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quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Proseando sobre... Os Escolhidos



Se o horror provindo do cinema hollywoodiano vem desapontando muito no cinema, salvo por uma produção ou outra esquecida em semanas, então pode-se dizer que esse “Os Escolhidos” é um sopro de fé sobre o gênero. Encontrando limitações narrativas e afetado por uma fotografia tradicional que não garante um clima obscuro diferenciado uma vez que soa como extensão de longas semelhantes, o filme se encaminha graças a condução de seu diretor que o leva a um patamar superior do suspense de expectativa, abrigado por boas atuações, clímax corajoso e pela montagem que oferece bons momentos de arrepio, ainda que curtos e certamente triviais.

Scott Stewart é quem escreveu o roteiro e quem dirige a fita. É dele o grotesco Padre (Priest, 2011), o que me fez automaticamente esperar desesperançoso seu novo projeto. E se expectativas em demasia costumam frustrar, o contrário também acontece. Filmes do estilo requer a crença de seu público para ter algum valor de gênero, o terror em forma e ação. Dependemos da fé cênica dos atores. Podemos nos permitir fazer parte do universo projetado, compartilhar da ficção e entrar na onda do absurdo, seja com demônios, espíritos, demais figuras folclóricas e extraterrestres. Esse último é o que se apresenta.

A história não traz lá nenhuma grande novidade. Uma tradicional família de um subúrbio vem notando coisas verdadeiramente estranhas acontecer em casa, especialmente com o filho mais novo que anda relatando ter contato com figuras inexistentes. Especula-se Sandman – o João Pestana, para os brasileiros – e seu mito, mas tudo vai além. O cume se dá quando bandos distintos de pássaros se choca contra a casa onde moram. Um especialista em ufologia aparece – o ótimo veterano J.K. Simmons numa interpretação bizarra – alertando o quanto esses eventos são comuns com algumas famílias e que o final nunca acaba bem. Registros de desaparecimentos em vários cantos do globo são colecionados pelo excêntrico velho. A família busca reverter o aviso.

Keri Russell e Josh Hamilton se mostram empenhados a não se aterem a vícios de interpretação, cumprem bem o papel de viver os pais preocupados com os dois filhos expostos a magia tenebrosa local. O enlouquecimento retratado é coletivo, acompanhamos a progressão e o quanto isso afeta os nervos conjuntos numa família que convive com dificuldades e incertezas sobre o futuro, algo trabalhado como forma de empatia, aproximando o espectador dos personagens. A lógica da produção se equivale a horrores semelhantes tais como Sobrenatural (Insidious, 2010) e Possessão (Possession, The, 2012) por hipóteses explicativas implicadas na descrença, o que permite embates tanto dentro do filme quanto fora dele. 

Comparado a outras obras, essa não visa o susto a qualquer custo, fazendo uso exacerbado de trilha sonora potente ou manjados recursos que implicam em previsíveis sobressaltos. O roteiro também não é um dos mais inovadores dentro da proposta, encontrando saídas óbvias para o que cria. A montagem por sua vez favorece as pretensões narrativas, explicitando tudo com competência didática. É uma boa história que abre margens interpretativas, conciliando real e imaginário com a sanidade dos envolvidos posta a prova. Algumas questões propostas pelo roteiro ficam a deriva – o desemprego/emprego do personagem de Hamilton veio para quê mesmo? – e a escuridão com suas abstratas possibilidades presenciais parecem ser mesmo o melhor mecanismo de tensão. E como irrita quando os realizadores demonstram não acreditar na inteligência de seu público e enfiam flashbacks buscando explicar o que por si só fora inteligível ao longo da narração. São escolhas óbvias e importunas que compromete o resultado da obra que se arrasta pra conseguir ser levada a sério.   



segunda-feira, 21 de março de 2011

Proseando sobre... Queime Depois de Ler



Filme absurdo, implausível, cheio de personagens que criam situações ilógicas e que ficam ainda mais insanas à medida que a história avança. Esse é “Queime depois de ler”, filme cujo time de atores contribui com a eloqüência de sua narração, um enlouquecimento coletivo cheio de manias e particularidades artísticas severamente detalhadas. Tudo isso que vemos em cena é o que os irmãos Ethan e Joel Coen fazem melhor: humor negro. Esse exemplar de sua filmografia é sem dúvidas uma das melhores comédias de 2008.

Compreender o que se passa na cabeça de seus personagens é perder tempo, a idéia é exprimir o inimaginável de cada um. Nosso papel enquanto espectador contracena com o personagem do ótimo J.K. Simmons, um dos chefes da CIA que observa tudo sem compreender a série de acontecimentos que está estranhamento acontecendo. Suas caretas indicando não entender as atitudes dos caras que está perseguindo são impagáveis. Um humor de natureza duvidosa, – não é para todos os públicos – é para se apreciar sem levar a sério. Seus diálogos são certeiros e magistralmente bem escritos centrando nos julgamentos pessoais de cada um dos personagens, destaque para o engraçadíssimo Chad Feldheimer (Brad Pitt, roubando a cena) e também para o paranóico Harry Pfarrer (George Clooney).

O roteiro assinado pelos irmãos é mesmo dotado desse humor escrachado, algo já visto em uma de suas obras anteriores, o ótimo “Fargo – uma comédia de erros”. A maior herança desse filme, fora o tradicional humor dos Coen, é a presença de Frances McDormand que naquela ocasião ainda levantara a estatueta do Oscar imortalizando seu nome como também “Fargo”. Já em “Queime depois de ler”, faz um papel controverso, porém importantíssimo, mas não tão inspirado como o outro que lhe rendeu o prêmio. Com um desempenho satisfatório de todo o elenco, é preciso ainda frisar John Malkovich, o mais instável dos personagens, talvez o mais esquisito entre todos eles. Seu Osbourne Cox poderia se tornar um ícone cult. Ainda estão no filme Richard Jenkins, Tilda Swinton e David Rasche.

Após estourarem no Oscar 2008 com o ótimo “Onde os fracos não têm vez”, os irmãos Coen revisitaram um gênero particular. Os caras se revelam cada vez melhores por trás das câmeras. São arrogantes, no entanto a inquestionável competência da dupla compensa. Esse é o jeitão particular dos diretores que começaram desde criança a trabalhar com filmagens. São risadas garantidas, desde que se aceite encarar um humor diferente onde seus detalhes demandam atenção. Comédias bem elaboradas quanto essa não aparecem todo dia, flutuam sobre as pastelões ganhando o destaque mais por sua inteligência do que por seu esforço em fazer sorrir. Isso é mérito daqueles que manjam como poucos trabalhar com um gênero tão cauto.