domingo, 7 de novembro de 2010

Proseando sobre... Gainsbourg - Vida Heróica


Uma das personalidades francesas mais notáveis foi Serge Gainsbourg, o que não quer dizer necessariamente ser um exemplo a ser seguido. Mas o cara, pianista, poeta, pintor dentre outros ofícios, fez história tanto com sua arte quanto com as mulheres, tendo entre elas ícones como a atriz Brigitte Bardot e a cantora inglesa Jane Birkin. Há ainda muitas outras. Ele recentemente ganhou um filme, “Gainsbourg - Vida Heroica”, que esteve na 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Quem tiver interesse em assisti-lo, irá acompanhar Gainsbourg perdido no meio de corpos torneados femininos, fumando incontáveis cigarros e se envolvendo em freqüentes bebedeiras. Pra lá de uma vida boêmia, é uma vida sem limites cujas incidências já eram sintomáticas ainda quando criança. A cena da aula de pintura e seu cortejo pra cima da modelo nua desperta a atenção e tira várias risadas. Nos resta a pergunta: “essa figura existiu”?


E existiu. O ator Éric Elmonsino vive Serge Gainsbourg, não ficando somente na aparência física, ele encarna Serge com arrebatamento marcante motivando aplausos. O filme, possivelmente especulado louco, tem uma característica que o torna ainda mais interessante: ser narrado enquanto fábula e não obrigatoriamente seguindo realidade. Tal escolha é característica de uma outra personalidade francesa, o quadrinista Joann Sfar. No currículo, Sfar tem como principal obra “O gato do rabino”. Já no cinema, essa é sua primeira empreitada e a realiza com elegância e criatividade ao trazer personagens irreais, representações egóicas de seu protagonista, principalmente a voz que o persegue desde criança. Caracterizado pelo exagero deforme, nariz e orelhas compridas, esse ser é uma caricatura bem reproduzida de Gainsbourg. Quem vive esse personagem alegórico é Doug Jones, já famoso por representar figuras do gênero como o Fauno e o Homem Pálido de “O Labirinto do Fauno”, e também o surfista prateado da franquia “Quarteto Fantástico”.

Quanto ao protagonista de personalidade inusitada, é trabalhado com descontração: iremos rir de suas atitudes peculiares. Dono de ações questionáveis, Serge Gainsbourg deixou uma vida repleta de excessos cujos desafios, insolentes do ponto de vista moral, estigmatizaram sua estranheza verossímil. Muitos irão se identificar com esse galanteador que não tem pinta de galã – e afirmo isso diante o óbvio. Na época, esse improvável sedutor, com trejeitos desengonçados só para atenuar o tipo, deixou vários outros com inveja devido suas investidas e conquistas românticas que atingiram celebridades de projeção mundial, caso da loura diva Brigitte Bardot, aqui vivida pela bela Laetitia Casta. Enquanto músico, concebeu melodias imortais e ousou transformar o hino de seu país numa versão reggae que gerou polêmico e ataques pessoais. Aos apreciadores de cinebiografias, certamente a de Gainsbourg irá figurar entre as mais originais e, essa vida heróica, sugestão de seu título original, é uma vida desmedida, vivida como o próprio sempre quis. 


sábado, 6 de novembro de 2010

Proseando sobre... Bróder



Capão Redondo, periferia da região sudoeste de São Paulo, é o local ambiente de “Bróder”, filme do diretor estreante em longa metragens Jeferson De que traz 3 caras seguindo vidas distintas: Macu (Caio Blat) vive de bicos e leva uma vida despreocupada; Pibe (Silvio Guindane) é corretor de seguros e atual pai de família; e Jaiminho (Jonathan Haagensen) em franca ascensão na carreira de jogador de futebol, atualmente aguarda pela convocação da seleção brasileira. Os 3 irão se unir para o aniversário de Macu que irá ganhar uma festa de sua família. Tal surpresa, no entanto, acaba comprometendo seus planos de arranjar algumas distrações para uma criança prestes a ser sequestrada. Agora o disfarce tomará as rédeas do longa com a insegurança do protagonista agindo com naturalidade hipócrita frente ao grave risco que se submetera.

O filme retrata o dia a dia do Capão Redondo, mostrando a relação íntima que seus moradores tem com o local, e não se intimida em revelar a violência que permeia seus arredores. Compromissado com a realidade, o diretor nos apresenta a comunidade a partir da ótica do protagonista em interação com os membros da região e com o próprio Capão. Logo na cena inicial, Macu sai pelas ruas, despojado, e a câmera adentra pelos pequenos becos revelando em planos rápidos toda a extensão do lugar. É a introdução convidativa de um longa muito mais preocupado em divertir com seus ótimos personagens. Várias cenas cômicas quebram o clima que por vezes se abala. Os conflitos assolam, destaque para a relação entre Macu e seu padrasto Francisco (Aílton Graça), sempre tencionada estendendo-se até um bar onde um bêbado provoca o destino do rapaz comparando-o ao alcoólatra personagem de Graça.

A coisa toda ganha mais seriedade quando uma nova proposta é oferecida a Macu, fazendo-o escolher entre sua segurança ou a de seus amigos. O título “Bróder” evoca a relação entre os membros da comunidade, sobretudo entre os amigos, e “bróder” não é exatamente a maneira certa de se dirigir ao outro ali, mas sim “mano” – essa explicação se conjuga num dos momentos mais divertidos do longa, embora se passe em uma das cenas mais aflitas. Caio Blat rouba a cena e constrói um personagem fugindo bem dos estereótipos pelas mãos de De a começar por não ser negro. Ao seu lado Cássia Kiss fundamenta a personagem mãe de Macu com austeridade imaculada e comprometimento enquanto temor pelo bem estar do filho naquele lugar.       

Jeferson De estréia na direção de um longa após ter filmado alguns elogiados curtas, casos de “Gênesis 22”, “Distraída para a morte” e “Narciso Rap”. O cara transmite com clareza o dia a dia do Capão Redondo com a particularidade de quem conhece o lugar – o cinema de periferia ganha um ótimo exemplar com esse trabalho. Alguns diálogos deverão ser reproduzidos pelos espectadores após o fim da projeção com as gírias e caracterizações peculiares dos moradores da região. E também algumas cenas ficarão na memória, como a que um homem baleado está caído no meio da rua e ninguém a não ser parentes se importam com aquele corpo estranho esquecido.

A dinâmica dos personagens se justifica na expressão cultural própria do trio central, cada um expondo suas vidas e as angústias que atualmente os cercam, atrás de uma vida confortável, conquista rara aos habitantes dali; nesse âmbito Jaiminho surge como um ídolo e símbolo de referência aos moradores vendo um ente despontando enquanto jogador na Europa. Ali De registra também a lembrança de outros que não tiveram a mesma sorte, ou mortos vítimas da violência ou por terem escolhido um caminho mais fácil por dinheiro. Nesse ponto, “Bróder” funciona também como um registro de condições às quais alguns são obrigados a se envolver e, muito embora exista a idealização de um caminho que não seja o transgressor, acabam cedendo a exigência sob ameaça inclinados a conduta de fazer o que for pela sobrevivência. 


sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Proseando sobre... Vc tá aí



Isolamento e distanciamento do real, o mundo da tecnologia abusiva separando, individualizando socialmente. O contato com o mundo, em alguns casos, se restringe e mantém prisões particulares onde outros interesses nos capturam comprometendo um convívio mais humano. Como tantos, o protagonista desse “Vc tá aí”, filme exibido na 34ª Mostra de Cinema Internacional de São Paulo, vive no mundo dos games e o contato com o exterior parece-lhe distante. Preso aos jogos, viaja o mundo com outros caras competindo mas, o que poderia ser também uma viagem entre amigos, se revela uma equipe com interesses em comum cuja interação extra profissional é limitada. Jitze (vivido pelo ator Stijn Koomen) está imerso nessa contemplação virtual e seu ostracismo social traduz-se em várias cenas como a solidão de seu apartamento e os fones de ouvido que parecem extensões de seu corpo.  

Dirigido pelo holandês David Verbeek, “Vc tá aí” acerta o alvo que pretende: explora com cadência sensorial as conseqüências da globalização e a propagação do mundo virtual com a influência desse sobre a vida da atual geração. Verbeek tem um roteiro bem amarrado, seguindo a lógica do avanço da tecnologia e competições profissionais internacionais de games. Em Taipei, o jovem Jitze, que embora passe horas na academia fugindo do sedentarismo como sequela de sua profissão, sente ao acordar uma forte dor no ombro consequente das várias horas dedicadas aos treinos e campeonatos. Logo acaba afastado da equipe para se tratar. Sem o que fazer, vaga pelas ruas e encontra dentro de um elevador uma prostituta, Min Min (Ke Huan-ru), e pede para que ela lhe faça uma massagem. O convite termina aceito.

A repercussão desse recolhimento emplaca uma reflexão sobre inferências que o mundo virtual acarreta. É um assunto de disseminação urgencial – há jovens cada vez mais incapazes de se desligar da internet. O filme vai além da adicção por virtualidade, ato muito bem representado com Jitze que se percebe afim de Min Min quando é tocado por ela de maneira carinhosa e cuidadosa. No entanto, suas investidas enquanto oportunidade real acontece através da expressão de pedidos por massagem, e fica claro sua inabilidade em aproximar-se afetivamente, até descobrir que a garota passa horas no Second Life e decide criar um perfil lá. Aí sim ele concebe uma relação íntima. Nesse simulador, fica claro às idealizações do casal: Min Min é uma fada e vive num mundo bastante distante daquele da cidade enquanto Jitze assume o avatar de um soldado, caracterização sem novidade e criatividade, seguindo o mesmo modelo de avatar dos jogos os quais está envolvido. O rapaz cada vez mais dependente da companhia da moça passa a pagá-la para tê-la por perto. Nesse âmbito a relação avança e a construção de uma vida dedicada ao vídeo game estremece quando a companhia anteriormente remota torna-se comercializada.


quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Proseando sobre... Arcadia Lost

O grego “Arcadia Lost”, exibido na 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, é falado em inglês e contém pouquíssimos diálogos com a língua original. A história irá acompanhar alguns dias das férias de uma família americana. Quanto ao elenco, é recheado de atores de menor expressão exceto pela presença de Nick Nolte. Com um prólogo charmoso, o filme dispõe de flashbacks apresentando uma família em dias felizes, – no detalhe dias ensolarados – e esboça especialmente a íntima relação entre pai e filha denunciando a adoração da menina que brinca e provoca incessantemente chamando a atenção do pai. Uma canção sutil alenta a introdução onde sem delongas amargará um desastre.

A direção ficou a cargo do cineasta grego Phedon Papamichael que atenua com sensibilidade comovente os primeiros minutos de seu projeto, apoiando com atuações burocráticas o desenrolar de uma história com um forte texto dramático e teor filosófico em sua tessitura. O rigor do dramalhão se dá na reprodução de seu conflito: a jovem Charlotte (Haley Bennett) não aceita o padrasto e teme pela ocupação desse homem estranho assumindo o lugar de seu falecido pai. São várias as intrigas entre os dois, resultando em desafios e ofensas contra a mãe, desolada durante a viagem pela Arcadia na Grécia, flagra a filha no quarto do hotel juntamente a um desconhecido.

O estouro dessa relação resulta num grave acidente que deixa Charlotte e Sye (Carter Jenkins), o filho de seu padrasto, numa espécie de limbo em busca de um caminho e recebem o auxílio de um homem incógnito, o barbudo e misterioso Benerji (Nolte), cheio de parábolas e lições. Os dois terão de encontrar a direção para retornarem ao local do acidente numa região litorânea, mas antes precisam descobrir um sentido para suas vidas. O percurso irá permitir uma reflexão acerca desses dois personagens vivenciando um novo contexto – a mensagem ao público é evidente embora maquiada e transformada em alegoria complexa. Não estranhe descobrir os finalmentes da história antes do final de sua primeira metade.

“Arcadia Lost” resgata várias de suas cenas no decorrer da história, enfatizando diálogos passados remetendo significados insistentes. O filme está repleto deles. Seu maior valor é a possibilidade de experienciar a narrativa, fazer com que o público viva o filme e questione os entraves de seus personagens, em suas angústias e frustrações; e ainda refletir sobre o onde se encontram perdidos. O espectador de fato mergulha num mar de simbolismos e a imersão dessa asfixia se dá na conclusão particular própria e singular de seu público. Não é um filme para todos os gostos e se mostra mais valorizado do que realmente mereça, no entanto tem sua minúcia e um encanto favorável que o faz digno de alguma atenção.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Proseando sobre... Piranha 3D


 É um dia normal no lago Victoria. Um homem está pescando tranquilamente e bebendo cerveja. Um peixe fisga e briga com o pescador que consegue retira-lo da água sem muitos esforços. Não é uma piranha. Mas há algo errado. Um tremor, a água inquieta e uma vertigem se apoderando do homem e seu barco. No fundo, uma fenda enorme revela um cardume gigantesco de piranhas e o pobre pescador será a primeira vítima. Tem início “Piranha 3D”, um legítimo horror trash sem economias de sangue e mulheres completamente nuas. Eis uma refilmagem cujo original é de 78; o novo se apossa completamente da tridimensionalidade tornando-se um exemplar primoroso da tecnologia 3D. O exagero é um mero detalhe.

Em volta do lago milhares de turistas anualmente se encontram a procura de diversão. Músicas, drogas e sexo são alguns dos atrativos. Há ainda um barco levando duas atrizes pornôs lésbicas que irão filmar algumas cenas nadando. Não irá faltar sensualidade e closes nada tímidos. Já a história, pouco convincente, traz um jovem que deixou seus irmãozinhos mais novos em casa para participar da produção da filmagem e, quando os ataques iniciam, percebe-se preso dentro de um barco junto com um diretor espalhafatoso vivido por Jerry O'Connell e garotas alcoolizadas. Enquanto isso, sua mãe, uma xerife de impulso, está tentando esvaziar o rio contra a vontade dos jovens em anarquia.

A história não foi feita para se levar a sério. E nem se deve. Na proposta de divertir, o longa se garante e provoca risadas e nojo com tanto sangue e cenas de mutilações bem realizadas. Há uma verdadeira sequência que extrapola o absurdo, recordando clássicos filmes de horror como “Tubarão” e “Navio Fantasma”. Já as mulheres, sujeitas à admiração para os homens, são objetos da câmera do diretor Alexandre Aja que concentra algumas tomadas em nudez, blusas molhadas, decotes e beijos calorosos em corpos banhado de álcool. A libido dos apreciadores será estimulada. O aparato 3D é o que mais se destaca com algumas cenas no fundo do lago impressionando. É provavelmente o melhor que o filme exibe em seus 90 minutos.

Alexandre Aja não só dirige como escreve o roteiro e inicia o que provavelmente se tornará uma nova franquia para o cinema. No projeto estão caras conhecidas como o parceiro de Tarantino, Eli Roth, além de Elisabeth Shue e Christopher Lloyd. O elenco entra bem na brincadeira e acrescentam ao dinamismo narrativo. Aja extrapola, a história é desproposita e muitas vezes nem faz sentido, no entanto, seu teor cômico, brindado com humor negro despretensioso, faz do longa uma experiência divertida reconhecida pelos próprios realizadores como uma gigantesca bobagem – e isso faz o filme valer o ingresso. “Piranha” é mais do que uma refilmagem, é um delírio picaresco e encarado como de mal gosto. Trata-se de um ótimo filme ruim e isso é ser sincero ao não travestir a história. O deboche é seu mérito.