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quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Diário Cinéfilo: Minha Irmã (L'Enfant d'en Haut, 2012)



Há muitas questões complexas dentro do roteiro desse “Minha irmã”, questões que vão muito além da proposta do título brasileiro, proposto como referência a relação estabelecida que acompanhamos na história, no entanto é pequeno frente a outros embates bem mais importantes. A história vai além da relação entre irmão e irmã, como os personagens se consideram, ela trata de afeto e de valores familiares amoldados, interesses privados pela angústia da realidade, de um provável passado infeliz – que não temos acesso – até um futuro vislumbrado com igual pessimismo. Assistimos um garoto de 12 anos ir até uma estação de esqui diariamente, lá ele rouba equipamentos dos turistas e vende no conjunto habitacional onde mora, ganhando algum dinheiro para se sustentar e dar algo para sua companheira, Louise, bem mais velha que ele, que tem casos amorosos voluntários e se mostra incapaz de se manter algum emprego. Mutáveis, se mantém próximos por necessidade. E por paixão. Algumas eventualidades causam desconfiança no público. A relação vista soa paternal, é ele quem cuida dela. Há também uma aproximação íntima, já que o menino, em certo momento, paga pela atenção da mulher, aparentemente como única forma de manter algum contato, de tocar.  Dependências afetivas e financeiras são tratadas com leveza neste projeto da diretora Ursula Meier. Também tem Léa Seydoux vivendo Louise, o que já merece uma espiada.

Direção: Ursula Meier
Elenco: Léa Seydoux, Kacey Mottet Klein, Martin Compston e Gillian Anderson


segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Proseando sobre... Intocáveis

Um projeto como Intocáveis (Intouchables, 2011) poderia perfeitamente, visto pela sinopse e pela provável proposição imaginada antes de conferi-lo, ser encarado como um daqueles filmes que visam o choro fácil, buscando, mais do que contar uma história romantizada – seja essa de superação ou de introspecção diante uma nova condição de vida –, narrar um drama de circunstâncias de maneira absolutamente humana e comovente. Vários são os atributos que favorecem isso, no entanto o maior deles é, sem dúvidas, a dinâmica entre os atores centrais que ganham a atenção do público e vencem pelo carisma, atravessando clichês em benefício da narração. Talvez realmente seja demasiado corriqueiro, no entanto lições de humanidade nunca saem de moda e longas desse feitio sempre trazem um ar de renovação para uma reflexão enquanto sujeito humano, passível de lisonjeiras alegrias e devastadoras desventuras.   

Um anúncio: é baseado numa história real. Baseado ou inspirado, não interessa. Boas intenções não garantem bons filmes. Boas idéias quando mal executadas nada significam. A história: um milionário, Philippe (François Cluzet), que ficou inválido após um acidente, contrata um jovem negro que esteve preso por 6 meses para ser seu cuidador. Juntos se transformarão e crescerão, cada qual em sua limitação, numa jornada de benevolência e altruísmo pragmático – pragmático, aliás,é uma definição usada constantemente por Driss (Omar Sy) quando se define. E de fato o é, não somente pelo personagem, mas pelo filme e pela composição de mundo trabalhada. Afinal, tratam-se de pessoas e, enquanto seres humanos racionais, são motivados por compaixão pelo outro, por mais remota que essa pareça e incrível devido a condescendência de quem a desfere.

É sim clichê, demarcação infeliz. Para um filme, parece aceitável. Praticar boas práticas de solidariedade é clichê, que se mantenha então. Ainda sobre o assunto, mergulhamos em chavões durante a projeção, sobretudo pelo contexto dos personagens: o milionário rico com infelicidades românticas, uma filha adolescente aborrecida com o namorado e empregados que parecem estacados as exigências e necessidades do patrão; e Driss, cuja vida é acometida por erros, carrega um passado penoso como fardo pessoal, vendo seus familiares pobres sofrendo miseravelmente num apartamento apertado na periferia parisiense, convivendo como podem. O universo composto pela dupla de roteiristas e diretores Olivier Nakache e Eric Toledano (anteriormente filmaram “Apenas Bons Amigos“) é abarrotada de estereótipos. Sobre eles se desenvolvem questões que distingue o longa do convencional, como a afinidade improvável sucedida e a comiseração a pena.

O filme passa inteiramente detalhando em minúcias a relação entre Omar e Philippe, e não compreendemos de antemão o que fez o milionário escolhe-lo para ser seu cuidador. Seria imprudência? Desafio? Talvez não esteja muito bem da cabeça? Talvez seja a projeção de um desejo castrado, uma lacuna nessa vida de luxos, espontaneidade desregrada que agora lhe é inalcançável? Tudo isso chega ao público de maneira incrivelmente otimista. Philippe sofre sim, mas não abandona o sorriso – talvez uma das únicas coisas que lhe restam. A câmera foca Cluzet, esse despende risos e movimentos com o pescoço, breves, porém precisos, seja para mudar a página de um livro ou para buscar o movimento rítmico de uma dança. Sua transformação também é enaltecida em detalhes nunca tratados verbalmente: por exemplo o sinal da traqueostomia no pescoço que é do mesmo tamanho que o brinco que surge em sua orelha em determinado ato.

Banhado por um apelo dramático inevitável, servindo entre outras coisas para enobrecer o drama, já que a situação retratada não é de terna felicidade, os diretores têm a coragem de investir numa outra ótica para a propagação da história: o humor. Esse acontece durante todo o filme, sem culpa ou receio. Faz-se lógico, é tratado pelo próprio Philippe com graça e por Driss que faz piadas inoportunas, impróprias e de mal gosto, como se gozasse de um corte de cabelo de um amigo próximo. Justamente aí reside a beleza do longa, em não ter maldade, tratar de coisas importantes na vida com a leveza e necessidade que esta merece, ou como precisa para ser mais suportável. Ainda há espaço para discutir a arte, compreender alguns significantes segundo os olhos dos protagonistas. A cena em que Philippe compra um quadro de alto valor é interessantíssima. Aquilo não faz sentido a Driss, mas algo muda quando este se representa na arte, não unicamente pelo valor financeiro, mas pelo significado daquela obra em detrimento de sua vida projetada. Algo – valor pessoal – a deixar para o mundo.

Fica na memória boas cenas, eficientes em vários pontos de vista, demonstrando a França atual e a divisão econômica e social do país, com a imigração africana no plano de fundo numa graciosa Paris recheada de encantos e desalentos. As 4h da madrugada na capital francesa, um passeio em busca de ar – simbolicamente, de desopressão. Enfatizando tudo isso com uma beleza ilustre, a trilha afável do brilhante pianista italiano Ludovico Einaudi, com temas perfeitamente cabíveis, utilizadas de maneira cruciante e harmoniosa. Não são músicas feitas para o filme, são algumas de suas renomadas composições, emprestadas para saudar essa bela história sobre o ser humano. Simples e óbvio, nada surpreendente e impreterivelmente comum, Intocáveis tem um relevo delicado, é revigorante e honesto no que propõe: discutir valores que por vezes faltam ao homem para que esse se torne mais humano. Frente a essa possibilidade, vale se permitir deslumbrar-se pelo que acontece em cena.

* Crítica publicada originalmente em http://www.cineplayers.com/critica.php?id=2554


quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Proseando sobre... Elles

Várias desculpas poderiam justificar, embora sem grande êxito, a realização dessa apática obra estrelada pela costumeiramente espetacular Juliette Binoche. Não há nenhum grande foco, existem situações, questões jogadas entre as interações dos personagens que por vezes emulam situações corriqueiras da vida e conotações de desejos reprimidos. É o máximo da narrativa relembrar o quanto mascaramos sentimentos, e isso é pouco, pois a forma com que objetiva a proposta é problemática, com pouquíssima coisa satisfatória. O filme trabalha com um tema fértil: a prostituição. Sobre ela, morais se desenrolam e estereótipos tradicionais se quebram. Trata-se de puro desejo e conforto, facilitações e abstrações.

A história é simples e carrega potencial. Anne (Binoche) é uma jornalista da revista Elle com pretensões de fazer uma matéria contendo entrevistas feitas com estudantes universitárias que se prostituem. Sua curiosidade transcende a motivação dessas garotas, parece buscar nelas uma resposta outrora recalcada em sua vida. Há uma intrusão a intimidade dessas mulheres que até certo ponto se defendem. Quanto a protagonista, percebemos o quanto é legítima sua projeção durantes as conversas, com a atriz habilidosa em cena mostrando-se introvertida, perdida em devaneios enquanto as jovens contam orgulhosamente suas experiências. Anne às vezes se perde na escuta. Já as garotas, Alicja (Joanna Kulig) e Charlotte (Anaïs Demoustier), contam despreocupadamente e com detalhes seus encontros.

Capaz de absorver os detalhes das entrevistas levando a aspectos de sua rotina, relação com o marido, filhos e o trabalho, Anne se apropria dos discursos percebendo-se atada a frustração pessoal, algo que ela não via, ou pelo menos não queria ver. Sua compreensão arrasta-se até um jantar em que ela mesma prepara numa noite a fim de recepcionar o chefe do marido. Essa construção é banhada de metáforas e referências por vezes libidinosas, constatando sua nova condição consciente. A diretora polonesa Malgorzata Szumowska não emprega moral em seu longa e leva as prostitutas a outro âmbito em cena, diferindo do comum retratado onde usam personagens provenientes da miséria e encontrando solução na prostituição. Elas não são vítimas de um contexto. Aqui, acontece por vontade. Faz lembrar as memórias de Mãe, filha, avó e puta quando tece uma crítica a condição da mulher e relata, em defesa das prostitutas, que o mundo não é feito de vítimas e que tudo é negociável, inclusive o sexo.    

A temática não é nova e nunca sai de moda. Steven Soderbergh trabalhou com a ex-atriz pornô Sasha Grey em Confissões de uma Garota de Programa (The Girlfriend Experience, 2009) trazendo parecidamente o glamour hipócrita de uma pessoa que vive duas vidas, embora a verdade seja, por vezes, compartilhada. Incontáveis filmes são lembrados quando se trata o assunto, sobretudo na oferta de estabilidade, finalidade sedutora posta nos diálogos. Esses que no filme soam frouxos e vagos, comprometendo o resultado final. Sua limitação pouco envolve, mas instiga reflexão levantando dúvidas a respeito de quando o prazer se esgota. Vale fazer menção a A Bela da Tarde (Belle de Jour, 1967) de Buñuel, infinitamente superior a esse Elles (idem, 2011).

A complexidade que se supunha é passageira. O filme passa, se delonga e se esvai, deixando poucas questões a tratar. As histórias contadas pelas duas entrevistadas são boas, breves e concisas, conciliando cenas sem pudor – e tome perversão com variados clientes – com relatos sinceros de uma vida de luxúria na capital francesa. Em poucas noites dá para arrendar um apartamento em Paris. Sem julgamentos e com um olhar implícito sobre circunstâncias sociais, Elles remete ao jogo de aparências num turbilhão de vaidades, colocando em pontos mulheres bonitas escolhendo um caminho oculto e lidando com a rejeição e levando uma vida comum e voluntariamente feliz. Isso não quer dizer que estimula o espectador a fazer o mesmo, mas dá um tapa na cara de quem se vê superior a elas. Observamos um sorriso no rosto natural nessas mulheres ao contrário de um tímido movimento nos lábios omitindo insatisfação, esses estampados na face da hipocrisia.

Crítica primeiramente publicada em http://www.cineplayers.com/critica.php?id=2454


quinta-feira, 19 de abril de 2012

Proseando sobre... A Guerra está Declarada


O cinema está repleto de longas cuja narrativa inclina sobre alguma doença, seus malefícios, as situações as quais algumas pessoas são obrigadas a vivenciar. Costumeiramente, o assunto rende lágrimas. Tratar dele é quase como ser obrigado a emocionar pela proposta de superação, às vezes inalcançável. Representante francês no Oscar 2012 (este não foi selecionado), "A Guerra está declarada" é mais do que um filme que trata de uma enfermidade e da batalha contra ela. É um relato biográfico, sem tanto sentimentalismo, enfrentado por seus realizadores e contada por Valérie Donzelli que dirige, atua e assina o texto.

Um casal se conhece numa balada, um encontro casual que rendeu uma noite juntos, encontros posteriores, declarações e uma gravidez. Essa apresentação está imersa na cultura pop, com músicas embalando e bebedeiras recorrentes entre jovens. Mas algo está estranho meses após o nascimento, o bebê tem dificuldade para andar, vomita constantemente e possui uma pequena deformidade facial. Motivo natural de alarme, o jovem casal corre atrás de um médico especialista. Logo um neurologista apresenta o diagnóstico: o pequeno Adam tem um tumor no cérebro e precisa ser operado urgentemente.

A expectativa é de que esses pais virem às costas para tudo, isolem-se e dediquem-se pessimistamente a essa criança. A coisa toda não acontece assim e o roteiro de Donzelli demonstra uma forma alternativa de lidar com a situação, desprendendo-se do sentimentalismo usual e fixando num viés otimista, pretendendo aproveitar o que há de melhor na situação, buscando forças nas minúcias. Honesto em sua proposta de representar um drama familiar, o projeto não se prende ao maneirístico esquema emotivo facilitador, isso é evidenciado em piadas de conotação discutível, mas que funcionam como escape para aquela incessante aflição: destaca-se a cena em que cogitam prováveis seqüelas após a cirurgia.

O filme oferece uma narração branda, variável em momentos de terna melancolia – como o telefonema avisando sobre o diagnostico e a reação de cada familiar – e outros de puro humor descontraído, abstrato, por exemplo a sensatez do climão provocado pela descoberta e as maneiras de abstraí-lo. É preciso tocar a vida. Outro acerto do roteiro é a forma como apresenta a gravidez, a presença do bebê em casa. Longe do glamour estampado em revistas, o nascimento de uma criança acarreta uma série de problemas, estresses, noites mal dormidas, o que não faz sua presença perder o brilho e o carinho de seus dedicados e humanos pais.

A diretora esclarece um ponto de vista marcado pelas possibilidades de cuidado. Na França, são várias as práticas de intervenções, os hospitais e médicos são aduzidos de uma maneira lúcida, perspicaz e até cômica, rendendo bons momentos durante a projeção: como a cena retratando a espera ansiosa dos pais em descobrir quem é o famoso cirurgião de Paris, especulando-o como se este fosse invisível. Uma boa piada envolvendo a comparação destes profissionais e Deus funciona perfeitamente num ato. Mas e se estivessem em outros países, o que teriam em mãos? A guerra está declarada contra a doença, o rádio contextualiza a época que se passa a história quando uma guerra é anunciada. A alusão à ação.

Outra consideração é a impossibilidade de realizações pessoais. Não só pela doença, ou pelo casamento, mas pelas exigências diárias, cobranças. Os sonhos evaporam, e em troca ficamos imunes à vida, suas turbulências e insatisfações. Nem todo mundo está feliz, mas há maneiras de buscar, pelo menos, algum conforto e qualquer sorriso. É o que parece querer mostrar Valérie Donzelli, trazendo uma mensagem otimista sobre o que viveu, nesta experiência considerada por alguns um intento. Não é costume do cinema explorar esse universo com um teor crítico, abrindo mão de emoção contagiante. É justamente aí que reside à comoção do filme, em seu panorama e resultado, em seu apresso pela realidade elegantemente estampada no rosto de seus bons atores.