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segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Proseando sobre... A Saga Crepúsculo: Amanhecer - O Final

Chega ao fim uma franquia rentável que causou polêmica, expurgou lágrimas de fãs e foi duramente criticada nos últimos anos pela nova mitologia sobre vampiros criada pela escritora Stephenie Meyer. Muita coisa mudou desde o lançamento de Crepúsculo (Twilight, 2008): tecnicamente a saga cresceu, fundamentalmente também, ainda que pouco, e nessa segunda parte de Amanhecer atingiu sua maturidade – narrativa e também sexual. Algo curioso, pensando no universo dos sanguessugas. Entre todos os outros, esse também é o que mais tem algo a dizer, ao contrário do vazio efêmero anteriormente dominante. Os personagens não mudaram tanto, quero dizer, de sentido. Há outras maturações importantes, como a sofrida por sua protagonista, Bella Swan, que agora é uma vampira.

Seu início, a partir dos créditos, parece nos lançar ao final dos anos 80, em algum filme do Jason ou do brinquedo assassino Chuck. O organismo de Bella (Kristen Stewart) está mudando, seu corpo mortal se converte num de vampiro com toda sua glória: imortal, beleza conservada, força e velocidade, sentidos apurados e sede quase incontrolável por prazeres carnais. Com tudo isso vem um problema: o desejo por sangue. Isso já é um argumento para se explorar, o início do filme até busca isso, porém logo abandona, abafa, simplesmente procurando fazer o espectador engolir uma desculpa qualquer para a adaptação breve de Bella. Insinuações amorosas, portanto, são retomadas. Entre essas, as falácias românticas com Edward Cullen (Robert Pattinson) e o conceito de imprinting de Jacob (Taylor Lautner) pela filha do casal vampiro, a pequena Renesmee (Mackenzie Foy). A criança cresce impressionantemente, algo que vitimou a personagem de Stewart quando essa a carregava no ventre.

Bill Condon retoma a direção. Ele dispõe de closes, abarca uma narrativa dinâmica e constitui cenas que fariam Paul W.S. Anderson ou Zac Snyder espreitar com deboche, além de investir virtuosamente em humor, com predisposição a gags, como na cena em que Jacob busca explicar algo para o pai da protagonista, o policial Charlie (Billy Burke). Ele ainda reveste o filme com violência sem tanto sangue por motivos óbvios, mas suficiente para chamar a atenção, afinal, nos lembramos do público o qual o filme é direcionado e questionamos a censura. Logo a dúvida passa. O pica-pau, por exemplo, faz coisas piores. Em cena, sobram tomadas que buscam um visual bonito, especialmente quando relacionado ao romance do casal. Apenas consegue ser kitsch. E quanto à cena de sexo, esta é terrivelmente elaborada e inspirada. Uma das piores representando vampiros transando. 

Nesse filme de atores – a importância de Pattinson, Stewart e o quase incapaz de se expressar Lautner parece ser maior que seus rasos personagens –, a narrativa tem pouca relevância. É um longa dedicado aos fãs, e cumpre isso bem. Desconheço completamente o que a obra literária traz, mas o roteiro de Melissa Rosenberg parece não acreditar no poder de discernimento e atenção de seu público. Quer explicar tudo, não conseguindo trabalhar com sugestões, iludindo com bonita fotografia, boa trilha e esclarecimentos de detalhes. Em certo momento, Edward diz que subestimou Bella, que não acreditava que ela passaria ilesa por tudo. Tal indagação pode se aplicar aos espectadores, já que os realizadores do filme o subestimam o tempo inteiro, todavia passar pela experiência de assistir e compreender é fácil. O custo é saber que há coisas melhores em cartaz e nem todas entram no circuito comercial de várias cidades. 

Alguns vampiros, já que não há outro nome para defini-los – afinal, fadas virou clichê e batido – tem poderes especiais, nomeados como dons, se aproximando da idéia de X-men. Tem até recrutamento, como o professor Xavier realiza, com o intuito de reunir testemunhas que possam provar que a menina Renesmee é filha de Bella e Edward, e não uma criança transformada, algo que é considerado um crime. O rápido crescimento da garota é feito em computação gráfica, constrangedor. Há outros efeitos especiais, como uma corrida na floresta que é particularmente risível.

Uma série de acontecimentos, engajamentos e discussões finalmente nos leva ao ato final. Esse sim é empolgante, não pela composição, já que é usual, porém pela ousadia e criatividade. É preciso reconhecer. A beleza plástica desse ato, uma batalha num solo frio é de notável arrojo técnico, com a violência preponderando entre vampiros e lobisomens, frente aos Volturi liderados por Aro (Michael Sheen, o melhor em cena, claramente se divertindo com seu papel) vindo dizimar a família Cullen graças a um mal entendido, o qual seria ridículo lembrar aqui. Dakota Fanning novamente dá as caras, sem muito a dizer, a não ser um quase inaudível “pain”. Esse ato bem realizado poderia fechar a franquia com dignidade e surpresa positiva, só que não. Nova reviravolta e... volta a ser a saga Crepúsculo. Felizmente está terminada.

* Crítica originalmente publicada em http://www.cineplayers.com/critica.php?id=2547

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Proseando sobre... Branca de Neve e o Caçador

Conto imortalizado dos irmãos Grimm pela Disney, ao ser transformado em fábula infantil já rendeu outros filmes inspirados nele; só este ano dois foram lançados, Espelho, Espelho Meu (Mirror, Mirror, 2012) e esse Branca de Neve e o Caçador (Snow White and the Huntsman, 2012). Ambos tomaram direcionamentos distintos, com o último apoiado num universo gótico entre cenas dignas de bons épicos. É o mais próximo da obra original, por assim dizer, sendo que a violência e o visual alimentam um viés contraditório da beleza da história popularmente conhecida, levando a proporções amplas e satisfatórias do ponto de vista plástico e de produção. O “era um vez...” persiste, no entanto, o que vem depois é surpreendente.

A história é a mesma, com algumas adaptações e adequações. Branca de Neve, ainda criança, órfã de mãe, vê o pai se casar com Ravenna (Charlize Theron, impecável), mulher que lhe tira a vida na noite de núpcias, tornando-se Rainha absoluta. A verdadeira herdeira do trono termina subjugada numa masmorra. Adepta de feitiçarias e obcecada pela beleza, a bruxa monarca suga a jovialidade de jovens da região. Porém, ao questionar o espelho sobre quem é a mais bela, descobre que seu desafeto, a crescida Branca de Neve (Kristen Stewart, pecável), pode superá-la. Dirigido por Rupert Sanders, essa versão vem colidir com a expectativa do público graças à novidade fundada.

A esperança reside na verdadeira princesa, Branca de Neve, que passou a vida presa numa jaula do castelo. Sua fuga dá energia ao filme, levando o espectador a diferentes locais e a reconhecer famosos personagens: o caçador (Chris Hemsworth), responsável por trazer Branca de Neve até o castelo; os sete anões, que aqui são 8; e o príncipe arqueiro (Sam Claflin) de um outro pequeno reino, amigo de infância, sobrevivente às ameaças da megera. Além desses personagens, outros surgem nesse universo de fantasia, alguns emergentes de uma floresta negra e fadas aparecendo num santuário bucólico e utópico com contemplações divinizadas.

Dentro da narrativa, há um notável problema espacial a respeito das regiões de peregrinação dos heróis: o clima muda ferozmente e não temos acesso exatamente à lógica do tempo em que estiveram atravessando as terras. O sol pouco brilha nessa história obscurecida, banhada pelas sombras de um mundo oprimido e morto. Nem flores nascem, o solo turvo sem vida cultiva pobreza com pequenas civilizações mendigando. Todos são hostis à rainha Ravenna, que fez daquele universo dolente, lembrando constantemente com saudade tempos de outrora. 

A trilha sonora é outro trunfo que dá um tom interessante ao longa. Uma canção, Gone, de Ioanna Gika, ecoada num determinado instante, abrilhanta a expedição naquelas trevas através de uma só voz cantarolando uma bonita composição. O visual arrebatador enriquece a obra esteticamente; créditos ao diretor de arte David Warren, que trabalhou em A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, 2011), explorando com minuciosidade a contextura gótica tão aprazível aos olhos, juntamente a fotografia de Greig Fraser (Brilho de uma Paixão [Bright Star, 2009]) e o figurino de Collen Atwood que dá, especialmente, maior credibilidade e noção de perigo à persona Ravenna.

Essa adaptação tem bom ritmo, mas o roteiro não tem lá muita profundidade, explorando pouco seus personagens. Entendemos as motivações de cada um, frases feitas contribuem e as relações amorosas, embora ínfimas, são cabíveis. Dentro disso, auto descobrimentos e redenção germinam apenas como tributo ao conto original. E Kristen Stewart, estrela de Crepúsculo (Twilight, 2008), bem que tenta dar alguma dignidade à protagonista, no entanto, entrega-se aos seus vícios comuns (lábios semi abertos, olhar cerrado), perdendo em dramaticidade até para Thor, ou melhor, Chris Hemsworth. Enquanto isso, Charlize Theron extasia. Visualmente belíssimo, “Branca de Neve e o Caçador” é uma atraente versão, ainda que pobre, da fascinante obra dos irmãos Grimm.


quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Proseando sobre... A Saga Crepúsculo: Amanhecer - Parte 1


 Há quem ame, há quem odeie, há quem seja indiferente. A saga “Crepúsculo” caminha para seu final, segue mutilando a história construída sobre vampiros durantes décadas. Isso é motivo de críticas de muitos. Não consideraria tal fato, sou a favor de adaptações, criações, muito embora essa concebida por Stephenie Meyer seja quase impossível de se levar a sério. Este universo novo proposto pela escritora não é charmoso, nem convincente e tampouco interessante enquanto cinema, no entanto há nele uma isca funcional, não só através de seus personagens fantásticos – lobisomens e vampiros –, mas na fusão do real e o imaginário. Estamos diante um relacionamento entre uma mortal com um imortal. Há muito em jogo. Parece ser o bastante para que milhões se deslumbrem com o que acontece em cena, mas será que esta saga tem, de fato, potencial para ser glorificada como está sendo? Será “Amanhecer” um capítulo capaz de fortalecer tudo o que já fora apresentado até agora?

As respostas são óbvias. Não. A relação do fã com seu ídolo não precisa ser questionada, ainda mais tratando-se de uma série cujo grande interesse é alimentar o público e buscar o lucro. Com orçamentos milionários, os filmes garantiram melhorias técnicas, algo que possibilitou uma ressalva artística frente uma história insossa. A direção de arte contaminou os filmes após o lançamento de “Crepúsculo” – pena que tal atributo significativo tenha sido tomado pelo exagero nesse último. A fotografia é outro ponto frouxo nesse recente projeto, comparado aos outros. Então a saga que vinha melhorando retrocedeu? No ponto de vista narrativo, sim. Era mesmo preciso transformar o último livro em dois filmes?  Pouco provável, uma vez que “Amanhecer parte 1” oferece muito pouco.

Se artifícios técnicos garantiam a sessão daqueles desinteressados pela trama, então este trabalho irá frustrar ainda mais. Vale ressaltar que não é uma profunda perda de tempo, não diante a outras obras ordinárias lançadas anualmente. Visto que o longa tem um público muito bem definido, não há como ousar criticar sua funcionalidade com os fãs. Eles gostam, apreciam, se deslumbram e às vezes enaltecem com tanta demasia que chegam a gritar no cinema, fundindo adoração com falta de educação. O cinema é uma forma de arte, pena alguns não o compreenderem como tal. Se ao menos a elaboração de Woody Allen em “A rosa Púrpura do Cairo” fosse possível, tais reações seriam compreensíveis.

Bella (Kristen Stewart) finalmente se casa com Edward Cullen (Robert Pattinson) e engravida durante a lua de mel no Rio de Janeiro. Tal fato já garante um oceano de questionamentos por parte dos espectadores e dos personagens sobre possibilidades disso acontecer. Ao que parece, ninguém detém a resposta. Ignoro completamente isso, o cinema já nos apresentou muito nonsense, essa dá pra passar. O lobisomem Jacob (vivido pelo descamisado Taylor Lautner) aceita a contra gosto o casório, se rebela, mas cede. Ao menos seu personagem tem uma função mais enérgica na trama, impedindo-a de se empalidecer. Situações levam os lobos a enfrentarem os vampiros, colocando em risco a vida de Bella e do bebê. Este bebê, naturalmente, não é um bebê qualquer e condenará a vida da mãe mortal. Um lapso de discussão a respeito do aborto é tentado, porém logo é abandonado.

Com cenas românticas capazes de fazer os fãs se derreterem, e um aperitivo a mais para os brasileiros através de passagens no Rio em plena festa, esta primeira parte de “Amanhecer” se mostra frágil na apresentação de idéias. Quer explorar o romantismo sobrenatural transformando seres sanguinários em predadores tolerantes. A censura talvez explique qual é a demanda, sendo o público alvo o infanto juvenil. Não estranharia se em uma versão brasileira Xuxa e seus costumeiros elencos fossem os escolhidos para escalar os papéis principais. As atuações nada acrescentam, o destaque fica para uma coadjuvante, Anna Kendrick. Há uma defesa, o que há de melhor nesse trabalho é a comédia involuntária. Passagens bem humoradas garantem um suspiro no pedantismo. Há também um trabalho de efeito fenomenal, acentuado no emagrecimento de Kristen Stewart – o que, claro, não justifica um despertar maquiado num ato posterior inverossímil. “A Saga Crepúsculo: Amanhecer - Parte 1” não é um desastre, não mesmo. Mas para uma série com tantos admiradores, resta a curiosidade sobre seu papel no cinema, uma vez que nada acrescenta a ele.

Bill Condon, o diretor, não foi mencionado durante o texto, pois pouco acrescentou a sucessão do longa, buscando um convencionalismo padrão a toda potência.