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quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Proseando sobre... Las Horas Muertas


O tempo em Las horas muertas (idem, 2013), filme do mexicano Aarón Fernández, é o que condensa a narrativa através de seus poucos personagens e do contexto silencioso tal como a obra que é destituída de trilha. Assistimos o pequeno motel Palma Real à beira da estrada, onde as pessoas vão atrás de tempo, de espaço, de fuga e prazer. Assistimos ocasionais chegadas e partidas. Os vínculos são raros, especialmente para o menino Sebastian que, prestes a atingir a idade adulta, está vivenciando um ofício deixado por seu tio, que precisou se afastar do motel e precisava de alguém de confiança para tomar conta durante sua longa ausência. Questões inevitáveis vêm despertar a curiosidade do jovem, seja na ação das pessoas que quase diariamente por ali passam ou na amizade desenvolvida com uma mulher mais velha, igualmente frustrada diante sua condição numa pequena cidade litorânea que a aprisiona, consumindo-a intimamente. Esse é o ganhador do prêmio de melhor contribuição artística na Tokio International Film Festival.

Tudo que nos é apresentado é enxuto, no entanto temos convicção de suas finalidades e representações, já que o filme não enrola e mantém um mesmo ritmo ao longo de seus 100 minutos. As horas mortas sugerida pelo título são expressas pela inanimada figuração de seus personagens, todos obrigados a se ater a uma rotina e segui-la sem surpresas. As novidades ficam por conta dos rostos diferentes daqueles que chegam ao Motel, muito embora eles se repitam. As circunstâncias são as mesmas e nada empolga Sebastian, que se vê sozinho sem opções do que fazer, a não ser disputar cocos com um vizinho mais jovem ou ouvir por trás das portas os hóspedes. Há ainda alguns outros personagens que corroboram essa ideia da demora do tempo, como uma ajudante que lava os lençois voluntariamente como desculpa para encontrar o namorado nas dependências do motel a fim de transas furtivas; ou o idoso que cuida do período noturno, unido unicamente a um cão, esperando as horas passarem com a paciência que a vida no local lhe amestrou.

A perspectiva de mudança chocada com o realismo da sucessão de acontecimentos confere naturalidade tocante a narrativa. Aarón Fernández dirige o filme com prudência. Em suas mãos dois atores burocráticos conseguem demonstrar a ociosidade necessária as quais seus personagens (sobre)vivem. Kristyan Ferrer encarnando Sebastian e Adriana Paz com sua Miranda, mulher que precisa vender casas em um condomínio na praia, mas que vem encontrando duras dificuldades pela rejeição ao local. Soma-se a sua estadia malograda um romance adúltero com um homem que sempre a deixa esperando no Motel. Suas horas vazias encontra as de Sebastian e uma amizade com um curioso encantamento se difunde, estreitando laços. 

O litoral de Veracruz imprime alguma beleza a obra de Aarón Fernández, com o mar de fundo e os coqueiros em volta. O sol não banha o filme como se supunha e a película ganha traços de estranha frieza reprimindo o ambiente caloroso. Os romances que por ali passam são passageiros. O tempo morto acede à harmonia suspensa. No início do filme, um personagem diz que o local precisa de algumas mudanças, embora a rotina fosse importante e não poderia ser alterada. Algumas árvores mortas precisavam ser retiradas. Após a vivência por ali, Sebastian, frente a existência desfalecida cujas pulsões de vida foram sabotadas pelo encadeamento espacial e temporal, busca uma revitalização com pequenas reformas. Simbolicamente ele coloca uma tampinha sobre um besouro e logo o fita, observando a dificuldade do inseto em carregar o objeto, semelhante a sua situação no Palma Real, arrastada e infeliz. Suas tentativas de mudança no espaço físico do motel vislumbram uma alteração sensorial e emocional. A solidão e a percepção de distanciamento, todavia, conserva-se. 


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Proseando sobre... Não Quero Dormir Sozinha

 
Duas gerações se chocam pela necessidade. Avó e neta se encontram num momento bastante delicado, quando a matriarca já não possui boa saúde, sofrendo de Alzheimer. É a jovem quem se encarrega de cuidar dela, sofrer juntamente e passar pelos apuros que a doença degenerativa traz. As duas não tem lá muita intimidade, aliás, as relações familiares de Amanda (Mariana Gajá), a protagonista cuidadora, são remotas, com um pai cineasta ausente que financia o hospital da mãe e alguns gastos pessoais da filha. O distanciamento é evidente. É sobre isso que o filme busca tratar: a superação do afastamento, a reaproximação de quem sempre se manteve longe. Exibido na 36ª Mostra Internacional de Cinema São Paulo, Não quero dormir sozinha é um drama sobre a solidão, o primeiro trabalho de Natalia Beristain, selecionado para o Festival de Cinema de Veneza.

Uma ex-atriz do cinema passou, envelheceu e fora esquecida, numa ótica semelhante a de Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950), porém sem a magnificência de Wilder. Dolores (Gabriela Roel) está sozinha, repetindo coisas e com a memória a curto prazo comprometida. A solução é ser internada numa clínica, algo visto com desprezo pela neta que se voluntaria a cuidar da senhora. Mas a dificuldade em lidar com tal sensação inflama quando descobre que sua avó é usuária de álcool e encontra na bebida um bom sono que não alcança quando lúcida. Acompanhar a progressão dessa história é um deleite. De maneira branda, a narrativa perpassa algumas dificuldades dessa vivência, associando-se a A Família Savage (The Savages, 2007) de Tamara Jenkins ou Longe Dela (Away From Her, 2006) da canadense Sarah Polley e sua ternura.

A ação do tempo é tratada com zelo e delicadeza pela diretora, e isso ainda é fortalecido pela boa atuação das protagonistas, a veterana Gabriela Roel e Mariana Gajá. As duas, em certo instante, ficam nuas num vestiário, e contemplamos a diferença dos corpos. Enquanto constatamos a nudez de Amanda em frente o espelho, com o corpo jovem e formoso, logo notamos a chegada de sua avó, reverenciando a neta com saudade dos anos em que dispôs de beleza semelhante. Durante um banho, Natalia Beristain investe em seqüenciais planos detalhes, contrapondo ambas.

O protagonismo é de Amanda, que não consegue passar as noites sem companhia, sempre buscando alguém para dividir a cama. Homens passam por ali diariamente, vivenciando a solidão da garota de olhar triste. Carente de afeto, algo que aparentemente, segundo sugestões do roteiro, não obteve quando criança, ela busca independência negando qualquer tipo de ajuda ou auxílio paterno. De outro lado sua avó, solitária, representa o velho contemporâneo, às vezes esquecido, segregado e injustiçado.

Alguns filmes estão voltando a atenção para a fase da terceira idade. A diretora procura ressaltar com certa poesia o inevitável em vida, a busca pela aceitação do tempo que condenará a beleza e talvez a mente. Não importa a cultura, dramas semelhantes são observados por todos diariamente, especialmente por aqueles que convivem com pessoas mais velhas. O aumento da expectativa de vida obriga o interesse e olhares atentos para a saúde de modo geral nesta fase, algo que criticamente a diretora procura relevar. Daí o filme se converte num relato amargurado sobre o assunto, tratado com intimidade e certo pesar por Natalia Beristain. O que resta para Dolores é a glória de outrora, e para Amanda, uma boa razão para sua existência, até então inanimada, e finalmente garantir alguma boa recordação para o futuro.

* Crítica originalmente publicada em http://www.cineplayers.com/critica.php?id=2542