quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Proseando sobre... Missão Madrinha de Casamento


Foi-se versões de comédias masculinas com homens chutando o balde. Agora as mulheres se responsabilizam – ou se desresponsabilizam – pelas atitudes assinaladamente escatológicas nas situações as quais se envolvem. Esse é “Missão Madrinha de Casamento”, opondo a amizade íntima e o ciúme sobre um dos maiores desejos da mulher: o casamento. A ambientação do roteiro brincando justamente com o pré matrimônio explana óticas feministas, salientando o desejo pela troca de alianças e o seu pós. A magia se mantém e corresponde a expectativa dessas mulheres a beira de um ataque de nervos, mas sem a genialidade transposta por Almodóvar, se assim me for permitido usar seu filme como exemplo.

Lillian (Maya Rudolph) vai casar e convida sua amiga de infância, Annie (Kristen Wiig, ótima no papel) para ser a madrinha de honra. Extasiada, Annie quer fazer uma cerimônia inesquecível, mas se depara com uma outra madrinha, Helen (Rose Byrne de “X-Men – Primeira Classe”), linda e elegante, rica e talentosa no arranjo de grandes festas. O duelo entre as duas irá levar todo o filme, opondo distintas perspectivas e busca pela atenção. A primeira vem de derrotas, falência numa loja de Cupcakes e desprezo por homens; já Helen mora num imenso casarão, veste grifes e exalta superioridade, mas ressente pela soledade, o que garante um dramalhão responsável por não estigmatiza-la como vilã.

A proposta de colocar mulheres em situações costumeiramente vista com homens no cinema é o diferencial dessa cômica empreitada. Diverte-se ao seu modo pensar que a mulher não tem a camaradagem masculina, respira outras dinâmicas de relacionamento, se intricam e se alfinetam. É justamente nesse ponto que a comédia do diretor Paul Feig se intensifica criando recreação, trazendo distintos laços da união entre as madrinhas de casamento, propondo disputas pessoais pela atenção da noiva – e mais interessante do que simplesmente jogar desavenças é evidenciar que apesar das resoluções, as rixas nunca se perdem. “É a última...”, indaga umas das personagens. Feig assina o projeto, mas é a produção quem parece comandar com Judd Apatow (de tantas outras boas comédias como “Ligeiramente Grávidos”) ditando as regras.

Passado inteiramente na disputa pessoal de Annie buscando cada vez mais esclerosadamente a atenção da noiva, o filme acaba ignorando as outras personagens, meros coadjuvantes acrescentando frustrações pessoais através de breves diálogos indiciando, brevemente, quem são e quais as intenções dessas mulheres pelo casamento. Annie, com a lanterna traseira do carro queimada, explicita sua condição de mulher após os 30 anos completamente frustrada, entregando-se a relacionamentos pelo puro prazer sexual, duvidando da integridade dos outros a sua volta. Trocar essa lanterna, algo tão simples, torna-se um catalisador de personalidade, colaborando para concluirmos sobre a resistência da personagem em mudar. Negação e puro orgulho. Quando essa luz surge, outras iluminações vêm junto a ela. Cômico e grosseiro, característica autoral do produtor, o filme certamente divertirá vários públicos.   


segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Proseando sobre... A Hora do Espanto (2011)



A leva de filmes trazendo os sanguessugas noturnos não tem data para encerrar. Felizmente, para seus apreciadores, esse assunto cultiva bons elementos mesmo em tempos em que a saga “Crepúsculo” marcou uma nova idéia do ser vampiro. A moda tradicional segue soberana, um brinde de sangue a isso. E quando inovações entram num limbo, refilmagens acabam assumindo e a bola da vez é este “A Hora do Espanto”, baseado no clássico oitentista, mantendo os personagens originais e dando a eles uma nova ótica e um banho de modernidade. O vampiro presente segue carniceiro, é perigoso e letal como o tubarão de “Tubarão”, exemplo dado por um dos personagens, ao mesmo tempo em que debocha da versão de Stephenie Meyer.

Dirigido por Craig Gillespie, o cara por trás do ótimo “A Garota Ideal”, este filme não vislumbra um tema sério cujo humor de escape sugerido balanceie uma temática discutível. Aqui não há pretensões, há recreio e horror através de um vampiro exterminador. A história não é das mais atrativas, mas diante ao que deseja oferecer, funciona. O jovem estudante Charley Brewster (Anton Yelchin) mora com a mãe, Jane (Toni Collette), com quem tem uma relação bastante amistosa. Passa os dias com Amy (Imogen Poots de “Extermínio 2”), sua namorada, uma das garotas mais desejadas do colégio. Leva uma vida boa, invejável, mas carrega segredos, um passado nerd guardado a sete chaves – assunto que renderá uma subtrama. Seus problemas começam quando conhece seu estranho vizinho, Jerry (Colin Farrell), um vampiro sedento e decide voluntariamente combate-lo em defesa das mulheres de sua vida.

O vampiro Jerry, cujo nome parece tão ameaçador como Bill de “Tue Blood”, ganha uma piada inspirada. Mas fica só essa sugestão, a maldade impera sem sátira, mas com sangue e bom humor. O filme é inteiramente movimentado, com o roteiro de Marti Noxon (“Eu sou o Número Quatro”) debruçando-se completamente sobre as perspectivas do primeiro, com o mesmo charme e descompromisso dos filmes do gênero do anos 80. É quase nostálgica a experiência de conferir esta obra que encara reais possibilidades de não ser levada a sério. Mas será que é pra levar? Não importa a postura frente a ela, a diversão nos é devidamente proporcionada.

Com produção notoriamente inspirada nos pioneiros do gênero, “A Hora do Espanto” é um aglomerado de situações comuns numa versão dinâmica, apoiada na moda vampiresca para resgatar um de seus clássicos com direito a cruzes, alho, queimaduras solares e estacas. As atuações não fogem a regra do convencional, se destaca Colin Farrell (que já vinha de um ótimo desempenho em “Quero matar meu Chefe”) e David Tennant que encarna um mágico canastrão interessado em mitos fantásticos. As ambientações também triunfam, se sobressai a direção artística expondo a casa de Charley e seu quarto juvenil contrapondo a enigmática e escurecida casa do vizinho. Com esse resgate, resta esperar, com pessimismo, se “Fome de Viver” ou “Drácula” correm o risco de ganharem também uma nova versão.


domingo, 9 de outubro de 2011

Proseando sobre... O Filme dos Espíritos


 Bom perceber que uma obra como o "O livro dos espíritos" de Allan Kardec não tenha sido ousadamente adaptado para o cinema, mas surgido como inspiração significando o impacto das palavras segundo os espíritos para algumas vidas. Isso não quer dizer que tal realização tenha sido uma concepção certeira de uma moral. Triste é especular o filme como finalidade mercantil exaltando a doutrina espírita como também as Casas André Luiz. Para fundamentar essa estrutura de teor comercial, vários personagens somam a história através de subtramas breves encaminhadas a um mesmo lugar.

Na direção a dupla André Marouço e Michel Dubret fazem um trabalho convencional, e tentam através de planos detalhe elaborar significados em imagens, como “O livro dos espíritos” numa estante ao lado de pensadores evocando a importância da obra em meio a ciência; o quadro cuja face de Jesus é revelado durante um desvelo; ou a pintura “A Criação de Adão” de Michelangelo ao fundo num escritório de um dos mais notáveis seguidores da obra de Kardec. Tal percurso explícito na narrativa são apenas minúsculos momentos adequados a temática transposta, e poderia ser grandioso enquanto um filme que busca se apoiar no livro base do espiritismo.

A narrativa escrita por André Marouço sofre para ser minimamente crível. Há um acumulo de histórias que se entrelaçam que até Guillermo Arriaga teria dificuldade para solucionar. A rapidez dessa tentativa só é dada através de desenlaces frívolos sem outras razões a não ser comover o público, especialmente os adeptos da doutrina. É natural que estes apreciem a obra uma vez que buscam ver exatamente o que o filme propõe mostrar. Trata-se de uma grande disseminação de tal ideologia num olhar altruísta cheio de mensagens em pró da vida num otimismo voluntário.

Bruno (Reinaldo Rodrigues) é um professor universitário sofrendo pela morte da esposa. Com ela, ele compartilhava um segredo, algo ressentido capaz de provocar ainda mais lamentações por um passado escolhido. Nesse ponto uma temática polêmica é levantada e discutida seguindo os preceitos da filosofia espírita. Há uma resolução numa cena durante uma sessão de grupo proposta pelo Dr. Levy (Nelson Xavier) ligando o passado e o presente de um personagem caça níquel referente ao tema. A maneira utilizada pelo diretor em conciliar o significado da ação neste ato é embaraçosa e deslocada.

Se o roteiro falha, os aspectos técnicos também não oferecem muita coisa, entregando-se ao lugar comum sem inovações. A maneira de exibir o desalento de seus personagens através do excesso, como Bruno e suas constantes bebedeiras, ganham força pela fotografia turva e pela direção artística buscando sombras. A vida obscurecida celebra a luz através do esclarecimento, da influência aspirante propagada, do livro velho passando de mão em mão oferecendo conforto.

Sem complexidade e cheio de mensagens perdidas pelo exagero de sua composição relacionada às várias histórias cruzadas, “O filme dos Espíritos” deixa de ser uma homenagem a obra de Allan Kardec para soar como um produto da doutrina espírita com potencial de angariar novos adeptos. Não quer dizer que o longa tenha sido feito unicamente com este propósito, mas custa crer no contrário a esta hipótese devido sua inferência fílmica e fragilidade em contar uma história onde a força se dê também no seu desenvolvimento, dispensando as precipitações das conclusões determinadas.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Proseando sobre... Elvis & Madona


O filme dispensa polêmica, seu tema já é tratado com certa espontaneidade, embora ainda encontre aversões. Há algum tempo “Transamérica” de Duncan Tucker foi agraciado, chegou em boa hora trazendo uma viagem de um travesti junto ao filho. Agora, “Elvis & Madona”, que rodou o mundo ganhando prêmios, finalmente chegou aos cinemas do Brasil. O longa explora um relacionamento inusitado, uma lésbica que se apaixona por um travesti. O diretor Marcelo Laffitte escreveu o roteiro logo após assistir num programa da TV Americana um transexual pai de família tentando se reconciliar com os filhos. A inspiração levou-o a concluir esse trabalho rodado desde 2008, com histórico de crises financeiras. O resultado é morno, exibe com sutileza um encontro impensável de modo trivial, similar a proposta de “Além do Desejo” de Pernille Fischer Christensen, mas aqui referente a um caso de amor súbito.   

Elvis, codinome escolhido por Elvira (Simone Spoladore), é uma fotógrafa gay apreciadora de Copacabana, mas que não consegue se manter apenas com esse trabalho. Fã de motos, decide trabalhar como entregadora de pizza, escolha que a leva ao apartamento de Madona (Igor Cotrim), uma cabeleireira travesti frustrada por ter sido extorquida por um antigo caso amoroso. De imediato a relação entre as duas se estreita, com o vislumbre da primeira projetando uma idealização conceitual sobre a outra, o que garantirá uma afeição íntima e de cumplicidade entre ambas.

A ambientação carioca se condensa nas ruas onde Elvis percorre com sua moto ou na orla, local escolhido para fotografar. Neste ofício, um registro acidental colocará energia na trama, um estímulo para testar a relação do casal. O contexto indubitável explana possibilidades de encontros, de paixões – a angústia, tolerância e aceitação –, sonhos – um espetáculo de drag queens, a contratação num jornal local –, a obrigatoriedade de conseguir algum dinheiro exclamado em vários diálogos, e o futuro. Dentro desse olhar que Laffitte sutilmente dá sobre estes típicos elementos da vida, às vezes esquecemos do romance e de sua singularidade a partir do momento que notamos dificuldades iguais a de qualquer um. Uma constatação: todos somos iguais, embora desiguais.

Igor Cotrim doa simpatia e autenticidade ao seu personagem através de meneios bem construídos ao passo que Simone Spoladore investe em flertes, seduzindo com olhares desejosos, assumindo um papel masculinizado. O desempenho e química da dupla é um dos maiores trunfos do longa que não satiriza os papéis de seus protagonistas, mas desenvolve com sinceridade a relação que a princípio nos soa estranha, chegando a questionar num determinado ato o que é o normal. No elenco, ainda se destacam Maitê Proença assumindo uma persona dual e picaresca, e José Wilker numa ponta, impagável, revelando um papel anteriormente omisso, mas presente em toda a trama.

O relacionamento disposto capaz de afugentar alguns espectadores ganha status de comédia romântica pelas situações empregadas, tornando, por vezes, a narrativa problemática, quando a seriedade de algumas conjunções são ignoradas a troco de piadas, como aparente defesa do diretor em não propor uma reflexão ampla sobre o assunto da identidade sexual. Mas tal reflexão existe, e questionamentos são cabíveis nessa dinâmica proposta cujo roteiro não transfere opiniões particulares, mas trata tudo esbanjando bom humor. Fica só nisso, com a dupla central roubando todas as cenas e uma jornada em busca de felicidade, para com o mundo e para com o outro, numa atmosfera claramente inspirada nos trabalhos de Almodóvar.

sábado, 1 de outubro de 2011

Proseando sobre... Premonição 5


 Premonição 5 segue os mesmos passos dos outros 4 filmes, procura elaborar mortes de uma maneira descontraída e surpreendente, tudo para brincar com a expectativa de seu público, sedento para se divertir com o desastre alheio, sempre iniciado por uma grande catástrofe. A história dessa vez baseia-se na queda de uma ponte, uma calamidade sem precedentes julgada como obra da natureza. Um jovem tem a premonição e consegue salvar alguns amigos, mas não demora, e a morte que não pode ser enganada, volta para buscar um a um. O desgaste da história é visível, a novidade fica por conta do 3D sem economias, sempre direcionando tripas para a tela, banhando o espectador com sangue, tirando de muitos deles gargalhadas ao mesmo tempo que horroriza.

O interesse desta quinta parte é puramente comercial, econtinua dando certo. Para não ficar no vazio, até existe uma tentativa de provocar uma nova discussão sobre a relação disposta após o acidente. O convívio entre os sobreviventes não se torna um jogo de ameaças, mas a medida que a comprovação da inevitável morte chega, os ânimos estremecem e tentativas atônitas de contornar a situação são criadas: entra em cena a intolerância pela possibilidade da morte, a justiça do porque uns devem morrer enquanto outros não. Nesse sentido, o roteiro de Eric Heisserer e Jeffrey Reddick permeia lamentações e frustrações garantindo não somente a morte – personificada por sombras e brisas – como vilã, mas a insegurança de alguns como ameaça.

Dirigido por Steven Quale, Premonição 5 parece aproveitar idéias descartadas da franquia "Jogos Mortais" na proposição das armadilhas. Faz uso, por sua vez, de eventos novos a fim de explorar novos meios de acidentes sem temer a bizarrice. Até a acupuntura surge como possibilidade. O jovem cozinheiro Sam Lawton (Nicholas D'Agosto) é perseguido pela polícia como suspeito do acidente, uma vez ter dito que sabia o que iria acontecer. Nesse ato, o deboche, marca característica da série, levanta questões sobrenaturais sem explicá-las apenas para desarmar o público, obrigando-o a curtir o filme apesar de qualquer coisa. Nem seus realizadores levam a sério.  

Tonny Toddy, o ex "Candyman", novamente marca presença avisando os sobreviventes sobre a impossibilidade de driblar a morte e sugere que matem alguma outra pessoa, tomando assim seu lugar. Com esta prevenção, cria o conflito no grupo que especula sobre coragem e capacidades. O sobrenatural está afoito nessa quinta parte, porém divide com a moral o caminho de suas finalidades. Quale explora o 3D com precisão e entrega cenas bastante criativas, destaca-se a ginasta na barra (Ellen Wroe). Com jovens e desconhecidos atores, destacam-se Courtney B. Vance, David Koechner e Emma Bell – esta última teve experiência recente de sofrimento no cinema no torturante "Pânico na Neve" –, Premonição 5 se finda como um célebre entretenimento sádico e ganha ainda um bônus por sua ligação com as outras histórias, criando um fluxo surpresa sobre os desastres ocorridos.