingirem um arquétipo destrutivo almejado, robôs entraram em cena em duelos cujo cume era a aniquilação total de um deles. Um deleite aos apreciadores de violência exacerbada. As apostas nesses robôs são polpudas e niveladas, o mundo inteiro está envolvido nestes combates. A insinuação é óbvia: a falta de limites com a brutalidade e a relação nossa nesse meio cada vez mais transgredido. É preciso impressionar, chocar, seja no cinema, na televisão ou nas músicas. Devido ao ceticismo do público acostumado a essas cenas, a obrigação por uma novidade leva ao exagero, ao extremo. E a sociedade do espetáculo se alimenta e espera por mais.  

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quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Proseando sobre... Os Três Mosqueteiros


A obra de Alexandre Dumas novamente é adaptada para o cinema, dessa vez em tempos da tecnologia 3D, garantindo espadas passando perto do nosso pescoço. Motivos para que coisas saltem em nossos olhos não faltam, ainda mais tratando-se de uma obra dirigida por Paul W.S. Anderson, o cara por trás da estúpida franquia “Resident Evil”, que não economiza em destruições e ruínas capazes de fazer Michael Bay e Roland Emmerich se orgulhar. Essa proposta caótica não é necessariamente um problema aqui, ela soma-se a diversão proposta e agrada quando não exagerada, porém, ao revitalizar um romance expoente da literatura mundial, espera-se um mínimo de sensatez em sua elaboração. Esta versão preenche o básico com o encontro dos quatro mosqueteiros, mas descamba numa bagunça narrativa, o roteiro é medíocre e impossibilita a obra ser maior do que é. Culpa de quem? Da necessidade da tridimensionalidade? Suspeita-se.

D'Artagnan (Logan Lerman) é um jovem ordinário, irresponsável e galanteador. Quer ser um mosqueteiro e não demora para que sua jornada em solo francês transforme-se em intrigas, inclusive com os três mosqueteiros, Athos (Matthew Macfadyen), Aramis (Luke Evans) e Porthos (Ray Stevenson). Ele ainda compra briga com Rochefort (Mads Mikkelsen), desavença que se delongará. Os quatro unidos deverão atravessar o oceano em direção a Inglaterra atrás de uma preciosa jóia roubada que incitaria desconfianças adúlteras na monarquia. Para chegar até esse objetivo, a narrativa atropela pequenas subtramas: a bela Milady De Winter (Milla Jovovich) e sua traição; o papel tartufo do Cardeal Richelieu (vivido pelo ótimo Christoph Waltz) e a dificuldade em relacionamentos do Rei Luis XIII (Freddie Fox), demasiadamente preocupado com as vestimentas, tornando-se iconicamente fútil e cômico.  

A fragilidade do texto dos roteiristas Andrew Davies e Alex Litvak é notável. Como disfarce, artifícios técnicos dão conta de mascarar equívocos – ninguém viu um dirigível daquele tamanho chegar ao palácio? – através da direção artística explanatório e das batalhas breves, mas bem coordenadas. Destaca-se o confronto entre os navios nas alturas. O figurino de Pierre-Yves Gayraud é outro atributo estético formidável no filme – e quanto humor e ironia inspiraram a concepção das roupas do Rei Luis XIII. A direção de Paul W.S. Anderson é esquemática e pouco inventiva – não há grandes inovações, a não ser a utilização de câmeras de última geração, gosto adquirido em sua última empreitada, “Resident Evil 4”. 

Bons personagens não faltam, carisma na maioria deles também não. O inglês Matthew Macfadyen assume a liderança da quadra com segurança ao passo que Logan Lerman (Percy Jackson) frustra por nunca parecer realmente brilhante empunhando uma espada, mas sim um nerd, um tipo no melhor estilo Michael Cera revoltado com piadas a seu respeito. Ainda tem Orlando Bloom como o Duque de Buckingham com pouco tempo em cena, preparando um terreno para prováveis continuações.

É um filme de combates, em certo momento dois dos personagens emobrpõem um jogo de xadrez indicando duelos. Os tabuleiros expostos com recurso de contar a história são elegantes e frisam brilhantemente a contextualização da história. Assinaladamente marcado como um filme almejando sucesso e continuações consolidando uma nova franquia, esse “Os três Mosqueteiros” ganhará a atenção de uma nova geração, e que essa se preocupe em procurar sua origem na literatura. Paul W.S. An já tem serviço garantido para os próximos anos.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Proseando sobre... Pronta para Amar


 Há uma fuga de clichês, pelo menos uma tentativa. Há a mocinha arredia a relacionamentos sérios e adepta do sexo casual. A negação quanto a amores é pesada nessa loura, a publicitária Marley Corbett (Kate Hudson), ótima profissional, mas que leva uma vida cheia de excessos. O sorriso contagiante converte-se em desgosto, acompanhando a mudança de gênero, da comédia romântica ao melodrama. É convencional, mas ainda emociona. Em obras menores e pífias, temas semelhantes se glorificaram. Essa não teve tanta sorte, mas deverá ganhar fãs pouco a pouco pelo boca a boca. O projeto é dirigido por Nicole Kassell do ótimo “O Lenhador” trazendo uma doença como cerne da trama.

Tudo ia muito bem na vida de Marley até quando fora diagnosticada com câncer. A premissa básica faz lembrar de outros filmes. Este se diferencia por tratar a doença não como uma fonte de redenção do amor ou reconciliamento, não é um “Um amor pra Recordar” da vida, felizmente! O roteiro viabiliza outras elaborações, entre elas a do papel de sua protagonista, longe dos padrões moralmente impostos em filmes do gênero, tratando-a como um modelo do ser errado, mas ela aprende uma lição, como seu título em português – horrível, diga-se de passagem – entrega. Mas há uma ajudinha nonsense para aprender alguns valores. Deus fala com ela, surge para ela e aparece na forma de Whoopi Goldberg. A atriz é alguém que Marley admirava. Piada pronta, aceitável. Até Alanis Morissette já foi Deus na telona.

O filme explana relacionamentos e não antecede suas resoluções como a maioria das comédias românticas fazem, ele vislumbra outros artifícios buscando se distanciar do local comum residente, criando uma intriga familiar, explorando a defesa de sua protagonista longe de ser um tipo de garota ideal. Também veicula os amigos próximos digerindo a notícia sobre a doença e tomando rumos distintos ao encararem a situação. O longa ainda ganha uma discussão mais acentuada, a empatia que alguns profissionais tem por seus pacientes. Naturalmente o filme não busca estender essa questão, o que é uma pena, é sua grande força nas entrelinhas, quando explora o interesse do médico Julian Goldstein (Gael García Bernal) mais do que empenhado em salvar sua paciente.

O melodrama paira no segundo ato, mas as piadas continuam, e se envolvem com metafísica, exames, amigos gays, cães e anões. A atriz Lucy Punch, destaque recente em comédias, novamente coadjuva adequadamente. A variação condensa um ritmo agradável, afinal é um filme fácil, mas difícil de se levar tão a sério. Deverá derramar lágrimas dos mais emotivos, no entanto nenhum dos atores serão lembrados por este trabalho. Até Kathy Bates está no meio e sabotada vivendo a mãe de Marley, sustentando duelos verbais com a filha. Também há a consideração sobre alguns não conseguirem transmitir emoções, inocentando-os num determinado ato. Eis uma diversão feminista a qual a protagonista é um dos piores exemplos desse universo da mulher, ao menos segundo as idéias de Hollywood.