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terça-feira, 23 de julho de 2013

Proseando sobre... O Concurso



Na tentativa de fazer humor, Pedro Vasconcelos mexeu em estereótipos regionais, trazendo estilos e formas carimbadas tentando fazer graça e levar ao público um pouco do que se vê costumeiramente em programas humorísticos televisivos risíveis. Várias situações constrangedoras se acumulam em 90 minutos ininterruptos de trivialidades com cenas quase que incapazes de provocar qualquer sorriso. Bons atores estão comprometidos por um texto ruim e pela falta de habilidade da direção em trabalhar cenas sem fazê-las assemelharem-se a esquetes. Vasconcelos lança uma das comédias mais esquemáticas e descartáveis da cinematografia nacional dos últimos anos, fazendo frente a bobagens monumentais como “Cilada.com” e “As Aventuras de Agamenon - O Repórter”.

Do Ceará sai um religioso supersticioso, o carismático Freitas (Anderson Di Rizzi); Do interior de São Paulo, o tímido Bernardo (Rodrigo Pandolfo) vira celebridade e conta com a torcida de toda a cidade; no Rio de Janeiro, o carioca Caio (Danton Mello) sobrevive de trambiques; e de Pelotas, no sul, surge Rogério Carlos (Fábio Porchat) que tem a orientação sexual reprimida por um pai “machão”. Todos tem em comum o concurso do título, já que são finalistas para o cargo de Juiz Federal. Os conhecemos numa cena introdutória com situações precárias. O roteiro logo abre uma lacuna para apresentar – em formato de esquete – cada um dos sujeitos e revelar como descobriram que disputariam o importante cargo. O humor de situação se expande desse encontro ao pior estilo “Se beber, não case” quando juntos, a convite de Caio, vão em busca do gabarito da prova que está incompreensivelmente nas mãos de um traficante anão.

Algumas ações são difíceis de compreender narrativamente, seja por problemas do roteiro ou por boa parte do filme ter ficado na sala de edição: o encontro de Bernardo com a fogosa Martinha (Sabrina Sato interpretando Sabrina Sato com facas) num boteco no Rio de Janeiro; a piada da maconha na praia que não chega a resultado algum; ou o anúncio na TV sobre jovens envolvidos com tráfico na capital carioca cair no esquecimento. As situações estão à deriva da história, tapando buracos visando montar cenário a fim de lançar uma ou duas piadas. O arco se abre com alguma criatividade, esgotando-se à medida que se direciona ao humor pueril. Um sopro e tudo se desfaz, já que nada amarra a história com as investidas cômicas. Os diálogos que ressaltam sotaques e costumes regionais não passam de piadas recicladas de alguma sessão humorística jornalística.

A ideia de trabalhar com jovens disputando uma vaga através de concursos públicos é um universo inexplorado, original e atual. Renderia muito num roteiro que objetivasse discutir o assunto num plot específico. A escolha dos realizadores foi boa, o resultado, todavia, não convenceu. Desagrada em vários fatores, tanto no seu potencial dramático quanto em seu gênero de origem, sabotando não somente bons atores, mas bons humoristas que estão atados ao convencionalismo de uma produção pouco envolvente que mal dá abertura aos intérpretes em fazer algo de novo. A narrativa ilógica só compromete, não dá pra aceitar piamente os acontecimentos propostos sem qualquer sentido. Não dá pra aceitar que as comédias nacionais estejam ganhando a mesma função de um vaso sanitário. 



sábado, 19 de janeiro de 2013

Proseando sobre... Os Penetras



A parceria entre Marcelo Adnet e Eduardo Sterblitch é muito boa. Ambos conseguem segurar um filme ruim com trejeitos particulares e gags que funcionam numa comédia descompromissada, mas não é o bastante para salvar o filme. Está bem longe de conseguir qualquer sucesso quanto a isso. “Os Penetras” é notadamente fraco, tem um roteiro frívolo, reviravolta corriqueira e uma direção burocrática de Andrucha Waddington. Talvez tudo e todos estejam limitados pela produção que quer mais do que qualquer outra coisa angariar fãs para estabelecer uma nova franquia rentável no cinema comercial brasileiro, utilizando de humoristas da moda e com talento comprovado – caso de Adnet, já que nunca havia ouvido falar do tal Sterblitch. 

A história é sobre um cara apaixonado, Beto (Eduardo Sterblitch), que, ao ser ignorado pela namorada, acaba desiludido e acidentalmente encontra um homem, Marco Polo (Adnet), que promete ajudá-lo a reconquistar a paixão, no entanto precisará de alguma ajuda financeira. Alguns equívocos e situações triviais se amontoam e logo os dois se envolvem com a alta sociedade carioca, entrando em festas sem convite, divertindo-se como podem até que os seguranças descubram e os coloque para fora. O roteiro cria situações bem manjadas, especialmente com uso de drogas a fim de fazer seus personagens agirem de maneira mais estúpida do que o esperado e conseqüentemente tirar risadas satisfeitas do espectador que se entrega a graça juvenil da dupla que se diverte em cena.

Fica, para quem quer levar algo do filme, a beleza do Rio de Janeiro que é apresentada exuberantemente por uma fotografia que ressalta a cidade maravilhosa ensolarada e calorosa. É bem filmado, com cenas surpreendentes – a viatura na contra-mão durante o trânsito – e outras econômicas – as de sexo, pretendendo seguramente diminuir a censura. E não falta sensualidade – inevitável em comédias dessa categoria – com uma Mariana Ximenes lúbrica e Juliana Schalch, que quase passa batida, numa cena mais picante no ato final. O longa ainda conta com Andréa Beltrão, Stepan Nercessian, Susana Vieira e Luiz Gustavo. Esse elenco faz toda a diferença. O talento e a experiência dos atores contribui para que o filme seja digerível, coisa que outras comédias do gênero não conseguiram. Pena ser insuficiente. 

Vai tirar muitas risadas sem qualquer dúvida, tão rápidas e breves que provavelmente se tornarão passageiras e esquecíveis, tais quanto os semelhantes anuais. Servirá para exaltar o nome de novos talentos do humor nacional, como a dupla protagonista que funciona como um marketing natural graças aos seus nomes estampados no cartaz. Sozinhos arrastam jovens que os idolatram e pouco oferece a esses senão recreação e senso imoral. É um pedaço de filmagem criativamente limitado, uma extensão episódica de algum quadro televisivo, propenso ao riso fácil. É mais uma daquelas comédias desprezíveis de graça passageira que o cinema nacional insiste em lançar anualmente, desperdiçando talentos reconhecidos, abarrotando as salas de cinema de dinheiro na mesma proporção que de mediocridade.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Comentando sobre... A Cidade Ímã



Tímido em seu prólogo, o filme de Ronaldo German é ascendente, embora romantize demasiado a cidade do Rio de Janeiro, a cidade imã do título, sendo pouco convincente na estilização da capital que apresenta como um palco de músicos estrangeiros que chegaram e ficaram. É bom ressaltar que German praticamente fez o filme inteiro sozinho, um trabalho dignificante baseado num trabalho solo, no entanto carece de maior veracidade e menos idealização, o que resultou, ao final, num grande cartão postal da cidade para músicos de todo o mundo, ainda que traga alguns de seus defeitos como a violência. São quatro os entrevistados, David, Mako, Bruce e Idriss. Ambos trazem suas percepções sobre a cidade, suas histórias pessoais, o que imaginavam e o que encontraram na cidade maravilhosa, como também o que o mantiveram e ao quê se apaixonaram. Abraçado pelo corcovado e pelos locais bucólicos, o longa foi recortado de maneira a fundamentar a história dos quatro sem privilégios. O documentário é agraciado com canções propostas pelos próprios participantes, afunilando até um único denominador. 

terça-feira, 5 de julho de 2011

Proseando sobre... Qualquer Gato Vira-Lata


De início Tati (Cléo Pires) aparece andando pra lá e pra cá em seu apartamento. Ela está pendurada no telefone e procura, indecisa, uma roupa perfeita a fim de se preparar para uma noite que poderia tornar sua relação mais séria. É o aniversário de seu namorado Marcelo (Dudu Azevedo). Após decidir, vai ao encontro do rapaz e o flagra batendo um papo com uma outra garota, agindo com indiferença a sua presença. A desconstrução do ideal romântico apresentado é rapidamente transtornado ao assistirmos Tati rejeitada e sozinha, segurando uma orquídea nas ruas do Rio de Janeiro, chorando e, claro, para piorar, de baixo de chuva. Cléo Pires agora está desarrumada, de maquiagem borrada, molhada e chorosa. Só faltou tocar Radiohead.

Abre-se a comédia romântica “Qualquer Gato Vira-Lata”, um poço de clichês capazes de arrancar risadas do público com as desventuras amorosas da protagonista, prestes a viver um triângulo amoroso recheado de incertezas e mergulhado em teorias amorosas dispostas por um olhar da biologia, comparando humanos e animais, em defesa do papel masculino – e logo entenderemos a razão disso ao conhecermos a terceira ponta do triângulo, o biólogo Conrado (Malvino Salvador). O filme é dirigido por Tomas Portella e Daniela De Carlo, baseando-se numa peça teatral de Juca de Oliveira. Com piadas prontas e com personagens ora cativantes, ora desprezíveis, acompanharemos uma jornada amorosa como qualquer outra, salientando em vários takes as coxas de Cléo Pires – o que faz o público masculino aproveitar algo nesse trabalho essencialmente feminino.

 O desenvolvimento é simples, pouco cordial e inventivo. Apenas simples, como o gênero está acostumado a ser. Aí nesse âmbito começa as identificações de papéis. Conrado é inteligente e desajeitado – seu manuseio com a cafeteira o caracteriza – e tem que despertar a atenção do público feminino, mesmo que nos seja apresentado degradando a função da mulher, motivo suficiente para ganhar aversão deste público. Marcelo é um playboy tolo, despreocupado e de índole insuportável. Cumpre o papel de “vilão” na empreitada. Já Tati é a sonhadora frustrada que decidiu pedir conselhos – a quem? – amorosos de Conrado. Se inicia uma versão às avessas de “Arte, Amor e Ilusão”, sem o equilíbrio e magnitude da obra de Neil LaBute, mas centrando no humano como objeto de estudo.

Feito unicamente para entreter e divertir para logo ser descartado e esperar um novo sucesso que venha alimentar o público faminto pelo gênero, qualquer gato vira-lata tem uma vida sexual mais sadia que a nossa é o típico “sei o que vai acontecer só em ler a sinopse”. De fato cumpre a previsão usando piadinhas aqui e ali, e utilizando um coadjuvante como válvula de escape para outras piadas, talvez as mais divertidas, Álamo (Álamo Faço), o amigo igualmente estúpido de Marcelo. Outras piadas, como a empregada doméstica limpando a casa ou a que Cléo Pires leva um tombo mais constrange do que provoca recreação. Feito à medida e seguindo a risca a receita típica mundial do estilo, é mais uma comédia romântica para se ver, rir e mais tarde esquecer.