Estamos diante um filme de Woody Allen com jeito de Woody Allen e sem Woody Allen – ao menos em cena. O diretor, roteirista e ator entrega seu novo trabalho, “Tudo pode dar certo”, trazendo um protagonista com os trejeitos do diretor e humor ácido, mas sem o grande vigor natural cômico, embora seu esforço seja notável. Dessa vez, como em seus principais sucessos, Allen questiona o homem e o universo, através de um personagem, Boris Yellnikoff (vivido por Larry David co-criador e ator da sitcom “Seinfeld”), revelando-se cético e ranzinza logo nas primeiras cenas, e ainda hipocondríaco. Um cara excêntrico, extravagante intelectualmente, um ex físico que quase foi indicado ao Nobel refletindo sobre a vida, seu encantos e desencantos, o que importa e o que pouco interessa. Esse homem, incomum, inusitado, como costumam ser os personagens do diretor – principalmente quando o próprio atua – vem de um final de relacionamento perfeito e justamente essa perfeição o fez dar errado.

Woody Allen que retorna a sua amada Nova York cria um filme reunindo toda a força de suas primeiras obras. O roteiro escrito pelo próprio nos anos 70 rejuvenesce e ganha força com o habitual bom humor e disparates artísticos – Boris Yellnikoff interage com o público. O filme oferta várias discussões ao passo que os personagens tão bem construídos se relacionam trazendo particularidades emocionais e físicas, sobretudo na relação entre Melody (Wood) e Boris, confundida entre admiração e paixão, submetendo a dupla num caso romântico que não só impressiona pela diferença de idades, mas também pela desconformidade cultural. A garota, simplesmente capturada pela ideologia de um mestre em sua posição, subitamente se entrega não ao amor, mas a adoração.
O filme percorre esse enlaço romântico e chama a atenção de como isso se transforma: Melody (cujo nome soa bem como música, naturalmente), tenta sem sucesso se tornar Boris agindo como aprendeu repetindo, até mesmo, seus conceitos. A forma como ela absorve os ensinamentos é singela tomando duras críticas como lições que sai por aí compartilhando. Os aspectos psicológicos do filme proporcionam longas discussões, como um filme de Allen, isso não poderia faltar. E reafirmo, Allen está em forma e aberto para quem não conhece. Como qualquer fã de cinema, tornar-se fã de Allen parece conseqüência; e vislumbrar o moralismo cômico de Larry David é outro ganho do longa. Ao lado dos caras, Evan Rachel Wood, em sua doçura juvenil, atrai os olhares para sua ingenuidade nunca perdida.
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