Mostrando postagens com marcador sexualidade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador sexualidade. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Diário Cinéfilo: Vênus (Venus, 2006)


O filme desdobra-se sobre uma polêmica: o relacionamento de um idoso com uma jovem. Dois velhos atores passam os dias conversando, indo ao médico, relembrando seus tempos de sucesso e aceitando bicos em filmes onde atuam como homens a beira da morte. Não foge da temática que essa produção dirigida por Roger Michell apresenta. “Vênus” traz um protagonista, Maurice (vivido brilhantemente por Peter O'Toole), descobrindo um câncer de próstata em estado severo. O filme retrata o passado desses personagens através de recordações simbólicas – seja em planos mostrando lugares antigos arruinados ou esquecidos – e com a arte – museus e obras literárias citadas como lembranças de outrora. Uma jovem do interior aparece tentando a sorte na cidade grande e relaciona-se com Maurice por interesse. As coisas vão mudando e interpretações não faltam referentes ao que se passa nessa comunhão de valores tratados previsivelmente. A comédia de situação reina em alguns pontos com o abismo cultural entre o casal e principalmente com as investidas românticas e devassas que eles trocam. A garota é vivida por Jodie Whittaker. A trilha pop pode incomodar um pouco aqueles que aguardam um drama denso. É um bom filme relativamente aclamado com uma idéia bastante fértil capaz de render longas discussões posteriores a sua exibição.   

    
Direção: Roger Michell
Elenco: Peter O'Toole, Jodie Whittaker e Leslie Phillips

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Proseando sobre... Hemel

 
Hemel significa céu em holandês. É o nome da protagonista que dá título ao filme. Acompanharemos céu por incursões em camas com diferentes homens, objetos de seu prazer quase urgencial. Seguir seus passos e suas discussões elaboradas como amparo à sua satisfação mantém a curiosidade da história, sempre cadenciada e ousada, contada em capítulos cujos títulos são auto-explicativos, fragmentos diários de seus envolvimentos afetivos. O céu, lugar simbolicamente atingido quando chega ao orgasmo, é seu paraíso particular em terra, possível, real. A garota percorre as ruas de uma cidade na Holanda se chocando com diferentes pessoas, quase sempre ligadas à classe alta européia, e se debruça em cortejos neste filme que beira o erotismo, enquanto é embalado por uma trilha sonora amena, generosamente melancólica.

A relação imposta pelo roteiro sobre a sexualidade da protagonista com a sexualidade de seu pai é fecunda, funcionando como alusão à sua criação desde pequena, conforme contada em um dos capítulos. O furor sexual da garota, seja nos bares onde passa algumas noites atrás de alguém que lhe satisfaça ou em festas quando discute o prazer, questionando a valia religiosa que reprime o desejo, denota a tipificação dessa personagem sedenta e agressiva, agindo com o estigma do sexo masculino. Em uma das cenas, ao sair com um argeliano a quem chama despreocupadamente de Mohammed – afinal, o nome ou quem é pouco importa, mas sim a oferta sexual da figura varonil –, fica notória sua personalidade que a aproxima do sexo oposto, quando não quer receber carinhos do amante após o gozo. Como metáfora em defesa, discute a cópula dos leões.  

Ao acompanharmos a jornada de Céu, muito bem vivida por Hannah Hoekstra, presenciaremos graças aos olhares e facetas da atriz seu sofrimento frente a sua condição que lhe traz prejuízos. Entregue a prazeres sem métodos, mas a características dos parceiros, ela mergulha em todas as propostas, seja com relação à depilação de pelos pubianos ou ao sadomasoquismo que lhe rende hematomas, onde embora sofríveis, são revelados como troféus por mais uma transa. Sexualmente adicta, sua composição é fomentada pela relação com o pai, com quem vive um complexo de Édipo berrante. Ela vive igualmente a ele. Sua ligação com o patriarca (Hans Dagelet) é estremecida quando este lhe apresenta uma nova namorada, alguém que levará para morar na mesma casa, renunciando a rotina por tantos anos vigorada.

Hemel (idem, 2012), exibido na 36º Mostra Internacional São Paulo, é um drama sobre sexualidade, identidade, dependência e co-dependência. Se aproxima do recente Shame (idem, 2011) pela proposta, mas é com o espanhol Diário Proibido (Diario de una Ninfómana, 2008) que ele faz coro. Dirigido pelo holandês Sacha Polak, o longa é visualmente bonito e com uma fotografia lúcida. Ele também é pontuado por boas atuações, sobretudo com Hoekstra que se expressa bem com olhares. A narrativa não segue uma lógica, igualmente sua protagonista, modelada por sensações e eventos cotidianos, desconstruída psicologicamente. E sobre a vulnerabilidade de sua estrela, o roteiro exprime a incapacidade de mudanças e readequações, propostos no diálogos, e perguntas que ficam como sugestões. Por exemplo a cena em que Céu conta sobre um garoto que cometeu suicídio recentemente, pulando de um prédio. Ninguém pareceu ouvir.

Texto originalmente publicado em http://www.cineplayers.com/critica.php?id=2524



quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Proseando sobre... Garota Fantástica


“Garota Fantástica” traz o “Roller Derby”, uma modalidade de patinação entre equipes feita em uma pista oval a qual as participantes num empurra empurra e usando táticas insólitas buscam vitórias e reconhecimento. Grandes duelos acontecerão nesse filme feminista, denunciando insatisfações cujos sonhos são desiludidos pelas exigências do cotidiano, bem como trabalhos, filhos, namorados entre outras obrigações. Nessas pistas, as várias mulheres da história gastam toda suas energias, encontrando nos torneios a oportunidade de serem vistas e reconhecidas por algo que façam bem. 

Ellen Page descobre uma vocação
O filme é despretensioso, não se concentra tão profundamente no drama de suas protagonistas, sendo sutil quando exalta a vida delas. O que é novidade aqui é quem está por trás das câmeras. Drew Barrymore assume a direção surpreendendo tal como Sarah Polley fez em “Longe Dela”, mas aqui num filme bem mais efêmero. “Garota Fantástica” diverte, conta com episódios da pós adolescência e se concentra numa personagem que vive sob o domínio das ambições da mãe, Brooke Cavendar (Marcia Gay Harden), que sonha em ver sua filha Bliss (Ellen Page) vencer concursos de beleza. O poder autoritário dessa mãe, bem representado pela imponência de Gay Harden inspirada, é evidente em suas inspeções que vitimam não só sua filha, mas também seu marido. 

Juliette Lewis é a grande adversária da protagonista
Já Bliss, vivendo amenamente sua passagem para a vida adulta, se esconde em seus 17 anos, trabalhando de garçonete num restaurante e aguentando investidas de caras querendo impressionar. O retrato dessa vida leviana se dá quando descobre o esporte, fazendo parte da equipe de patinação ocultando sua idade do time e a verdade de seus pais que em hipótese alguma aceitariam uma “princesa” numa batalha capaz de dimanar feios hematomas. A jornada da jovem é bem desenvolvida pelo roteiro de Shauna Cross que adapta seu próprio romance, acrescentando ingredientes como frustrações amorosas, sexualidade, amizades e desejos. 

Drew Barrymore além de dirigir, produz e atua
Bem fotografado e com algumas cenas movimentadíssimas, sobretudo durante as partidas do Roller Derby, o filme deverá empolgar mais as adolescentes que se identificarem com as dificuldades encontradas pela protagonista juntamente as amigas. Kristen Wiig vive Maggie Mayhem e cumpre o papel mais reflexivo da história enquanto Juliette Lewis assume uma antagonista predisposta a destruir os sonhos de Bliss com eficiência e com surpreendente hombridade. Barrymore não só dirige como produz e atua, identificando-se com a provável personagem mais divertida em toda a história. Já a canadense Ellen Page, destaque dos últimos anos por “Juno” e “Um Crime Americano”, mostra o porquê é uma das maiores promessas do cinema recente. Razoavelmente engraçado, mas singelo e sincero, “Garota Fantástica” é um longa correto e agradável de ver sem nenhum compromisso.